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quinta-feira, 1 de março de 2012

Tristezas à beira-mar

Estive relendo "Um Cartão de Paris", livrinho com algumas das últimas crônicas de Rubem Braga - aquelas que ainda não saturei com minhas leituras. E reli com uma imensa pena de que não se chamasse "Tristezas à beira-mar", e nem que tenha sido escrito por "Um morador de Ipanema", como Braga chegou a fantasiar. São textos feitos por um cronista idoso, bastante atento aos mortos da semana, sempre alguém conhecido, da sua geração. E o escritor que, ainda na casa dos 30 anos, arrumou para si o apelido de "Velho Braga", é talvez ainda mais velho durante essas crônicas, tão cheias estão de desencanto e melancolias, e belezas.

Mas talvez seja só impressão, porque sabemos que estava para morrer. O próprio Braga sabia disso, a ponto de se imaginar transformado em um verbete literário indicando 1990 como ano de seu falecimento, o que de fato ocorreu - e diz ele que viveu bastante, mais que Machado de Assis, muito mais do que Castro Alves. Isso está em "Mecânica da Mulher Quando Distraída", uma bonita crônica em que Braga abusa daquilo que Manuel Bandeira chamou de "puxa-puxa", e que nada mais é do que um tema desencadeando outro, sem nenhum roteiro prévio. Braga passa rapidamente de pescadores para aulas na Faculdade de Direito, partindo daí para mulheres, e conclui falando de literatura. 

E como lia o velho Braga... tudo que lhe chegasse ao alcance. Há por aí alguns teóricos falando que a crônica deve sempre partir de uma notícia. Nesse livro, o tema das crônicas nasce de um dicionário, um livro de psicanálise, outro de provérbios, um de lições dramáticas, bem antigo, uma revista colombiana, relatos de cronistas indianos. E lá estão também relatos episódicos, impressionistas, ou simples recordações, e às vezes até mesmo o seu humor, aquela ironia tão típica do gênero, especialmente em "Creme de Barbear em Espuma". Tudo, no fim das contas, muito bonito, e simples, como fazia sempre há uns 60 anos.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Rubem Braga nas entrelinhas

Aqui em Brasília não pega a TV Cultura. Foi por isso, e só por isso, que eu não tomei conhecimento da matéria do programa Entrelinhas sobre o Rubem Braga. Foi há duas semanas. E isso quer dizer pouco tempo, considerando que eu achei por mero acaso. A descoberta não poderia ser melhor, pois não são muitas as matérias sobre a crônica, e menos ainda aquelas em que o Rubem fala – foi a primeira vez que o ouvi.


Antes de tudo, preciso dizer que Rubem é o meu autor favorito. Aos 17 anos, eu li “A Borboleta Amarela”, e achei tão diferente de tudo que havia lido, e fiquei tão cheio de amor pela vida, e vinha tão a calhar com minhas melancolias, que logo se tornou o meu autor favorito – e mais: foi o que me fez achar que devia escrever também.

De lá pra cá, li todos os livros e boa parte daquilo que se escreveu a seu respeito. Cheguei até mesmo a fazer a minha monografia de jornalismo sobre ele – ocasião em que tentei livrá-lo de alguns lugares-comuns da crônica. Acho que não tenho amigo a quem não tenha feito propaganda dos seus textos. Sou eu, inclusive, o dono do seu perfil no Twitter.

Foi então com felicidade que assisti a uma matéria tão bem feitinha sobre ele. É verdade que não destaca a importância do jornalismo para a produção dos seus textos. Mas vá lá. Em termos literários, é uma matéria bastante simpática. Diz que o Braga andava “meio sumido das discussões literárias”, o que certamente acontece porque o tipo de texto que fazia não era propriamente literatura – por isso mesmo, não pode ser um gênero menor.

Destaca-se ainda a simplicidade do cronista e a sua habilidade em falar de coisas da natureza e das “tristezas e perturbações da condição do bicho homem”. E o vídeo tem o mérito de trazer o próprio Rubem falando em 1982 sobre a sua infância, classificada como normal – apesar das exaltações em seus textos. “Depois é a que gente vê que foi feliz”, justifica. Tomava banho de rio, roubava fruta, jogava futebol e nas férias de fim de ano ia pra praia. O cronista também lembrava com alguma ironia sobre o seu único livro de poesias: “É um titulo muito original, chama-se Livro de Versos”. Essas são algumas das poucas frases que ouvi até hoje da boca do próprio Braga.

São lembradas exaltações feitas por Manuel Bandeira e Antônio Cândido, e há um trecho de Paulo Autran interpretando “Aula de Inglês”, uma das crônicas mais conhecidas e deliciosas do Braga, que nos deixa o gosto de assistir a versão na íntegra. Ao final da matéria, uma bela interpretação de “Procura-se”, quando o cronista procurava um caderninho azul, “escrito a lápis e tinta e sangue, suor e lágrimas, com setenta por cento de endereços caducos e cancelados e telefones retirados e, portanto, absolutamente necessários e urgentes e irreconstituíveis. Procura-se e talvez não se queira achar”. Linda!

Acho que falta muita leitura crítica ao Braga ainda. Diria, inclusive, que falta muitas leituras não-críticas, como essa do Programa Entrelinhas – que tem o mérito de trazer à memória um escritor que problematizou os gêneros do jornal e da literatura. Mas hoje eu não quero pensar em nenhum problema, em nenhuma teoria. Estou feliz porque se lembraram do Braga. Estou feliz porque achei esse vídeo.

E também porque hoje é sábado, eu acabei de almoçar e meus amigos vão bem.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Do verbo carpinejar

Houve o dia em que algum crítico literário, provavelmente pensando em Rubem Braga, disse que a crônica era a poesia do cotidiano. Alguém foi mais além e reparou que havia semelhanças entre ela e o poema em prosa. Fabrício Carpinejar parece ter concordado com tudo isso, pois não deixa de ser poeta no meio das suas crônicas. Lendo Canalha!, que ganhou até Jabuti, percebo que boa parte de suas frases, e principalmente de suas conclusões, poderiam muito bem ser versos - têm estrutura, dimensão estética e exageros suficientes para isso.

E ainda por cima têm o amor como o tema mais frequente. Carpinejar é um conselheiro sentimental, mas sem a mesma graça e humor de um Antônio Maria. Sua sinceridade não deixa muito espaço para a ironia - ingrediente tão valorizado na crônica como a poesia. Mas eis o seu mérito: ele não teme parecer infantil, sensível, romântico e sentimental - é homem, tem cérebro masculino e não esta interessado em propagar a sua virilidade. Nem por isso ele a deixa: apenas tem coragem de mostrar que também pode e gosta de se emocionar.

Há momentos em que parece um Artur da Távola de revista adolescente - pontuando, aqui e ali, verdades e sutilezas dos nossos relacionamentos, mas preferindo largamente falar sobre os romances, a vida a dois, o cotidiano de um casal. Isso, depois de um certo tempo, cansa - a mim, pelo menos. Não hesitei em pular algumas frases e parágrafos. É possível que o problema esteja comigo (não vivo hoje uma vida a dois). Mas talvez não seja apenas por isso que eu enxerguei links mais ou menos forçados no começo de algumas crônicas: episódios que estão lá apenas para introduzir uma discussão sobre relacionamento.

Às vezes lembra um Paulo Mendes Campos fazendo suas experiências formais. É um jeito literário de fazer crônica. Carpinejar vem de uma geração que já não precisa mais trabalhar em jornal para escrever seus textos. Pode mandar seus textos de casa. Não vive a redação, o ambiente do jornal. Ou seja: está naturalmente mais inclinado a fazer literatura do que jornalismo. Mas deste último, herda a realidade - não há ficção - e a velha missão de colocar em evidência coisas do dia-a-dia que passariam despercebidas sem a ação do cronista - a tampinha do leite, o guarda-sol, unhas, meias brancas, pantufas.

Carpinejar em outro momento
É curioso que Luis Fernando Veríssimo esteja lançando obras com 41 crônicas, enquanto que livros como Canalha! contam com o triplo disso. Talvez aconteça o mesmo que Xico Sá diz, na orelha do livro, acontecer com os feios: ao invés de vencer por nocaute, tentam a vitória por pontos. Quem sabe Carpinejar não esteja fazendo calhamaços de crônicas apenas para vencer por pontos? O raio é que quase consegue. A partir da página 200, mais ou menos, ou as suas crônicas ficam melhores, e os episódios do casal mais singelos, as reflexões mais profundas, ou - bem possível - a gente se acostumou com o cronista.

Outro dia eu reparei que os meus cronistas favoritos que ainda escrevem já passaram dos 60 anos - e vários deles passaram dos 70. Carpinejar ainda está na casa dos 30. Não sei como continuará escrevendo, e também não sei como continuarei lendo o que escreve. Mas por enquanto não será ele o nome da nova geração que abraçarei como o futuro do gênero. Seu estilo provavelmente representa uma tendência na crônica, só que ela ainda não me conquistou. Carpinejar tem muitos fãs, e também tenho um certo receio de que façam com ele o mesmo que fazem com Clarice e Caio Fernando Abreu.

Não pude deixar de reparar também: é possível alguém escrever um livro chamado Canalha! sem citar Nelson Rodrigues.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Lendo Lessa

Leio Lessa em Londres. Ivan Lessa, cronista da BBC Brasil. Ando lendo muito cronista, gente que eu nunca havia lido. E Ivan Lessa foi uma das boas surpresas que tive nesses últimos meses. Arrisco citá-lo entre os nossos grandes cronistas vivos - ao lado de gente aclamada como o Veríssimo (não pare de escrever, Veríssimo!), e outros menos, como o Ruy Castro, o Affonso Romano, o Humberto Werneck, o David Coimbra, e provavelmente outros que eu me esqueci agora, ou que ainda não li.

Autor seria um dos principais
candidatos do Partido dos Cronistas
Antes de mais nada, é preciso dizer que Lessa escreve pra internet - ou Anete, como ele chama. Isso é curioso, muito curioso. Outro dia, eu entrevistei por e-mail o Affonso Romano e ele cogitou justamente isso: "Vai ver que a crônica, no Brasil sobretudo, pode desgarrar-se do jornal". É claro que estamos falando de cronistas profissionais - para nós, os mortais, ela nunca precisou do jornal. Mas é interessante como a a crônica para internet, ou a crônica publicada em blogs, continua influenciada pela imprensa.

Isso se vê tanto na escolha temática quanto no estilo. Vejamos o caso de Lessa. O tema de suas crônicas surge, parece-me que sempre, do noticiário. Em "O Luar e a Rainha" revemos notícias que pipocaram na imprensa internacional entre 2000 e 2004 - ou seja, revemos os atentados do 11 de Setembro e passamos pela Guerra do Iraque, para ficar nas notícias mais importantes.

Lessa não é o homem
que carrega o casaco
Em meio a isso, mergulhamos nos fait divers, nas pesquisas e estatísticas absurdas e nos episódios insólitos - pois eles também acontecem em Londres. E deles Lessa extrai textos divertidos que só aos mais desavisados pareceriam superficiais. Está lá o questionamento da imprensa, suas escolhas, seus métodos e suas lógicas - e especialmente na "imprensa impressa", não na Anete.

Seus textos não são muito longos - ou, antes: são curtos mesmo. Eu viro a página e a crônica acaba na outra. Não poderia ser maior do que isso, já que originalmente são publicadas em um sítio - como o do Pica Pau Amarelo, lembra Lessa. Isso facilita a fluência, mas não seria nada sem o estilo do autor: há concisão, domínio das palavras, leveza e, não menos importante, visão crítica.

Somado a isso, temos a visão de um brasileiro que há uns 30 anos não volta ao Brasil. Está lá, em Londres, mas tão estrangeiro como antes - seus amigos, amigos mesmo, são outros brasileiros. E nos oferece a visão que só alguém de fora pode dar de nós mesmos - e, naturalmente, corrige (ou não) a nossa visão do mundo britânico, suas realezas e seus escândalos.

Se nada disso o convenceu a ler Ivan Lessa ainda, eu poderia citar alguma pesquisa, alguma coisa que os cientistas estão falando, que 87% dos leitores que leram o livro pela manhã, tomando café, numa quarta-feira de novembro, consideram o livro ótimo, bom, ou regular, e que 78% dos que acompanham seus textos na Anete conseguiram ler até o final sem mudar de sítio.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Luis Fernando x Veríssimo

E eis que o dia mal havia começado, e ainda por cima um dia de chuva, quando fui avisado de que o Veríssimo estava querendo parar de escrever. Fui ver então do que se tratava e li a matéria que o Estadão fez com ele. E lá estava, já no título da matéria: "Luis Fernando Veríssimo pensa em parar de escrever". A notícia, como se vê, era bombástica. Digna de capa do jornal. E embaixo desse  título tão dramático, estava a seguinte gravata (ou, talvez, bravata): "Aos 75 anos, o escritor diminui o ritmo e diz que está mais para depressivo do que para bem-humorado".

Sem ler a matéria, eu chegaria às seguintes conclusões: Veríssimo está velho, muito velho, talvez doente, certamente cansado, não está mais em condições de escrever o que quer que seja. E mais: anda depressivo e cabisbaixo, não sai de casa, talvez passe o dia deitado na cama, quase não tem vontade de comer, e tudo isso provavelmente porque sabe que não consegue mais escrever. Mas como eu sou um pouco desconfiado de jornalistas (exatamente por ser um deles) eu resolvi ler o texto da matéria, e não demorei a perceber que, em grande medida, havia um dedo do editor para que o assunto chamasse a atenção.


Ombros caídos indicariam
desânimo com a literatura
Pra começo de conversa, uma boa notícia: Veríssimo não está sofrendo de depressão. O que ele disse - e o bom é que o próprio jornal expõe suas contradições - é que o humor dos seus textos está mais para depressivo do que para bem-humorado. Veríssimo diz que não tem vocação para fazer rir, e sim técnica para fazer textos divertidos. Acho verdadeiro. Anton Tchékhov já havia observado um dia que as pessoas melancólicas costumam escrever textos engraçados. Não sei a quantas andas a melancolia do Veríssimo, mas sei que ele é introvertido o bastante para devolvê-la transformada em ironia e auto-ironia - ou humor.

A jornalista diz então que esse lado depressivo não aparece nas suas crônicas, mas diz isso provavelmente por não ser uma pessoa depressiva - é claro que as piadas fazem rir, mas elas costumam esconder pequenas angústias do cotidiano. E então fala sobre a diminuição do ritmo de produção das crônicas de Veríssimo, para em seguida fazer o terrível anúncio: ele pensa em se aposentar. É então o próprio Veríssimo que diz: "Penso em parar de escrever. O problema é que o dinheiro que ganho com os direitos autorais dos livros não é o suficiente para garantir minhas contas".

Não devemos subestimar a capacidade de um jornalista em entender errado o que dizem seus entrevistados, mas vamos admitir que as aspas e o contexto da frase fossem tais e quais aparecem na matéria. Muito bem. Veríssimo cogita parar de escrever. E diz que só não para porque precisa se sustentar - uma vítima do capitalismo, afinal. Estamos falando do escritor que mais vende livros no Brasil. Pois ele, justamente ele, diz que não consegue se manter com aquilo que já escreveu. Precisa continuar produzindo crônicas para que os jornais lhe garantam a sobrevivência. Ou seja, ser escritor é pior que ser jornalista.

Outro dia andaram brigando o Zezé di Camargo com o Luciano. Ameaçaram terminar a carreira. Ninguém aceitou. Choveram pedidos para que a dupla continuasse. E os dois se acertaram e continuam cantando juntos. A ameaça do Veríssimo certamente não terá o mesmo apelo popular, mas conseguiu chegar aos Trending Topics, por exemplo. E deve render mais manifestações nas redes sociais, e novas entrevistas do autor, para esclarecer o episódio. Tudo que podemos esperar é que o Luís Fernando se acerte definitivamente com o Veríssimo - e, de preferência, sem precisar de Rivotril nenhum.