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quarta-feira, 24 de julho de 2013

Na terra da velhinha de Taubaté


 Sendo turista, posso conhecer os museus que os próprios moradores da cidade nunca tiveram ocasião para conhecer, pois estão todos preocupados demais vivendo. Sei como é: moro em Brasília há três anos e, ao contrário dos turistas, ainda não conheci o Museu JK, e só na companhia de outros visitantes é que conheci o Palácio da Alvorada. Assim, não foi de se estranhar que poucos soubessem da localização e até mesmo da existência do bonito e completinho Museu Histórico Professor Paulo Florençano, em Taubaté. Ele está localizado na Avenida Thomé Portes Del Rey. Taubaté tem cerca de 300 mil habitantes, mas imagino que eu, estrangeiro, seja o único por lá capaz de citar Thomé Portes Del Rey entre os seus antepassados. Thomé fez parte dos homens que partiram para a região das Minas Gerais em busca de ouro. Alcançou o Rio das Mortes, perto da cidade que, por sua causa, é chamada São João Del Rey. Acabou morto pelos seus escravos. Com ele também andou Domingos Soares, cujo neto João um dia, sem razão conhecida, largou Taubaté e foi para Curitiba, contribuindo assim para que o cronista aqui não nascesse no Vale do Paraíba, mas na região das araucárias.

Mas isso são apenas histórias. Outra delas diz que Dom Pedro I dormiu em Taubaté. É sabido que uma das mais nobres funções dos imperadores é a de dormir nas cidades por onde passam. Assim fez Dom Pedro por uma única noite, em agosto de 1822. Logo se vê que, modéstia à parte, eu estou em vantagem, pois, somando minhas duas passagens por Taubaté, já cheguei a sete noites dormidas na cidade. É verdade que, depois de sair daqui, eu não dei nenhum grito às margens do Ipiranga, nem proclamei independência alguma. Assim é a vida.

Falava eu dos museus. Existe em Taubaté um Museu da História Natural, pertinho do Museu Histórico. Por história natural entenda-se coisas de milhões de anos atrás, de troncos de árvores a dinossauros. As datas são realmente de embasbacar. Há algumas réplicas em tamanho natural dos curiosos animais que em um dia bem distante habitaram a Terra. Descubro inclusive um dinossauro do Vale do Paraíba. Esse, mais recente, viveu há 23 milhões de anos. E eu me achando grande coisa por descobrir antepassados dos anos 1700. Não, eu pesquiso dinossauros mais recentes.

Ainda estava nesse maravilhamento quando apareceu um repórter da TV Vanguarda, a Rede Globo local, e perguntou se não podia fazer umas imagens minhas enquanto eu olhava a exposição. Eu autorizei, até porque ainda era cedo e não havia mais ninguém no museu. Mas eu conheço os jornalistas, e sabia que, depois das imagens, viria a inevitável entrevista. Falei então um tanto atabalhoadamente sobre o que acabara de ver. Foi o dia em que saí na Globo.


E mais não sei. Essas foram coisas que vivi enquanto estive nos Sertões de Taubaté, explorados pelo Capitão Jacques Félix e habitados anteriormente pelos índios guaianás. Já não se fala mais em ouro, mas principalmente em trânsito – há sempre alguma rua cuja mão deveria ser mudada, ou não, para facilitar a vida dos 180 mil veículos locais. E, mesmo sem ter bebido a água da Bica do Bugre, dou por cumprido o vaticínio de que quem assim fizer voltará um dia a Taubaté.  

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Reinações do 9 de Julho

 

As más línguas irão dizer que vim para o estado de São Paulo apenas para ter outro feriado. De fato, esta é a primeira vez que comemoro o 9 de Julho. Comemorar, naturalmente, é maneira de dizer, pois, além de não entender exatamente o que se comemora, eu estou de férias e de qualquer jeito não iria trabalhar. Até então, eu tinha para mim apenas que o 9 de julho foi o dia em que se relatou pela primeira vez o uso do guardanapo (é verdade). Mas sinto-me aliviado ao descobrir que o próprio Mário de Andrade, para quem até as nuvens eram paulistas (essa maldade é do Braga), confessou que muitos dos que participavam ou defendiam a Revolução Constitucionalista em 1932 não sabiam o que era Constituição.

Sei mais ou menos o que é uma Constituição, mas já não consigo entender muito bem as motivações de cada lado àquela época. Ainda estou em Taubaté, e por aqui a Revolução de 1932 também teve os seus reflexos. Foram 6 os homens da cidade que tombaram na batalha. Quem estava à frente das ações em Taubaté eram figuras públicas ligadas ao governo ou à elite local. Há quem diga que a população da cidade nem ligou para a Revolução, pois não houve registro de manifestações populares lamentando a derrota. Não posso confirmar. Mas presumo que, em nossos tempos, também grande parte da cidade não esteja ligando para a Revolução, preferindo passar o dia de forma menos cívica. Em todo caso, a data continua bem lembrada como nome de uma de suas principais avenidas, e sendo inclusive repetida em uma pacata rua do distrito de Quiririm, no interior do município.

Taubaté, vocês sabem, é a terra do Monteiro Lobato, que naqueles acontecimentos de 1932 defendeu a separação de São Paulo do resto do Brasil – Lobato via apenas dois caminhos para o estado: a hegemonia nacional ou a separação. Bem se vê que aconteceu o primeiro. Mas Taubaté também é a terra do Mazzaropi, e sobre esse não se sabe que tenha algum dia dado uma opinião sobre a Revolução de 1932 que tenha sido levada em conta. Ele mesmo dizia que o seu sucesso se explicava por falar a língua do povo. Mas naquele ano de revolta, Mazzaropi era apenas um rapazote que trabalhava como pintor de cenários e ator de peças que distraiam os homens que faziam a guerra.

Aproveitamos o dia para visitar o seu museu, tão escondido que a própria atendente se espanta que tenha sido encontrado. Ela também pergunta se nós chegamos a fazer figuração em algum filme do Mazzaropi. Mas nós somos caipiras de verdade, e não figurantes. E passamos a caminhar em meio aos cartazes e as histórias de todos os filmes do Mazzaropi, que saiam praticamente todo ano, cada um feito com a renda do anterior, e com incríveis superações diante das limitações da época – algo típico dos gênios apaixonados. Leio as sinopses e me simpatizo com as discussões provocadas. Penso nos filmes de Hollywood, e penso especialmente naquilo que não se pensa.

Saímos de lá e vamos para São José dos Campos. O feriado está em toda parte. Esqueço o Mazzaropi, esqueço a guerra de 1932. Temos o nosso próprio jeito de fazer filme, e temos as guerras do nosso tempo. Da sala de cinema, vejo o mundo se transformar em zumbis na A Guerra Mundial Z.  

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Morte e vida taubateana

 


O inesquecível Josef Studenick, pioneiro industrial no Vale do Paraíba, e assim qualificado no busto que recebeu em sua homenagem, está, quem diria, sendo esquecido. Studenick está bem cercadinho em frente ao Convento Santa Clara, em Taubaté, mas já tem o seu rosto coberto pelos galhos das árvores ao redor. Um dia estará tão esquecido quanto a Rua do Meio – rua em que meus ancestrais de Taubaté moraram, nos inesquecíveis anos 1700.

Na Rua do Meio, minha não-sei-quanto-avó Catharina Garcia de Unhatte tinha “dois lanços de casa de taipa de pilão cobertas de telha”. Custo a acreditar que tenha existido algo assim na Rua do Meio ou em qualquer outro lugar de Taubaté. É preciso um esforço sobre-humano para tentar visualizar a cidade da maneira que o francês Pallière registrou em um mapa de 1821. E, não fossem as bonitas maquetes que existem no Museu Histórico, jamais teríamos ideia de que as coisas um dia foram bem diferente do que são hoje.

Eram cinco as ruas, de modo que uma delas ficava ao meio. Mas a Rua do Meio virou depois Rua do Comércio e hoje se chama Duque de Caxias – embora devesse se chamar Rua das Noivas, tantas são as lojas destinadas a elas. Não sei em que parte dela morou Catharina, mas sei onde ela está morando agora. Seu corpo foi amortalhado no Convento Santa Clara, que já existia em Taubaté há um bom tempo. Tento entrar no Convento, mas as portas estão fechadas. Ao seu lado está o cemitério da Venerável Ordem Terceira, e eu, turista estranho, resolvo dar uma caminhada por ele.

Logo de cara, encontro Félix Gusard, outro homem importante na vida econômica de Taubaté. Não me detenho, e começo a ler algumas lápides, dando preferência para aquelas cuja arquitetura era mais destacada. E foi assim que encontrei a sepultura de Olga Guedes Tavares, percebendo de imediato que se tratava de uma espécie de Maria Bueno de Taubaté. Tenho a impressão de que toda cidade possui uma jovem morta na flor da idade e que desde então passou a ser venerada como santa. Assim foi com Olga Guedes Tavares, e no pequeno altar que se levantou em seu túmulo consigo ver cópias de orações, algumas feitas à mão, e que devem ter o mesmo texto há várias gerações, pois vejo referência até aos avós da menina.

Ao sair, retomo o caminho pela Rua do Meio e percebo que ela irá dar bem em frente à igreja de São Francisco das Chagas de Taubaté, a mais antiga da cidade. Quase chegando, descubro a Rua Bispo Rodovalho, que não é o fundador da Sara Nossa Terra, mas um antigo frade franciscano – o maior orador sacro da ordem franciscana no Brasil. Entro na igreja, observo as muitas imagens, os vários ventiladores, e por fim sento. Vários cidadãos de Taubaté entram e – acho curioso – começam uma peregrinação pelas imagens da igreja, parando, tocando e orando em todas elas. Simpatizo-me com um homem em especial e, na minha fé diversa, faço uma rápida oração para que não sofra tanto quanto demonstra.

Penso confusamente em escrever alguma coisa sobre a fé. Saio da igreja e sou absorvido pelo barulho do sábado de manhã, engolido pela multidão que caminha com pressa e sacolas – completamente alheia ao tempo em que será esquecida.