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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Riqueza inconcebível


Santuário Dom Bosco
 A primeira coisa que reparei foi o tamanho do lustre. E também que não havia mais nenhuma outra iluminação em todo o Santuário. Isso tudo, é claro, depois de ser atingido pelos vitrais azuis que simulam um céu estrelado. No altar, um Cristo enorme crucificado. E pelas laterais os rotineiros avisos paroquiais. Um confessionário com paredes de vidro me fez lembrar de outros confessionários, talvez ultrapassados, que eram antes um móvel, feitos de madeira, e com uma cortina que separava a humilhação do pecador e a autoridade do sacerdote. Um cartaz aponta a direção dos souvenirs, escada abaixo. Lembro de outras igrejas e percebo que quase não há imagens. À esquerda do altar, no entanto, uma estátua de dois metros de altura homenageia aquele que leva o nome do lugar, também padroeiro de Brasília.

Dom Bosco tem uma história muito bonita de trabalhos pela juventude, mas também de misteriosos sonhos ou visões proféticas. A um desses sonhos atribui-se, muito forçadamente, a fundação de Brasília. Em 1883, o italiano Dom Bosco foi levado em sonho para a América Latina, onde pôde enxergar a expansão de sua Congregação Salesiana, mas também numerosos metais preciosos, jazidas e petróleo ainda escondidos sob o solo. Entre os paralelos 15 e 20, foi revelado a ele que, depois de escavadas as minas do lugar, apareceria ali a Terra Prometida que jorraria leite e mel, e esta seria de uma riqueza inconcebível. O Paralelo 15 atravessa justamente Brasília, o que não passou despercebido, nos anos 50, aos defensores da mudança da capital do país para o interior de Goiás. Assim foi feito e a profecia passou a ser adotada oficialmente, sem muita contestação, pois ninguém achou mais nada digno de nota acontecendo entre os ditos paralelos.

No entanto, para desmentir a atribuição da profecia à Brasília, bastaria perceber que por aqui não emana leite e mel, a menos que consideremos os casos de corrupção. Acompanhar o cotidiano de um trabalhador de Brasília, geralmente morador de uma distante e sofrida cidade-satélite, seria suficiente para questionar a riqueza inconcebível prevista para a cidade. Chego a pensar que Dom Bosco ouviu mal, e entendeu “riqueza inconcebível” o que era apenas “calor inconcebível”. Mas reconheço que, de fato, é a Terra Prometida por JK.

Na Itália, Dom Bosco se sensibilizou com os jovens sem família, gente que saia do interior e vinha tentar a vida na cidade grande. É o caso de tanta gente em Brasília – é o meu caso. Em outro dos seus sonhos, Dom Bosco via todos os jovens do mundo e recebia a missão de guiá-los por dez colinas. Alguns puderem subir em uma carruagem chamada “Inocência”. Quinhentos, no total. Todos os jovens do mundo, mas apenas quinhentos eram inocentes. Durante o caminho, houve um acidente com a carruagem e o número caiu para 150. Os demais iam a pé, e muitos se perdiam pelo caminho, para angústia de Dom Bosco. Talvez não seja um disparate tão grande associar também esta profecia à capital do país. Não é prova de outra coisa que o Santuário Dom Bosco conte com tão poucos jovens se comparado ao prédio vizinho – a sempre movimentada Academia Dom Bosco.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A simpatia é uma zebra

Há aqui em Brasília alguns micro-ônibus (ou seria microônibus? ou microhônibus?) que são popularmente conhecidos como zebrinhas. E chamam-se assim porque são vermelhos com listras brancas – eu sei que as zebras não têm essas cores, mas a semelhança está nas listras. E como são pequenos, levam ainda o diminutivo no nome.

Zebrinhas. Há ainda outras particularidades: não existem cobradores nas zebrinhas. Até porque, não haveria espaço para eles. Quem recebe o dinheiro da passagem é o próprio motorista – que frequentemente se vê obrigado a dar o troco enquanto dirige.

Em seguida, podemos passar pela catraca e nos acomodar. É nessa hora que, mais de uma vez, percebi pessoas olhando intrigadas para o final do ônibus. Isso porque perceberam que não existe outra porta. A única porta de uma zebrinha é a de entrada.

Na hora de sair, é preciso passar pela catraca novamente, agora para o outro lado. É comum que as pessoas estejam querendo sair justamente no momento em que outras estão querendo entrar. Mas até que, de um jeito ou de outro, elas conseguem se entender.

Algumas pessoas sequer chegam a passar para o lado de lá da catraca. Percebem que não há mais lugares vagos e ficam por lá mesmo, na parte da frente do ônibus. O motorista deixa, desde que virem a catraca – é preciso registrar que fizeram a viagem.

Não é apenas no nome e no tamanho que a zebrinha é simpática: as pessoas também se tornam mais acessíveis dentro dela. Isso fica claro no momento de descer do ônibus, quando boa parte delas – muita gente mesmo – decide agradecer ao motorista. Alguns vão ainda mais além e desejam a ele um ótimo dia de trabalho.

E isso é feito por pessoas que, afinal, pagaram para receber aquilo que o motorista está oferecendo. Não é nada mais do que o seu serviço. Ainda assim, as pessoas sentem vontade de agradecer e dizer alguma coisa simpática ao motorista. E dizem.

Por vezes, o passageiro nem puxa a cordinha. Vai logo passando de novo a catraca e fica ao lado do motorista. “È nesse mesmo?”, pergunta, querendo saber em qual parada irá descer. A pessoa confirma, agradece, e o motorista diz retribuiu com outra simpatia.
 
Está claro que não é isso que acontece nos outros ônibus – aqueles com tamanho normal, com cobrador e com mais de uma porta. Na verdade, não é o que acontece na maior parte dos lugares: a simpatia, quando acontece, é sempre inesperada. É sempre uma zebra.