Mostrando postagens com marcador São Paulo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador São Paulo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Pauliceia acompanhada

(leia sorrindo) 

 A pior forma de solidão é a companhia de um paulista. Essa maldade não é minha, mas do Nelson Rodrigues, que sabia como ninguém dar ares de verdade eterna aos seus gracejos. E eu pensava com graça nessa frase depois de ter tido um dia cheio de companhias – e todas eram paulistas. Na véspera mesmo, ao invés de fazer turismo em São Paulo, eu havia passado a tarde inteira jogando conversa fora com uma paulista em uma banca de jornal. E ainda estaríamos lá, se não anoitecesse e a banca não tivesse que fechar. De lá ainda fui convidado para tomar generosa sopa na casa desta que é a mais ensolarada das paulistas. Há poucas pessoas capazes de fazer a mim, que quase não falo, conversar por horas seguidas.

Durante esses dias, estive bem hospedado na casa de uma família mineira, mas nem por isso menos paulista. Lá mora uma moça bastante simpática cujo nome significa esperança, mas que ainda não viu nada de especial nisso. Há dez anos compartilhamos melancolias que nela não aparecem à primeira vista. Tampouco apareceram enquanto estive lá. E ela me acompanhou até a Avenida Paulista, onde havia outras tantas companhias para encontrar.

Era gente que eu nunca havia visto na vida. Mas com eles eu havia partilhado nos últimos anos a maior parte das minhas leituras e dos meus palpites sobre literatura. Acreditem: somos uma comunidade do Orkut. Ainda existe Orkut. Expulsamos todas as pessoas de lá e agora temos uma rede social só para nós. Somos poucos, é verdade. Mas com que paixão debatemos livros e escritores! E ali estávamos alguns de nós, na Casa das Rosas, para tomar um café e descobrir quem exatamente existe atrás da tela do computador. Em mim descobriram uma voz que dizem ser de locutor. Nada sei. Eu descobri mais uma porção de pessoas para passar algumas boas horas em São Paulo.

Esta também foi a primeira vez na história da literatura que um escritor tomou conhecimento do seu próprio livro justamente no momento em que um leitor lhe pedia para autografá-lo. Assinei então a minha humilde coletânea de crônicas “Brasília quando perto”, que eu havia lançado sem ter visto o livro pronto. E ficamos todos conversando coisas que antigamente apenas escrevíamos. De repente, houve uma alusão à violência nas ruas em São Paulo. Só então me ocorreu o óbvio, ou seja, existe violência nas ruas em São Paulo. Lembrei que à noite eu estaria na Rua Augusta. São Paulo está cheia de pessoas para se encontrar!

Estive ainda em duas livrarias na Paulista, nas quais apliquei o meu método particular de avaliação, ou seja, o número de livros do Rubem Braga à venda – ambas reprovaram. Tudo isso devidamente acompanhado por gente que folheia livro como quem prova sapato. E assim chegamos à Augusta, onde me aguardavam 42,8% dos escritores do blog Vida a Sete Chaves. São três cronistas que um dia eu juntei no blog porque não queria ser cronista sozinho. E eu os juntei porque gostei do que escreviam, não por serem tão animados e divertidos como os encontrei. Cronista é um bicho muito bacana!

Pois é. Eu falo pouco e estava rouco no fim da noite. Que barbaridade. Disso tudo só posso concluir que, ao menos para mim, a pior forma de solidão é a ausência de um paulista!

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Lira paulistana


(Leia ouvindo) 


 E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um outono invencível. Vestindo agasalhos e melancolias, eu caminhava sozinho pelas ruas de uma São Paulo quase provinciana. Sou um homem livre em meio à multidão que trabalha, geralmente naquilo que não ama. E, por ser assim, também sou um homem cheio de dúvidas, que não sabe para qual parte da cidade levar as suas angústias. Mas tenho muito rostos, e por isso caminho com naturalidade – passo facilmente por paulista. A única coisa capaz de me trair são os cruzamentos: sempre olho para o lado errado antes de atravessar a rua. No mais, sou também um quatrocentão, mais velho que os tantos prédios históricos por onde passo, e digno da mesma indiferença na bagunça das calçadas.

Ah, a Estação da Luz! Tanta poesia, tanta agressão. Antigamente até Nossa Senhora era da Luz. Hoje não haveria espaço para ela nos vagões da CPTM. Os trens chegam, já sem nenhum romantismo, as portas abrem e as pessoas disparam ensandecidas – reforço: disparam ensandecidas. E neste tenro gesto vos contemplo. Somos milhões, e para não nos esmagarmos e nem pisarmos uns nos outros, pedem apenas que deixemos a esquerda livre quando usamos as escadas rolantes. Feito isso, estamos livres para ter a pressa que desejarmos. Mas eu sou atraído pelas melodias de um pianista de Hamelin – inacreditável respiro no meio da afobação, bem-encaixado adereço num ambiente em que a própria visão de onde se está já não causa a menor comoção.

Volto às ruas e tenho a nítida impressão de que todo mundo está perdido. Estão todos querendo chegar a algum lugar que não sabem onde fica. Frustro a todos que me pedem informação. Tenho sempre engatilhado o irrefutável argumento de não ser daqui. Quase o usei para dispensar uma garota que me oferecia canetas e chaveiros para ajudar não sei qual causa. Achei caro e não comprei. Mas tive pena da garota, que no meio da praça pouco movimentada arrumava coragem para abordar aqueles que mais tinham cara de cristãos – e eles não compravam. Continuei meu caminho, somando essa às outras tristezas que carregava comigo.

Estou agora na Consolação, geograficamente falando. Também aqui, como em todo lugar, há um pedaço do meu passado. O velho Giese, homem lá do sul, um dia morou no distrito da Consolação. Isso no tempo em que o velho Giese não era velho. O que veio fazer aqui, velho Giese? Ou, pior: o que eu estou fazendo aqui? Tenho andado muito, e nem sempre soube para onde estava indo. Mas continuo andando, porque ficar é impossível. Aproveito para entrar na igreja local e ouvir um pouco do silêncio paulista. Vejo almofadas no espaço em que os fiéis se ajoelham, o que deve ser uma consolação muito grande.

Percebo com satisfação que a sombra em São Paulo é inevitável – os prédios a garantem. O sol está pálido, dentro e fora de mim. Nebulosidade variável, com possibilidade de chuva no decorrer do período. Garoa, sai dos meus olhos! Deixe-me ver as coisas como elas são! Pego um jornal e me dou conta que coisas continuaram acontecendo no mundo, apesar de eu estar viajando. Procuro um banco para sentar – estou cansado de tentar não me importar. Sentado, espero o primeiro pedinte, que já se aproxima.  

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Pierina e pouco mais

 Como já é bastante comum que eu folheie algum livro e, sem querer, logo me depare com alguma citação ao Rubem Braga, não estranhei que justamente nos dias em que estive em São Paulo, vindo de Taubaté, houvesse uma exposição sobre ele no Museu da Língua Portuguesa. É uma lei de atração que provavelmente apenas a mecânica quântica consegue explicar. Ou ela ou o fato de que na última década li, reli e treli todos os seus livros, pesquisei e esmiucei todas as características de suas crônicas, transformei-o em frias tabelas e estatísticas na minha monografia, troquei informações com outros leitores e pesquisadores, vim parar em Brasília por conta disso, criei um blog sobre crônica que leva o seu nome, cheguei a dar entrevista sobre ele, adotei a crônica como meu gênero de leitura favorito e, como se não bastasse, ainda me animei a escrever por causa dele.

Não era, portanto, um desconhecido que fui encontrar no museu. E por isso também não esperava encontrar muita novidade. Pra mim já era bom ver o Braga sendo visto – pelo menos no ano do seu centenário. E lá estava o Braga repórter, escritor, editor, diplomata, cachoeirense, amante das artes, homem da TV e, sobretudo, combatente da FEB. Digo isso porque foi grande o destaque dado à participação de Braga na Segunda Guerra. As salas foram revestidas com capas de jornais da época. Abaixo das manchetes, a crônica que o Braga mandava direto do front na Itália. Também havia uma sala cheia de telefones antigos. Cada um dava uma notícia ou tocava uma música desse tempo. Seria bom se com isso também o “Crônicas da Guerra na Itália” pudesse ser mais conhecido. É um livro diferente do Braga, e ao mesmo tempo um dos mais bonitos.

Pude ler também a sua primeira crônica publicada em jornal – a parnasiana “A Lágrima”, que nem de longe lembra os melhores momentos do Braga. A redação que fez na quarta série, no entanto, chamada “A Batalha das Flores”, já deixava antever muita coisa que viria a fazer parte do seu estilo como escritor. Há ainda entrevistas, fotos, documentos, rascunhos, e outras coisas mais que deixam a gente feliz por vê-lo homenageado.

Tudo isso exposto aqui em São Paulo, onde o Braga se sentiria bem. Ele dizia que Congonhas já havia entrado para a sua geografia. Nesta soberba cidade os seus nervos estalaram, entre emoções e solidões, como vergas de metal do velho viaduto. Dentro dele vibravam, como parte de sua vida, as agitações da ânsia multifária e triste de São Paulo. Era também homem de coração fácil, que logo se afeiçoava a locais, erguia um palco para suas emoções e colocava discretas placas de mármore comemorativas – tudo isso ele escreveu.


E há também Pierina, a amada que vez ou outra aparecia em sua crônica no Diário de São Paulo em 1934. Pierina existiu e se chamava Pierina. Com ela Braga se correspondia por meio de sinais e gestos da janela do seu prédio para a janela do sobrado dela. Às vezes lhe jogava flores ou frutas, sem acertar o alvo. Nunca chegaram a se encontrar, e logo o Braga se mudou de São Paulo. Mas, naquele tempo, o que amava o Braga? Pierina e pouco mais. Pierina e a vida, duas coisas que se confundem hoje, e amanhã mais se confundirão na morte.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Grandes Sertões: São Paulo


“Só se vê prédio e casa. De natureza mesmo, só as nuvens. E aquelas montanhazinhas”. Assim observou a bonita moça sentada à minha frente enquanto nos preparávamos para pousar em São Paulo. Sem dúvida ela achou que seria uma condescendência muito grande incluir o Tietê, também visível ali de cima, entre as obras da natureza na capital paulista. Cheguei até mesmo a ouvir uma conversa questionando se era realmente água aquilo que víamos lá embaixo. A moça bonita reparou ainda na poluição do ar. Fez questão de mostrar a névoa escura para sua amiga. Esta, apenas respondeu: “Tenso, véi!”.

E assim fui chegando a São Paulo, pela segunda vez na vida – estou desconsiderando as conexões de vôos. Há oito anos eu cheguei a São Paulo de ônibus. Já escrevi sobre isso: andei de metrô, caminhei pela Paulista, cruzei a Ipiranga com a São João, vi o Canindé, o antigo Carandiru e preenchi o bilhete de passagem para um velhinho no Tietê – o Terminal, e não o Rio. E era justamente para o Terminal Rodoviário do Tietê que eu iria agora.

Lá eu pegaria um ônibus que me levaria a Taubaté, no Vale do Paraíba. Ainda impressionado por não haver uma ligação direta entre Congonhas e o Tietê, busco um ponto de ônibus na Avenida Washington Luís. Este ponto, imagino, é um dos primeiros contatos dos visitantes com a cidade. Procuro o ponto e não acho. Vejo pessoas paradas sem muita ordem. Não há um abrigo. Não há sequer uma placa indicando o local exato. Decido ficar por ali mesmo. A calçada é apertada. Encosto-me na parede de um comércio. Mal encosto e me pedem uma licencinha, porque estão pintando a parede. Eis a minha recepção na cidade.

Tenho anotado na cabeça o número de um ônibus que devo pegar até uma estação de metrô. O ônibus aparece. Reparo que está escrito realmente o nome de uma estação de metrô no itinerário. Embarco e relaxo. Fico na expectativa de chegar à estação. O tempo vai passando. Começo a achar muito demorado. Mas confio cegamente no itinerário e permaneço dentro. Chego em ruas estranhas. Súbito, o ônibus estaca: é o ponto final. Nem sinal do metrô. Tenho que descer. Estou perdido no meio do nada – até agora não sei onde estive. Nonada. Curiosamente, não fui o único a descobrir que pegou o ônibus errado só no ponto final. Indicam outro ponto para nós. Seguimos para lá. Pego outro ônibus, essa vez escrito bem grandão “Metrô Jabaquara”. Pergunto ao cobrador quanto tempo demora até lá. Ele responde: mais ou menos uma hora. Quase pergunto se isso é no fuso daqui ou no de lá.

Chego, finalmente. Vou comprar um bilhete para o metrô. A fila está enorme. Sou tomado por uma repentina saudade da roça. Começo a questionar a minha decisão de viajar. Murmuro palavras muito duras contra a cidade, e o que menos disse foi que era uma loucura. Compro o bilhete, entro no metrô e enfim chego ao Tietê. São quase quatro horas da tarde e eu ainda não almocei. Decido comer um prato completo, refeição de verdade. Vou a uma lanchonete, passo um tempo escolhendo, e então faço o meu pedido. O atendente explica: refeições, só a partir das cinco horas. Suspiro. E desejo ardentemente que o Vale do Paraíba ainda seja conhecido como os Sertões de Taubaté.