Há algumas semanas
defendi a alteração do nome da Praça Getúlio Vargas para “Jardim
do Imigrante”. Aparentemente, agradei a gregos e goianos. Otto, o
único alemão nascido em São Bento, foi um dos que mais me
felicitaram. Achei exagero apenas quando sugeriu que também
mudássemos a Jorge Lacerda para “Slomann”, a Felipe Schmidt para
“Guetzow”, a José Zipperer para “Stefanstrasse” e, o que é
pior, a Avenida Argolo para “Vebindungsweg”. Educadamente,
agradeci as sugestões, mas disse que nesse momento precisávamos de
foco – e o foco, evidentemente, era mudar o nome da Praça Getúlio
Vargas.
Como era de se esperar,
uma voz se ergueu contra a mudança: Otto, o filho do Otto. Para ele,
o ideal seria suprimir de todos os documentos, antigos ou atuais,
qualquer menção, ainda que indireta, a uma possível colonização
feita por imigrantes. E, por mais que não lhe agrade dar à praça o
nome de um ditador, ainda preferia isso a ter que reconhecer o seu
passado europeu. Compreendamos: Otto renega sua história como o
Dalton Trevisan faz com seus primeiros livros.
Mas eis que surgiu Anita,
a nossa heroína – eu a apresentei há algum tempo: é a namorada
do filho do Otto. Bolas, Anita é mais revolucionária que o bóson
de Higgs. É mais chegada a um protesto que pico-pico em calça
jeans. E foi justamente por isso que não apenas apoiou a alteração
do nome da praça como inclusive quis organizar um protesto
justamente no dia de aniversário da cidade. Verdade é que não se
limitaria ao nome da praça: seria também contra a corrupção, o
aumento da violência, Belo Monte, a guerra na Síria, o programa da
Fátima Bernardes, e Deus sabe mais o quê. Enfim, era um protesto, e
acabei acolhendo a ideia. O filho do Otto, sem saída, acabou cedendo
às razões femininas e também passou para o nosso lado.
Tínhamos um grupo,
afinal. E até então não havia aparecido nenhuma oposição. Eu
tive o cuidado de ouvir a opinião do próprio Getúlio Vargas, o que
só consegui graças à intervenção do Pai Fritz – esse ilustre
são-bentense, primeiro pai de santo a usar sotaque alemão para
conversar com almas penadas. Devo muitas das minhas descobertas
históricas ao Pai Fritz, que já me baixou – literalmente –
diversos livros antigos. Pois bem. Pai Fritz ouviu Getúlio Vargas, e
descobriu essa coisa espantosa: Getúlio não se lembrava de existir
uma cidade chamada São Bento. E quando perguntamos se aceitava abrir
mão do nome da praça, disse que pouco se lhe dava, pois não
pretendia largar a sua eternidade para visitá-la.
Disso se percebe que
estão todos a favor, inclusive o maior interessado. Mas isso é
justamente o mais curioso: ninguém é absolutamente contra a ideia,
e a maioria é inclusive bastante simpática a ela. E, no entanto,
não há até agora uma palha movida para que isso aconteça. Nem
mesmo o nosso protesto aconteceu, pois houve aquele terrível
temporal na véspera do aniversário, que destruiu na praça árvores
contemporâneas ao Getúlio. Anita, que nas horas vagas é caçadora
de teorias da conspiração, não deixou de ver nisso uma artimanha
de forças ocultas, com o covarde objetivo de garantir que aquele que
saiu da vida nunca mais saia da nossa história.