quarta-feira, 31 de julho de 2013

Pauliceia acompanhada

(leia sorrindo) 

 A pior forma de solidão é a companhia de um paulista. Essa maldade não é minha, mas do Nelson Rodrigues, que sabia como ninguém dar ares de verdade eterna aos seus gracejos. E eu pensava com graça nessa frase depois de ter tido um dia cheio de companhias – e todas eram paulistas. Na véspera mesmo, ao invés de fazer turismo em São Paulo, eu havia passado a tarde inteira jogando conversa fora com uma paulista em uma banca de jornal. E ainda estaríamos lá, se não anoitecesse e a banca não tivesse que fechar. De lá ainda fui convidado para tomar generosa sopa na casa desta que é a mais ensolarada das paulistas. Há poucas pessoas capazes de fazer a mim, que quase não falo, conversar por horas seguidas.

Durante esses dias, estive bem hospedado na casa de uma família mineira, mas nem por isso menos paulista. Lá mora uma moça bastante simpática cujo nome significa esperança, mas que ainda não viu nada de especial nisso. Há dez anos compartilhamos melancolias que nela não aparecem à primeira vista. Tampouco apareceram enquanto estive lá. E ela me acompanhou até a Avenida Paulista, onde havia outras tantas companhias para encontrar.

Era gente que eu nunca havia visto na vida. Mas com eles eu havia partilhado nos últimos anos a maior parte das minhas leituras e dos meus palpites sobre literatura. Acreditem: somos uma comunidade do Orkut. Ainda existe Orkut. Expulsamos todas as pessoas de lá e agora temos uma rede social só para nós. Somos poucos, é verdade. Mas com que paixão debatemos livros e escritores! E ali estávamos alguns de nós, na Casa das Rosas, para tomar um café e descobrir quem exatamente existe atrás da tela do computador. Em mim descobriram uma voz que dizem ser de locutor. Nada sei. Eu descobri mais uma porção de pessoas para passar algumas boas horas em São Paulo.

Esta também foi a primeira vez na história da literatura que um escritor tomou conhecimento do seu próprio livro justamente no momento em que um leitor lhe pedia para autografá-lo. Assinei então a minha humilde coletânea de crônicas “Brasília quando perto”, que eu havia lançado sem ter visto o livro pronto. E ficamos todos conversando coisas que antigamente apenas escrevíamos. De repente, houve uma alusão à violência nas ruas em São Paulo. Só então me ocorreu o óbvio, ou seja, existe violência nas ruas em São Paulo. Lembrei que à noite eu estaria na Rua Augusta. São Paulo está cheia de pessoas para se encontrar!

Estive ainda em duas livrarias na Paulista, nas quais apliquei o meu método particular de avaliação, ou seja, o número de livros do Rubem Braga à venda – ambas reprovaram. Tudo isso devidamente acompanhado por gente que folheia livro como quem prova sapato. E assim chegamos à Augusta, onde me aguardavam 42,8% dos escritores do blog Vida a Sete Chaves. São três cronistas que um dia eu juntei no blog porque não queria ser cronista sozinho. E eu os juntei porque gostei do que escreviam, não por serem tão animados e divertidos como os encontrei. Cronista é um bicho muito bacana!

Pois é. Eu falo pouco e estava rouco no fim da noite. Que barbaridade. Disso tudo só posso concluir que, ao menos para mim, a pior forma de solidão é a ausência de um paulista!

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Lira paulistana


(Leia ouvindo) 


 E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um outono invencível. Vestindo agasalhos e melancolias, eu caminhava sozinho pelas ruas de uma São Paulo quase provinciana. Sou um homem livre em meio à multidão que trabalha, geralmente naquilo que não ama. E, por ser assim, também sou um homem cheio de dúvidas, que não sabe para qual parte da cidade levar as suas angústias. Mas tenho muito rostos, e por isso caminho com naturalidade – passo facilmente por paulista. A única coisa capaz de me trair são os cruzamentos: sempre olho para o lado errado antes de atravessar a rua. No mais, sou também um quatrocentão, mais velho que os tantos prédios históricos por onde passo, e digno da mesma indiferença na bagunça das calçadas.

Ah, a Estação da Luz! Tanta poesia, tanta agressão. Antigamente até Nossa Senhora era da Luz. Hoje não haveria espaço para ela nos vagões da CPTM. Os trens chegam, já sem nenhum romantismo, as portas abrem e as pessoas disparam ensandecidas – reforço: disparam ensandecidas. E neste tenro gesto vos contemplo. Somos milhões, e para não nos esmagarmos e nem pisarmos uns nos outros, pedem apenas que deixemos a esquerda livre quando usamos as escadas rolantes. Feito isso, estamos livres para ter a pressa que desejarmos. Mas eu sou atraído pelas melodias de um pianista de Hamelin – inacreditável respiro no meio da afobação, bem-encaixado adereço num ambiente em que a própria visão de onde se está já não causa a menor comoção.

Volto às ruas e tenho a nítida impressão de que todo mundo está perdido. Estão todos querendo chegar a algum lugar que não sabem onde fica. Frustro a todos que me pedem informação. Tenho sempre engatilhado o irrefutável argumento de não ser daqui. Quase o usei para dispensar uma garota que me oferecia canetas e chaveiros para ajudar não sei qual causa. Achei caro e não comprei. Mas tive pena da garota, que no meio da praça pouco movimentada arrumava coragem para abordar aqueles que mais tinham cara de cristãos – e eles não compravam. Continuei meu caminho, somando essa às outras tristezas que carregava comigo.

Estou agora na Consolação, geograficamente falando. Também aqui, como em todo lugar, há um pedaço do meu passado. O velho Giese, homem lá do sul, um dia morou no distrito da Consolação. Isso no tempo em que o velho Giese não era velho. O que veio fazer aqui, velho Giese? Ou, pior: o que eu estou fazendo aqui? Tenho andado muito, e nem sempre soube para onde estava indo. Mas continuo andando, porque ficar é impossível. Aproveito para entrar na igreja local e ouvir um pouco do silêncio paulista. Vejo almofadas no espaço em que os fiéis se ajoelham, o que deve ser uma consolação muito grande.

Percebo com satisfação que a sombra em São Paulo é inevitável – os prédios a garantem. O sol está pálido, dentro e fora de mim. Nebulosidade variável, com possibilidade de chuva no decorrer do período. Garoa, sai dos meus olhos! Deixe-me ver as coisas como elas são! Pego um jornal e me dou conta que coisas continuaram acontecendo no mundo, apesar de eu estar viajando. Procuro um banco para sentar – estou cansado de tentar não me importar. Sentado, espero o primeiro pedinte, que já se aproxima.  

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Pierina e pouco mais

 Como já é bastante comum que eu folheie algum livro e, sem querer, logo me depare com alguma citação ao Rubem Braga, não estranhei que justamente nos dias em que estive em São Paulo, vindo de Taubaté, houvesse uma exposição sobre ele no Museu da Língua Portuguesa. É uma lei de atração que provavelmente apenas a mecânica quântica consegue explicar. Ou ela ou o fato de que na última década li, reli e treli todos os seus livros, pesquisei e esmiucei todas as características de suas crônicas, transformei-o em frias tabelas e estatísticas na minha monografia, troquei informações com outros leitores e pesquisadores, vim parar em Brasília por conta disso, criei um blog sobre crônica que leva o seu nome, cheguei a dar entrevista sobre ele, adotei a crônica como meu gênero de leitura favorito e, como se não bastasse, ainda me animei a escrever por causa dele.

Não era, portanto, um desconhecido que fui encontrar no museu. E por isso também não esperava encontrar muita novidade. Pra mim já era bom ver o Braga sendo visto – pelo menos no ano do seu centenário. E lá estava o Braga repórter, escritor, editor, diplomata, cachoeirense, amante das artes, homem da TV e, sobretudo, combatente da FEB. Digo isso porque foi grande o destaque dado à participação de Braga na Segunda Guerra. As salas foram revestidas com capas de jornais da época. Abaixo das manchetes, a crônica que o Braga mandava direto do front na Itália. Também havia uma sala cheia de telefones antigos. Cada um dava uma notícia ou tocava uma música desse tempo. Seria bom se com isso também o “Crônicas da Guerra na Itália” pudesse ser mais conhecido. É um livro diferente do Braga, e ao mesmo tempo um dos mais bonitos.

Pude ler também a sua primeira crônica publicada em jornal – a parnasiana “A Lágrima”, que nem de longe lembra os melhores momentos do Braga. A redação que fez na quarta série, no entanto, chamada “A Batalha das Flores”, já deixava antever muita coisa que viria a fazer parte do seu estilo como escritor. Há ainda entrevistas, fotos, documentos, rascunhos, e outras coisas mais que deixam a gente feliz por vê-lo homenageado.

Tudo isso exposto aqui em São Paulo, onde o Braga se sentiria bem. Ele dizia que Congonhas já havia entrado para a sua geografia. Nesta soberba cidade os seus nervos estalaram, entre emoções e solidões, como vergas de metal do velho viaduto. Dentro dele vibravam, como parte de sua vida, as agitações da ânsia multifária e triste de São Paulo. Era também homem de coração fácil, que logo se afeiçoava a locais, erguia um palco para suas emoções e colocava discretas placas de mármore comemorativas – tudo isso ele escreveu.


E há também Pierina, a amada que vez ou outra aparecia em sua crônica no Diário de São Paulo em 1934. Pierina existiu e se chamava Pierina. Com ela Braga se correspondia por meio de sinais e gestos da janela do seu prédio para a janela do sobrado dela. Às vezes lhe jogava flores ou frutas, sem acertar o alvo. Nunca chegaram a se encontrar, e logo o Braga se mudou de São Paulo. Mas, naquele tempo, o que amava o Braga? Pierina e pouco mais. Pierina e a vida, duas coisas que se confundem hoje, e amanhã mais se confundirão na morte.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Na terra da velhinha de Taubaté


 Sendo turista, posso conhecer os museus que os próprios moradores da cidade nunca tiveram ocasião para conhecer, pois estão todos preocupados demais vivendo. Sei como é: moro em Brasília há três anos e, ao contrário dos turistas, ainda não conheci o Museu JK, e só na companhia de outros visitantes é que conheci o Palácio da Alvorada. Assim, não foi de se estranhar que poucos soubessem da localização e até mesmo da existência do bonito e completinho Museu Histórico Professor Paulo Florençano, em Taubaté. Ele está localizado na Avenida Thomé Portes Del Rey. Taubaté tem cerca de 300 mil habitantes, mas imagino que eu, estrangeiro, seja o único por lá capaz de citar Thomé Portes Del Rey entre os seus antepassados. Thomé fez parte dos homens que partiram para a região das Minas Gerais em busca de ouro. Alcançou o Rio das Mortes, perto da cidade que, por sua causa, é chamada São João Del Rey. Acabou morto pelos seus escravos. Com ele também andou Domingos Soares, cujo neto João um dia, sem razão conhecida, largou Taubaté e foi para Curitiba, contribuindo assim para que o cronista aqui não nascesse no Vale do Paraíba, mas na região das araucárias.

Mas isso são apenas histórias. Outra delas diz que Dom Pedro I dormiu em Taubaté. É sabido que uma das mais nobres funções dos imperadores é a de dormir nas cidades por onde passam. Assim fez Dom Pedro por uma única noite, em agosto de 1822. Logo se vê que, modéstia à parte, eu estou em vantagem, pois, somando minhas duas passagens por Taubaté, já cheguei a sete noites dormidas na cidade. É verdade que, depois de sair daqui, eu não dei nenhum grito às margens do Ipiranga, nem proclamei independência alguma. Assim é a vida.

Falava eu dos museus. Existe em Taubaté um Museu da História Natural, pertinho do Museu Histórico. Por história natural entenda-se coisas de milhões de anos atrás, de troncos de árvores a dinossauros. As datas são realmente de embasbacar. Há algumas réplicas em tamanho natural dos curiosos animais que em um dia bem distante habitaram a Terra. Descubro inclusive um dinossauro do Vale do Paraíba. Esse, mais recente, viveu há 23 milhões de anos. E eu me achando grande coisa por descobrir antepassados dos anos 1700. Não, eu pesquiso dinossauros mais recentes.

Ainda estava nesse maravilhamento quando apareceu um repórter da TV Vanguarda, a Rede Globo local, e perguntou se não podia fazer umas imagens minhas enquanto eu olhava a exposição. Eu autorizei, até porque ainda era cedo e não havia mais ninguém no museu. Mas eu conheço os jornalistas, e sabia que, depois das imagens, viria a inevitável entrevista. Falei então um tanto atabalhoadamente sobre o que acabara de ver. Foi o dia em que saí na Globo.


E mais não sei. Essas foram coisas que vivi enquanto estive nos Sertões de Taubaté, explorados pelo Capitão Jacques Félix e habitados anteriormente pelos índios guaianás. Já não se fala mais em ouro, mas principalmente em trânsito – há sempre alguma rua cuja mão deveria ser mudada, ou não, para facilitar a vida dos 180 mil veículos locais. E, mesmo sem ter bebido a água da Bica do Bugre, dou por cumprido o vaticínio de que quem assim fizer voltará um dia a Taubaté.  

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Reinações do 9 de Julho

 

As más línguas irão dizer que vim para o estado de São Paulo apenas para ter outro feriado. De fato, esta é a primeira vez que comemoro o 9 de Julho. Comemorar, naturalmente, é maneira de dizer, pois, além de não entender exatamente o que se comemora, eu estou de férias e de qualquer jeito não iria trabalhar. Até então, eu tinha para mim apenas que o 9 de julho foi o dia em que se relatou pela primeira vez o uso do guardanapo (é verdade). Mas sinto-me aliviado ao descobrir que o próprio Mário de Andrade, para quem até as nuvens eram paulistas (essa maldade é do Braga), confessou que muitos dos que participavam ou defendiam a Revolução Constitucionalista em 1932 não sabiam o que era Constituição.

Sei mais ou menos o que é uma Constituição, mas já não consigo entender muito bem as motivações de cada lado àquela época. Ainda estou em Taubaté, e por aqui a Revolução de 1932 também teve os seus reflexos. Foram 6 os homens da cidade que tombaram na batalha. Quem estava à frente das ações em Taubaté eram figuras públicas ligadas ao governo ou à elite local. Há quem diga que a população da cidade nem ligou para a Revolução, pois não houve registro de manifestações populares lamentando a derrota. Não posso confirmar. Mas presumo que, em nossos tempos, também grande parte da cidade não esteja ligando para a Revolução, preferindo passar o dia de forma menos cívica. Em todo caso, a data continua bem lembrada como nome de uma de suas principais avenidas, e sendo inclusive repetida em uma pacata rua do distrito de Quiririm, no interior do município.

Taubaté, vocês sabem, é a terra do Monteiro Lobato, que naqueles acontecimentos de 1932 defendeu a separação de São Paulo do resto do Brasil – Lobato via apenas dois caminhos para o estado: a hegemonia nacional ou a separação. Bem se vê que aconteceu o primeiro. Mas Taubaté também é a terra do Mazzaropi, e sobre esse não se sabe que tenha algum dia dado uma opinião sobre a Revolução de 1932 que tenha sido levada em conta. Ele mesmo dizia que o seu sucesso se explicava por falar a língua do povo. Mas naquele ano de revolta, Mazzaropi era apenas um rapazote que trabalhava como pintor de cenários e ator de peças que distraiam os homens que faziam a guerra.

Aproveitamos o dia para visitar o seu museu, tão escondido que a própria atendente se espanta que tenha sido encontrado. Ela também pergunta se nós chegamos a fazer figuração em algum filme do Mazzaropi. Mas nós somos caipiras de verdade, e não figurantes. E passamos a caminhar em meio aos cartazes e as histórias de todos os filmes do Mazzaropi, que saiam praticamente todo ano, cada um feito com a renda do anterior, e com incríveis superações diante das limitações da época – algo típico dos gênios apaixonados. Leio as sinopses e me simpatizo com as discussões provocadas. Penso nos filmes de Hollywood, e penso especialmente naquilo que não se pensa.

Saímos de lá e vamos para São José dos Campos. O feriado está em toda parte. Esqueço o Mazzaropi, esqueço a guerra de 1932. Temos o nosso próprio jeito de fazer filme, e temos as guerras do nosso tempo. Da sala de cinema, vejo o mundo se transformar em zumbis na A Guerra Mundial Z.  

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Morte e vida taubateana

 


O inesquecível Josef Studenick, pioneiro industrial no Vale do Paraíba, e assim qualificado no busto que recebeu em sua homenagem, está, quem diria, sendo esquecido. Studenick está bem cercadinho em frente ao Convento Santa Clara, em Taubaté, mas já tem o seu rosto coberto pelos galhos das árvores ao redor. Um dia estará tão esquecido quanto a Rua do Meio – rua em que meus ancestrais de Taubaté moraram, nos inesquecíveis anos 1700.

Na Rua do Meio, minha não-sei-quanto-avó Catharina Garcia de Unhatte tinha “dois lanços de casa de taipa de pilão cobertas de telha”. Custo a acreditar que tenha existido algo assim na Rua do Meio ou em qualquer outro lugar de Taubaté. É preciso um esforço sobre-humano para tentar visualizar a cidade da maneira que o francês Pallière registrou em um mapa de 1821. E, não fossem as bonitas maquetes que existem no Museu Histórico, jamais teríamos ideia de que as coisas um dia foram bem diferente do que são hoje.

Eram cinco as ruas, de modo que uma delas ficava ao meio. Mas a Rua do Meio virou depois Rua do Comércio e hoje se chama Duque de Caxias – embora devesse se chamar Rua das Noivas, tantas são as lojas destinadas a elas. Não sei em que parte dela morou Catharina, mas sei onde ela está morando agora. Seu corpo foi amortalhado no Convento Santa Clara, que já existia em Taubaté há um bom tempo. Tento entrar no Convento, mas as portas estão fechadas. Ao seu lado está o cemitério da Venerável Ordem Terceira, e eu, turista estranho, resolvo dar uma caminhada por ele.

Logo de cara, encontro Félix Gusard, outro homem importante na vida econômica de Taubaté. Não me detenho, e começo a ler algumas lápides, dando preferência para aquelas cuja arquitetura era mais destacada. E foi assim que encontrei a sepultura de Olga Guedes Tavares, percebendo de imediato que se tratava de uma espécie de Maria Bueno de Taubaté. Tenho a impressão de que toda cidade possui uma jovem morta na flor da idade e que desde então passou a ser venerada como santa. Assim foi com Olga Guedes Tavares, e no pequeno altar que se levantou em seu túmulo consigo ver cópias de orações, algumas feitas à mão, e que devem ter o mesmo texto há várias gerações, pois vejo referência até aos avós da menina.

Ao sair, retomo o caminho pela Rua do Meio e percebo que ela irá dar bem em frente à igreja de São Francisco das Chagas de Taubaté, a mais antiga da cidade. Quase chegando, descubro a Rua Bispo Rodovalho, que não é o fundador da Sara Nossa Terra, mas um antigo frade franciscano – o maior orador sacro da ordem franciscana no Brasil. Entro na igreja, observo as muitas imagens, os vários ventiladores, e por fim sento. Vários cidadãos de Taubaté entram e – acho curioso – começam uma peregrinação pelas imagens da igreja, parando, tocando e orando em todas elas. Simpatizo-me com um homem em especial e, na minha fé diversa, faço uma rápida oração para que não sofra tanto quanto demonstra.

Penso confusamente em escrever alguma coisa sobre a fé. Saio da igreja e sou absorvido pelo barulho do sábado de manhã, engolido pela multidão que caminha com pressa e sacolas – completamente alheia ao tempo em que será esquecida.   

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Grandes Sertões: São Paulo


“Só se vê prédio e casa. De natureza mesmo, só as nuvens. E aquelas montanhazinhas”. Assim observou a bonita moça sentada à minha frente enquanto nos preparávamos para pousar em São Paulo. Sem dúvida ela achou que seria uma condescendência muito grande incluir o Tietê, também visível ali de cima, entre as obras da natureza na capital paulista. Cheguei até mesmo a ouvir uma conversa questionando se era realmente água aquilo que víamos lá embaixo. A moça bonita reparou ainda na poluição do ar. Fez questão de mostrar a névoa escura para sua amiga. Esta, apenas respondeu: “Tenso, véi!”.

E assim fui chegando a São Paulo, pela segunda vez na vida – estou desconsiderando as conexões de vôos. Há oito anos eu cheguei a São Paulo de ônibus. Já escrevi sobre isso: andei de metrô, caminhei pela Paulista, cruzei a Ipiranga com a São João, vi o Canindé, o antigo Carandiru e preenchi o bilhete de passagem para um velhinho no Tietê – o Terminal, e não o Rio. E era justamente para o Terminal Rodoviário do Tietê que eu iria agora.

Lá eu pegaria um ônibus que me levaria a Taubaté, no Vale do Paraíba. Ainda impressionado por não haver uma ligação direta entre Congonhas e o Tietê, busco um ponto de ônibus na Avenida Washington Luís. Este ponto, imagino, é um dos primeiros contatos dos visitantes com a cidade. Procuro o ponto e não acho. Vejo pessoas paradas sem muita ordem. Não há um abrigo. Não há sequer uma placa indicando o local exato. Decido ficar por ali mesmo. A calçada é apertada. Encosto-me na parede de um comércio. Mal encosto e me pedem uma licencinha, porque estão pintando a parede. Eis a minha recepção na cidade.

Tenho anotado na cabeça o número de um ônibus que devo pegar até uma estação de metrô. O ônibus aparece. Reparo que está escrito realmente o nome de uma estação de metrô no itinerário. Embarco e relaxo. Fico na expectativa de chegar à estação. O tempo vai passando. Começo a achar muito demorado. Mas confio cegamente no itinerário e permaneço dentro. Chego em ruas estranhas. Súbito, o ônibus estaca: é o ponto final. Nem sinal do metrô. Tenho que descer. Estou perdido no meio do nada – até agora não sei onde estive. Nonada. Curiosamente, não fui o único a descobrir que pegou o ônibus errado só no ponto final. Indicam outro ponto para nós. Seguimos para lá. Pego outro ônibus, essa vez escrito bem grandão “Metrô Jabaquara”. Pergunto ao cobrador quanto tempo demora até lá. Ele responde: mais ou menos uma hora. Quase pergunto se isso é no fuso daqui ou no de lá.

Chego, finalmente. Vou comprar um bilhete para o metrô. A fila está enorme. Sou tomado por uma repentina saudade da roça. Começo a questionar a minha decisão de viajar. Murmuro palavras muito duras contra a cidade, e o que menos disse foi que era uma loucura. Compro o bilhete, entro no metrô e enfim chego ao Tietê. São quase quatro horas da tarde e eu ainda não almocei. Decido comer um prato completo, refeição de verdade. Vou a uma lanchonete, passo um tempo escolhendo, e então faço o meu pedido. O atendente explica: refeições, só a partir das cinco horas. Suspiro. E desejo ardentemente que o Vale do Paraíba ainda seja conhecido como os Sertões de Taubaté.  

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Retrato do cronista quando viaja


Vocês deviam ver um cronista se preparando pra viajar. Eu já disse que o turista é um bicho engraçado, mas o cronista é muito mais. Começa que ele compra um caderninho e enche de anotações preliminares, informações, curiosidades e frases sobre os lugares que irá visitar. Quer potencializar as experiências que irá ter e sobre as quais deseja escrever. E então ele começa a idealizar os textos que irá fazer. Até em alguns títulos ele já pensou! Não viu lugar nenhum ainda e já pensa nos títulos! Bicho engraçado, sô. Isso me lembra um personagem do John Fante (acho que é do John Fante. Se não for do John Fante, paciência. Perguntem ao pó). Pois o personagem está se afogando, quase morrendo, e no meio da luta para sobreviver pensa em como irá escrever sobre aquilo. Terríveis, os escritores.

A essa altura vocês já perceberam que o cronista que se prepara para viajar sou eu mesmo. De fato, estarei em férias por alguns dias. Tem uma citação ótima do Henfil sobre férias. Vocês conhecem o Henfil. Lembram da música da Elis? “Meu Brasil, que sonha com a volta do irmão do Henfil”. Era o Betinho, o irmão do Henfil. Pois o Henfil foi viajar para China. E enquanto fazia uma escala na Europa, o Henfil fez a seguinte divagação:

“Agora, suponhamos que um chinês viesse aqui e, pela observação de sua maneira de viver, procurasse interpretar o european way of life. Diria ele quando voltasse pra China: o europeu é escravo do trabalho. Não lhes respeitam vocação ou potencial. Trabalha onde o mercado manda. Recebe uma quantia em dinheiro para comprar uma porção de coisas supérfluas. A parte que economiza ele gasta quando entra... numa fila imensa de carros na tradicional festa ocidental chamada weekend. Todo ano ele participa também de outra festa chamada férias. Fica um mês sem trabalhar e isto lhe causa muita angústia e um vazio enorme. Aí ele procura um cinema ou um teatro onde artistas contratados vivem para ele coisas essenciais como amor, sexo etc”.

Poxa, estou justamente participando da festa ocidental chamada férias – eu diria vacation. Mas tenho os meus direitos, e afinal nem será um mês inteiro, e nem sei ainda se irei a algum cinema ou teatro. Estou pensando em fazer como o Henfil, que nessa ida à China sequer foi ver a Muralha. Turismo alternativo. É outra das graças do cronista.

Tem mais uma coisa também. Essa não acontece só com os cronistas. Véspera de viagem, pelo menos para quem não costuma viajar, dá sempre vontade de encontrar todo mundo, se despedir, ouvir boas recomendações. Um dia eu disse que me sentia um pracinha indo para a Guerra. É mais ou menos assim. Quero me despedir das pessoas, declaro meu amor por todos. E o pessoal me diz pra avisar, mandar mensagem, assim que chegar. Ah, isso faz bem!

Tive vontade de me despedir inclusive daquela moça, caixa de restaurante, por quem cultivo uma suave afeição, e em cujos dedos (eu reparei bem) não há um mísero anel. Mas ela não sabe que vou viajar, nem notará minha falta, e mal perceberá meu retorno. Tudo bem, tudo bem. Mas saiba que nem a sua indiferença foi suficiente para impedir que eu te arrumasse um espacinho nesta crônica que era pra ser só sobre viagem.  

terça-feira, 2 de julho de 2013

Otto vê o Brasil campeão

No último domingo estive na casa do Otto, o Bismarck das Araucárias. Vocês conhecem o sujeito: é o mais alemão dos são-bentenses. Só não digo mais que é alemão de quatro costados porque descobrimos que tem uma bisavó brasileira, moradora de Campo Alegre, e mais paranaense do que o fandango. Pois bem. Fui à casa do Otto porque ele me convidou para assistir a final da Copa das Confederações. Acho que nunca disse que o Otto gosta de futebol. Gosta de futebol. E, para o meu espanto, torce para o Brasil – a menos que enfrente a Alemanha. Mas o jogo era contra a Espanha, país que não lhe fede nem cheira. E o Otto chegou ao ponto de vestir a camisa de seleção. “O gigante acordou”, confessou, para o meu pasmo. A onda de protestos no Brasil revelou um insuspeito lado brasileiro no Otto. Talvez tenha sido a oportunidade que faltava para virarmos mais um estado germânico. 

Acomodamo-nos no sofá e, depois da minha tradicional recusa à bebida, começamos a assistir. Assim como eu, Otto se entusiasmou com a partida arrasadora feita pelo Brasil. Falou que o Paulinho era o novo Beckenbauer. E que o Neymar lembrava bastante aquele moço com família em Blumenau, o Friedenreich. Só se traiu mesmo quando disse que estava virando moda bater em espanhol, certamente aludindo às vitórias do Bayern e do Borussia. 

A partida já estava perto do fim quando entrou na sala o Otto, o filho do Otto.  Vocês também conhecem a peça: é o homem sem passado, que arranca a folha da agenda a cada dia que passa. Pois o Otto estava vindo de um protesto. Encontrou-nos ali sentados, torcendo pela Seleção, olhou com desprezo e sentenciou: “Como podem ficar na frente da TV enquanto o Brasil está mudando? O futebol é o ópio do povo”. Ele parafraseou Marx, que é o ópio do Otto. Pois bem. Pai e filho começaram a discutir. Otto, o filho, disse que era uma vergonha não estarmos protestando, e que não tínhamos nada o que comemorar, pois ainda há corrupção no Brasil, ainda faltam investimentos na Saúde e na Educação, o Feliciano ainda está na Comissão de Direitos Humanos, e há muitas outras PECs pra derrubar.

Eu já me sentia um traidor da pátria quando entrou a namorada do Otto – essa vocês não conhecem. Chama-se Anita, a nossa heroína. Mais revolucionária que a Holanda de 74.  Por educação, ela não se meteu na discussão de pai e filho. Foi puxar assunto comigo. E o jogo ainda rolando. Foi quando ela insinuou: “Vitória estranha essa, hein? Aí tem coisa”. Respondi que realmente era estranho, pois até o Hulk havia jogado bem, mas então ela disse o que pensava: a partida havia sido comprada. Disse que eu era muito ingênuo de acreditar que a Espanha iria perder tão fácil assim. E que provavelmente foi a dona Dilma que fez o negócio, pro povo se esquecer dos protestos. 

Entendi tudo então: assim como há os caçadores de mitos e de fantasmas, também há os caçadores de teorias da conspiração. Anita era um deles.  Há gente que não masca um chiclete sem questionar as reais motivações da indústria chicleteira. Não faltou muito para eu me convencer que a minha própria visita ao Otto era obra de forças ocultas. Na dúvida, fui embora. Sem comemorar, porque pega mal.

Leia todas as histórias com Otto, o mais alemão dos são-bentenses: 

1. Otto e a cidadania europeia 










Otto continua em Campo Alegre

Ou eu muito me engano ou na semana passada deixamos Otto, o alemão de quatro costados, embasbacado diante da descoberta de que uma de suas bisavós era brasileira, mais paranaense do que o barreado. Sorumbático, Otto caminhou até a janela, voltou e parou diante de um quadro na sala de estar que retrata a Guerra das Sete Semanas. Esta foi uma guerra em que o Reino da Prússia derrotou o Império da Áustria, e Otto não sabe, nem eu tive coragem de lhe dizer, que os seus ancestrais estavam do lado austríaco. Estava nesse estado lamentável de contemplação quando entrou o filho do Otto.

Bolas, já falei aqui: o filho do Otto nasceu sem passado. Recusou abertamente toda e qualquer informação genética que seu pai tentou lhe transmitir através da reprodução. Pois o filho do Otto entrou e quis saber o que houve. Contei que agora ele tinha uma antepassada brasileira e o seu rosto se iluminou: “Brasileira? No duro?”. Brasileiríssima. E foi como se eu contasse que ele seria pai.  De repente, não havia mais sete bisavós de origem germânica, mas uma única bisavó de origem brasileira. E, por conta dessa única e escassa bisavó, o filho do Otto parecia disposto a se reconciliar com toda a História Mundial.

Começou então a fazer algumas perguntas: “Ela era escrava? Ao menos negra? Ou era índia? Judia, talvez? Homossexual?”. Ao ouvir isso, entendi tudo: a História, para o filho do Otto, só tem sentido se for para vingar as minorias. Ou seja: ele seria um dos nossos alunos mais brilhantes nas Faculdades de História. Mas eu me aborreci com essas perguntas e fui sincero como um pardal: “Provavelmente a bisavó do teu pai era alva como a neve. Submissa como uma mulher do Antigo Testamento. Católica como Santo Agostinho. O pai dela era um fazendeiro, cheio da grana, usava serviço escravo”. E o filho do Otto então saiu resmungando.

Esses fazendeiros realmente estiveram entre os primeiros moradores de Campo Alegre, onde exerceram seu domínio na vida social e política. No final dos anos 70, criou-se o brasão de Campo Alegre, e nele há uma estrela de cinco pontas: uma para cada pioneiro da cidade – apenas homens influentes.

Não é preciso muito esforço para saber que os pioneiros não foram cinco, e que, portanto, houve uma escolha. José Affonso Ayres Cubas, um escolhido, tinha escravos em sua fazenda, e eles devem ter chegado ao mesmo tempo – logo, são tão pioneiros quanto o seu dono.

O brasão homenageia também um Munhoz, o Raimundo, que na melhor das hipóteses era uma criança quando veio a Campo Alegre. O prefeito Bento Martiniano de Amorim foi outro escolhido, embora não apareça em nenhum registro antigo da cidade – logo, não há pioneirismo. Francisco Teixeira de Freitas, esse sim, esteve desde cedo em Campo Alegre, mas acompanhado de uma multidão, que não teve a sua atuação política e influência. O mesmo vale para o prefeito Francisco Bueno Franco. Veio acompanhado de gente que não conseguiu a sua fama. Gente anônima, que não vai entrar para a história de Campo Alegre, assim como não entram para a história de São Bento.

E eu não contei nada disso ao Otto, apenas divaguei enquanto ele caminhava tristemente para lá e  para cá.


Leia todas as histórias com Otto, o mais alemão dos são-bentenses: 

1. Otto e a cidadania europeia 










Otto vai a Campo Alegre

Em dezembro, fiz a minha visita anual ao Otto, o mais alemão dos são-bentenses. Recebeu-me como receberia o próprio Bismarck. A efusão foi tamanha que tive o cuidado de alertá-lo que parecia italiano. Otto riu e perguntou se eu queria beber alguma coisa. Perguntei se tinha iogurte. Otto riu mais ainda. Ofereceu-me uma cerveja, que recusei. Foi visível então a mudança no seu humor. Até hoje Otto não aceita minha abstinência. Ficou melancólico, e então me confessou uma espantosa descoberta que estava tirando seu sono.

Já contei aqui que Otto é alemão de quatro costados. Mas pesquisando a sua árvore genealógica, Otto descobriu uma bisavó de família brasileira. Vinha de Campo Alegre, a distinta. Era o único caso de brasileiros em toda a sua árvore, e essa descoberta o aterrorizou. E num esforço que só a indignação é capaz de produzir, Otto decidiu investigar melhor essa história. Consultou sites, ouviu pessoas, e descobriu o seguinte: Campo Alegre, na verdade, havia sido colonizada por imigrantes espanhóis, alemães, poloneses e lituanos. E mais: originalmente, a cidade se chamava Froeliches Feld, que nada mais é do que a versão da língua de Goethe para Campo Alegre.

Otto exultou diante dessa última descoberta, e eis o que concluiu: sua bisavó, apesar do sobrenome brasileiro, era provavelmente uma imigrante espanhola que por acaso vivia no meio de uma colônia alemã - tão alemã como todos os seus outros costados. Embora reconfortado com essa conclusão, Otto ainda estava inseguro e queria ouvir a minha opinião como pesquisador da história local. Suspirei.

Fui sincero como a fórmula de Bhaskara: a colonização de Campo Alegre não foi feita por imigrantes. Sejam eles espanhóis, alemães, lituanos, afegãos ou escandinavos. Os primeiros moradores da cidade eram tão brasileiros quanto a Amazônia, e mais: eram tão paranaenses quanto a Araucária. Diante da força dessas palavras, Otto protestou: “Mas então todos os sites estão errados?”. É mais ou menos por aí. Um dia alguém quis tornar mais elegante a história da cidade e então criou-se uma versão que atribui uma origem europeia. Não satisfeitos, deram a ela um nome alemão. Alguém publicou isso na Internet e todos começaram a repetir – especialmente os sites de turismo. Bem se vê que não é apenas a história de São Bento que é refém de vãs repetições.

Tentei consolar Otto: lá atrás (bem lá atrás), havia sim uma origem europeia. Veja o caso da família Cubas, por exemplo. Provavelmente está na lista que alguém chamaria de imigrantes espanhóis. Pois bem. Os Cubas eram paranaenses de São José dos Pinhais, que anteriormente eram paranaenses de Curitiba, que anteriormente eram paulistas, e que anteriormente eram portugueses. É verdade que se passaram três séculos entre a saída de Portugal e a chegada em Campo Alegre, mas aí está a origem europeia tão desejada. Os Munhoz, de imigração mais recente, tem origem realmente na Espanha, mas quando chegaram a Campo Alegre já estavam há algumas gerações no Paraná – e quem nasce no Paraná, pelas nossas leis, ainda é brasileiro.

É melhor pararmos por aqui, enquanto o Otto absorve estas tristes informações. Semana que vem a gente continua.


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1. Otto e a cidadania europeia 










Otto vai à festa

Chegou setembro, e com ele um e-mail inesperado do Otto, o mais alemão dos são-bentenses. Eu não falava com ele desde o começo do ano, quando estive na sua casa em São Bento. Na ocasião ele me apresentou o seu filho Otto, que tem nome igual ao do pai, mas escrito de trás pra frente. O filho do Otto é o homem sem história. Todo manhã ele arranca da agenda a página do dia anterior. Para ele, sou tão interessante quanto um calendário do ano passado. Bem ao contrário de seu pai, que me considera tão alemão quanto Bismarck. Se pudesse, Otto me contrataria como seu historiador particular, apenas para falar alguma coisa bonita sobre o passado da sua Alemanha, logo de manhã durante o café.

Mas eu dizia que ele me mandou um e-mail. Perguntava se eu não viria para São Bento aproveitar a Schlachtfest deste ano. Respondi que não poderia e Otto quis saber por que causa, motivo, razão ou circunstância. Fui sincero como um raio-x: eu não tinha dinheiro para viajar. Otto fez então a pergunta que cai bem a todos os homens bem-sucedidos: “Mas você não tem um emprego fixo? Não recebe um salário? De vez em quando deve sobrar algum pra você viajar”. Disso se percebe que Otto se tornou tão alemão que sequer compreende a realidade brasileira.

E como ele insistisse, fui obrigado a dizer que não gostava dessas festas. Esse foi o meu mal. Por “essas festas”, Otto entendeu “as festas alemãs em geral”, achando que eu deveria preferir algum outro tipo de festa. Eis a verdade: não prefiro festa alguma, alemã, libanesa ou bielorrussa. Sou um homem sem festas. Mas vá explicar isso ao Otto. Espantado com a minha recusa, começou um discurso em defesa da festa “trazida pelos imigrantes quando vieram ao Brasil fugindo da guerra”.

Suspirei. Otto me acusava de ter passado para o lado seu filho, o homem sem passado, e para quem as festas só deveriam acontecer depois que o último buraco da última rua da cidade fosse fechado. Esperei ele se acalmar e no dia seguinte mandei algumas informações, apenas a título de curiosidade. A primeira é justamente que os imigrantes não vieram fugindo de nenhuma guerra. Imigraram pelo mesmo motivo que os nordestinos migram para São Paulo ou que eu migrei pra Brasília: desejo de novas oportunidades na vida.

 A segunda é que, naturalmente, a Schlachtfest não foi trazida pelos imigrantes. No máximo, o espírito da festa. Em São Bento, ela teve início apenas em 1966. Teve outras edições em 1967 e 1968, e depois apenas em 1985. Desde 1963, a Sociedade Duque de Caxias, de Curitiba, também realiza uma festa chamada Schlachtfest, e que inclusive já foi animada por bandas de São Bento. Uma outra com o mesmo nome também é realizada no Clube Concórdia, da mesma cidade. Em Teotônia, no Rio Grande do Sul, há ainda uma outra Schlachtfest. Talvez haja outras.

Em todas elas a iniciativa pela preservação de manifestações culturais é algo louvável, digna de nota mesmo. É verdade que nem sempre há uma vinculação direta com a história da cidade – coisa que a Böhmenfest talvez consiga melhor. Insisto que devemos ser mais boêmios (da Boêmia, não da boemia) do que alemães.

Mas essa parte eu achei melhor não comentar com o Otto.


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1. Otto e a cidadania europeia 










O anti-Otto

Quando estive em São Bento no final do ano, me encontrei com Otto, o Bismarck das Araucárias. Tive receio de ser mal recebido. Ano passado eu havia destruído o sonho dele de conseguir dupla cidadania. E mais: mostrei a ele que a sua família não poderia ter tido um brasão. Mas Otto, o alemão de quatro costados, me recebeu de maneira efusiva, e foi logo me oferecendo uma cerveja - que recusei. Fui sincero como um teste de DNA: eu não bebia. Mal terminei de falar isso e vi que o Otto estava paralisado. Sentia falta de ar, palpitações, e suava muito. Tudo que conseguiu dizer foi: “Mas um alemão! Tu, um alemão... não bebe!”. Tratei de acalmá-lo, e citei alguns problemas gástricos entre os motivos da minha abstinência.

Mas eis que, no meio dessa crise, aparece o filho do Otto. Não sei se já falei nele. É um rapaz das artes. Escreve poemas e faz teatro. Pois bem. E esse filho do Otto também se chama Otto. É uma tradição na família há cinco gerações. Todos os filhos se chamam Otto. E às vezes até as filhas. Só que esse filho do Otto não é um novo Otto: ele é, na verdade, um anti-Otto. É o próprio conflito de gerações. O seu filho é tão anti-Otto que até o seu nome é escrito de trás pra frente: Otto. Em suma: o filho do Otto renega toda a história familiar. Como um Galileu diante da Inquisição.

Diz ele que não há nada mais ultrapassado do que o passado. O filho do Otto detesta tanto o passado que todo dia arranca da agenda a página do dia anterior. Bem ao contrário do seu pai, que, em pleno século XXI, continua vivendo sob o domínio da Prússia. Pode-se imaginar a quantidade de conflitos nessa casa. E eu fiz parte de mais um deles quando o Otto pai me apresentou ao Otto filho. Disse ele que eu era um “historiador da imigração alemã”. Ao ouvir isso, Otto primeiro teve uma violenta crise de tosse, e em seguida deu uma catarrada no chão. Virou-se então para mim e, cheio de desprezo, afirmou: “Mais um que vive no passado. Era só o que me faltava”.

Indignado, Otto pai tentou me defender – e, no fundo, estava defendendo a si mesmo. Mas Otto filho iniciou então um comovente discurso, revolucionário como a Holanda de 74: “Enquanto vocês pensam em coisas que já passaram, crianças morrem de fome. A África sobre epidemias. Vão olhar os buracos na rua! O problema da saúde, o preço do transporte coletivo! O caos no trânsito”. E por aí foi arrolando uma série de tragédias que estavam acontecendo no mundo, e que nem eu nem seu pai percebíamos, tão concentrados estávamos em falar sobre o passado.

O discurso lembrou-me uma página de Os Maias. Imaginem que existe um livro chamado Os Maias - e que eu não li. Mas aconteceu nele o seguinte: um rapaz estava em uma festa, sozinho, olhando pela janela. Uma dama veio até ele e perguntou se não gostaria de dançar. E ele respondeu: “Como posso dançar, se a Polônia sofre?”. Aí está o filho do Otto falando mais ou menos a mesma coisa.

A discussão familiar continuou, e então achei melhor ir embora. No outro dia, mais calmo, o filho do Otto me mostrou as suas poesias – Otto guarda todas, incluindo algumas feitas na infância. E então pude concluir: o único passado que interessa é o que se tem como nosso.


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1. Otto e a cidadania europeia 










O brasão do Otto

Fiquei sabendo que a coluna da semana passada não foi lida pelo Otto – o Bismarck das Araucárias. Eu já esperava. Otto não costuma ler jornais brasileiros. Aliás, ele não costuma ler nada. Um dia soube que Goethe era um escritor alemão. Passou então a citá-lo como o seu autor favorito. Minto: de vez em quando, Otto lê a “Veja”. E não mais que isso. Portanto, foi uma grande coincidência ele ter me procurado mais uma vez.

Senti que Otto, o alemão de quatro costados, não havia ainda se recuperado do baque de não conseguir a cidadania europeia. E foi exatamente o que ele me disse. Tentei consolá-lo, falando que a cidadania europeia havia perdido um pouco da graça depois da Reforma Ortográfica. Ele sorriu amarelo, e logo me contou por que estava me procurando de novo: queria, ao menos, descobrir o brasão de sua família.

Suspirei. Perguntei por que queria o brasão. “Para mostrar o valor da minha família, dos imigrantes que vieram pra cá fugindo da guerra”. Tive então um pequeno espasmo. O velho mito dos imigrantes que fogem da guerra. Eu estava de mau-humor, e fui sincero como um boleto bancário: “Otto, teus antepassados eram uns pobretões”. Ele recuou, espantado. Mais calmo, disse a ele toda a verdade: não há, não existe, nunca haverá, brasão de família – pelo menos não da forma que pensamos.

Procurei então nos meus papéis a fotografia de um brasão dos Fendrich. Mostrei a ele. Em seguida, mostrei um brasão de outra família, os Friedrich. “Mas são idênticos!”, exclamou. De fato, eram os mesmos. Eis o que lhe expliquei: um brasão não pode servir para todos os Fendrich na face da terra – ou qualquer outro sobrenome. Os brasões são símbolos de nobreza que só podem ser ostentados pelos descendentes de quem o recebeu por primeiro. Se você é um Pscheidt, um Schreiner, um Grossl, e encontra um brasão com o nome da sua família, isso não quer dizer que ele serve para você.

Servirá apenas se você conseguir provar que é descendente do primeiro portador do brasão. Sem essa comprovação, o brasão, quando verdadeiro, é apenas uma figura decorativa que mostra a coincidência que há entre você a pessoa que foi agraciada com ele – ambas com o mesmo sobrenome. É como se eu resolvesse colocar na parede do meu quarto um disco de platina do Rainhard Fendrich, aquele popular cantor austríaco. Temos o mesmo sobrenome, afinal. “Você há de concordar, Otto, que eu não tenho mérito algum na conquista do Rainhard”, concluí. É claro que nos brasões de internet isso não é avisado.

Mas vamos imaginar que alguém está disposto a encontrar uma ligação genealógica que justifique o uso do brasão. No caso dos imigrantes de São Bento, é quase impossível. Nossos ancestrais eram honrados plebeus, acostumados com a pobreza, explorados pelos patrões. Não são o tipo de pessoas de quem se esperaria ancestrais nobres.

Vendo o desespero estampado na fisionomia de Otto, consolei: “Garanto que há na história da sua família coisas suficientes para deixar você orgulhoso. Talvez não tão visíveis quanto um brasão. Mas elas te oferecem o seu passado, um legado que não depende de autorização do rei”. Como sempre, Otto então me deixou após um palavrão em alemão.


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Otto e a cidadania europeia

Dia desses, encontrei Otto, o Bismarck das Araucárias – assim chamo esse ilustre são-bentense, “alemão de quatro costados”. Pois o Otto chegou para mim e disse: “Fendrich, fiquei sabendo que você mexe com essas coisas de antepassados. Eu quero descobrir quem foram os meus”. Minha primeira reação foi de espanto. Afinal, achei que Otto já devia saber quem foram eles – pois vive dizendo que tem orgulho das suas origens. Pois bem. Quis saber o que havia motivado esse interesse pela vida dos seus ancestrais. E o Otto, sincero como uma balança, disse tudo: “Estou atrás da cidadania europeia”.

Bolas, eu devia imaginar. Volta e meia me procuram por conta disso. Não seria diferente com o Otto, o mais alemão dos são-bentenses – Otto é tão alemão que não é o simples fato de ter nascido no Brasil que irá torná-lo brasileiro. Percebi que a coisa seria longa e pedi que sentasse. Comecei: “Veja bem, Otto. A Boêmia...”. E ele me interrompeu: “Ah, ia bem uma agora. Aceito”. Tive que explicar então que falava daquele antiga região da Europa. Os ancestrais de Otto, como de grande parte dos são-bentenses, vieram de lá.

Perguntou-me então em que parte da Alemanha ficava a Boêmia. Tive que dizer que não ficava na Alemanha. Otto ficou perplexo. Falei que na época era Áustria, e ele perguntou se então éramos austríacos. Respondi que não exatamente, já que hoje a Boêmia fica na República Tcheca. Quase sem ar, Otto perguntou onde é que entrava a sua querida Alemanha nessa história. Esclareci que eram povos germânicos, mas nem sempre habitaram a Alemanha. “Meu Deus! Isso não causa problema para a cidadania europeia?”.

Tive que contar: causa, causa problema, sim. A confusão geográfica é tamanha que hoje é impossível qualquer descendente de boêmios reivindicar uma cidadania europeia. Para começo de conversa, nem sabemos a qual cidadania teríamos direito.  Vamos supor que tentamos a cidadania alemã. Pois bem. A Embaixada da Alemanha diz que um alemão que imigrou antes de 1904 perde automaticamente a sua nacionalidade após permanecer dez anos no exterior sem realizar matrícula no consulado. Também perde se, por vontade própria, adquirir uma nacionalidade estrangeira – como fizeram imigrantes de São Bento.

A isso se soma o fato da Boêmia jamais ter pertencido ao território alemão. Deveríamos tentar então a cidadania austríaca? A Embaixada da Áustria diz que para isso é preciso comprovar que o requerente, seus pais e seus avós possuem nacionalidade austríaca. Portanto, se seu avô não foi naturalizado austríaco, esqueça.

E o Consulado Geral da República Tcheca diz que todos os documentos para cidadania devem ser tchecos, escritos na língua tcheca e emitidos por órgãos tchecos. Os registros da Boêmia, no entanto, eram alemães, escritos na língua alemã, e emitido por órgãos austríacos. E mesmo assim, seu pai, avô e bisavô precisam ser naturalizados.

Contei isso rapidamente ao Otto. Disse a ele que não havia como conseguir o que me pedia. Otto suava frio. Percebi que estava desorientado. Aproveitei para falar então uma pequena maldade: “Vai ter que se contentar em ser brasileiro, Otto”. Ele então se levantou e saiu, resmungando em alemão.


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