quinta-feira, 5 de março de 2015

Otto e a maldição de Nóe

Ou eu muito me engano ou na semana passada eu comecei a contar as minhas desventuras por ocasião da última visita que fiz ao Otto – o Bismarck das Araucárias. De fato, não posso dizer que essa visita tenha sido das mais agradáveis, apesar dos doces que comi e dos outros mais que a dona Johanna fez questão que eu levasse para casa. A questão foi, vocês devem lembrar, que eu apresentei uma foto da futura senhora Fendrich e o Otto pareceu não gostar do fato de ela ser morena, quase negra. Disso resultou uma discussão em que o Otto chegou a invocar até mesmo “a maldição que Noé jogou em cima desses povos”. Tomado de cólera, eu apenas consegui dizer “Mentes! Mentes”. Assim terminamos na semana passada.

O primeiro pensamento que me veio à mente, logo depois daquele que me dizia para quebrar a cara do Otto, foi o de surpresa ao constatar que Otto tentava citar um episódio bíblico. Ora, todo são-bentense sabe que o Otto vai à igreja todo domingo, precisando ou não. É católico, sobretudo porque o seu pai fora católico, e antes dele o seu avô, e também o pai do seu avô. Se todos os homens da família fossem mórmons, Otto seria mórmon sem tirar nem por – até deixaria de beber cerveja. Mas calhou que a tradição na família fosse a de ser católico, e só por isso é que Otto é católico – nunca soube que lesse a Bíblia, e por isso o meu espanto.

Como eu não sou de todo ignorante nessas questões, eu sabia que essa história de maldição aos negros é mentira – apesar do que andou dizendo por aí o Marco Feliciano. E, depois de me acalmar, foi o que tentei mostrar ao Otto, pegando emprestada uma Bíblia muito bonita, embora um tanto empoeirada, que o Otto deixa de adereço em uma mesinha. Vamos resumir a história: Noé plantou uma vinha, bebeu do vinho e ficou bêbado, tão bêbado que chegou a ficar pelado. Um dos filhos de Noé, chamado Cam, viu o pai nesse estado e, em vez de cobri-lo, foi contar a seus irmãos. Estes sim, foram lá e cobriram a nudez do pai. Quando voltou a si, Noé ficou sabendo da história e jogou uma maldição, não sobre Cam, mas sobre o filho deste, chamado Canaã. Deu a entender que seus descendentes seriam oprimidos por outras nações.

Bolas, os filhos de Cam foram para a África, mas não Canaã. Os descendentes de Canaã foram para um lugar conhecido, vejam só que coisa, como Canaã – ali na região de Israel.  Anos mais tarde eles seriam exatamente expulsos pelos israelitas, cumprindo ali a tal da maldição. Mas claro, ao longo da história sempre foi bastante conveniente associar essa maldição aos negros, pois isso justificaria que continuássemos os explorando – legitimados pela palavra do Senhor! Tentei explicar tudo isso ao Otto, mas tenho certeza que ele não acreditou em coisa alguma – é sempre muito difícil usar a razão para convencer quem já se convenceu sem ela.

Devolvi a Bíblia à sua mesinha, não sem antes sugerir ao Otto que pare de achar que Deus é o sujeito que diz amém aos seus pensamentos. Otto pareceu arrependido por ter entrado em assunto tão espinhoso e, como para fazer as pazes, disse que ia me pagar uma rodada de iogurte. Não sei por que, mas acho que aos poucos o Otto vai me entendendo.

Leia todas as histórias com Otto, o mais alemão dos são-bentenses: 

1. Otto e a cidadania europeia 












sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Otto e a futura senhora Fendrich

Todo Carnaval eu viajo para o sul, o que é uma maneira de escapar das folias, e em nenhum lugar eu me sentiria mais seguro contra elas do que na casa do Otto, o mais alemão dos são-bentenses.  Otto, naturalmente, não comemora o Carnaval – diz que é uma sem-vergonheira só, e que é por causa disso que o país não vai para frente. Embora considere impossível que um homem alcance a verdadeira felicidade sem fazer uso de cerveja, Otto chegou até mesmo a lamentar quando a televisão mostrou a imagem de jovens caindo pelo chão em festas de rua. Eu não queria comprar briga, e por isso nada falei sobre algumas cenas que vi na Oktoberfest.

A verdade é que eu estava de bom humor. Havia chegado exatamente na hora do café e me empanturrava com os deliciosos cuques oferecidos pela dona Johanna, a mulher do Otto. Papo vai, papo vem, e a dona Johanna me pergunta se eu não penso em me casar. Quase toda vez que eu visito a casa do Otto ela me pergunta isso. Estou convencido de que, para ela, a minha vida é um perfeito fracasso se eu não estiver casado. O próprio Otto concorda com ela, e mais de uma vez me mostrou a conveniência de levar meus genes germânicos a uma nova geração.

Nas outras vezes, eu tive que dar uma resposta evasiva, pois eu realmente não havia pensado em me casar. Mas dessa vez eu tinha uma boa nova, e a anunciei como se fosse uma promessa de vida eterna: “Estou namorando”. O que se passou então foi algo indizível, ficaram os dois tão comovidos com a novidade que nem repararam quando peguei o último cuque de banana. Felicíssimos, começaram a me fazer perguntas sobre quem era a escolhida. Otto queria saber “de que família” ela era. Não pude reprimir um sorriso maroto quando respondi que era “da tradicional família Silva”. Otto recuou, espantado. Ainda conseguiu balbuciar: “Não é alemã”? Fui sincero como um teste de gravidez: era brasileira, tão brasileira quanto um índio botocudo.

Enquanto ele se recuperava, dona Johanna perguntou se por acaso eu não tinha uma foto da moça. Por acaso eu tinha. Tirei-a da carteira e mostrei a ela, que não poupou elogios à “futura senhora Fendrich”. Otto, no entanto, quando viu a foto, não pôde reprimir uma expressão de desagrado. Suspeitei que isso pudesse ter a ver também com a cor da senhora Fendrich – de fato, ela é morena, quase negra. Normalmente sou bastante tranquilo com o Otto, mas aquela suspeita me indignou, e então, como o apóstolo Paulo, eu lhe resisti na face: perguntei o que ele achava de um homem branco namorar uma mulher negra. Otto ficou bastante embaraçado e por um momento não soube o que responder. Como eu insistisse, começou uma confusa explicação sobre os motivos para que esses relacionamentos fossem evitados, chegando a invocar até mesmo “a maldição que Noé jogou em cima desses povos”. Neste momento eu o interrompi e, com os olhos rútilos e os lábios trêmulos, só consegui dizer: “Mentes! Mentes!”

Otto se assustou com a minha reação, e dona Johanna veio se acercar de mim pedindo que eu tivesse calma e não prestasse atenção ao marido. E se eu termino aqui agora, com esse grau de dramaticidade, é apenas para garantir a audiência da coluna na semana que vem. Tschüss!



Leia todas as histórias com Otto, o mais alemão dos são-bentenses: 

1. Otto e a cidadania europeia 











sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Os tumultos da paz (Hélio Pellegrino)

Costuma-se confundir paz com imobilismo quietista ou, o que é pior: costuma-se desfigurá-la a ponto de enxergar nela um sinônimo de conformismo submisso, onde a ausência de conflito é valorizada como virtude, e a tibieza celebrada como valor. Na realidade, paz nunca é pasmaceira. Nem turbulência coagulada pela força do arbítrio. Nem muito menos silêncio das tumbas. Ao contrário, paz é tensão criadora, e implica agonia ativa e apaixonada vigília. Não há paz sem contradição e contradição dialéticas. Paz é, portanto, possibilidade de comunicação autêntica, de diálogo, de palavra plena. Nada em si mesmo é completo, acima e além da contingência, do movimento, da transformação. Todas as coisas - mergulhadas no rio heráclito - trazem em si os seus contrário e, nesta medida, nascem, vivem e morrem, para dar lugar a novos nascimentos, novas vidas, novas mortes. É do embate de opostos que surge o desvendamento da verdade, através do ballet célebre: tese, antítese e síntese.

Para que se possa chegar à síntese - ponto de partida para novas contradições, que irão dividi-la - é preciso que a tese e a antítese tenham garantido o seu direito à palavra, ao debate sem medo e sem coação. Não há paz sem liberdade. Não há progresso sem liberdade. Não há nada de verdadeiramente humano sem liberdade. Para que exista paz, é necessário que haja humildade, transparência, paciente busca da justiça. Se quero construir a paz com os outros seres humanos, tenho que saber que não sou nem onipotente, nem perfeito. Paz é virtude coletiva, política, edificada com os outros. Ela implica, portanto, e de maneira radical ao Próximo, escuta atenta, modéstia.

Paz é consentimento profundo na existência do Outro. Só através dele é que chego a ganhar-me, em minha autonomia, identidade e diferença. O mundo me esbarra, limita, resiste - e liberta. O mesmo acontece com a presença intersubjetiva do Outro a meu lado, companheiro com quem divido a tarefa da construção da polis - cidade de todos. A alteridade é constitutiva de mim, enquanto pessoa, da mesma forma que eu, pela minha existência, sou uma dádiva doada ao Outro, para que ele seja.

Ao postular a necessidade de amor ao Próximo, nem por isso me exponho ao mundo de artérias abertas, nem abro mão do investimento narcísico fundamental que constitui a base de minha coesão psíquica. O amor ao Próximo está longe de representar um devaneio beato e piedoso, conto da carochinha para embair crianças, desavisados e inquilinos de sacristia. Trata-se de uma essencial exigência pessoal e política, sem cujo atendimento não nos poremos a serviço, nem de nós mesmos, nem de ninguém. Amar ao próximo como a si mesmo é, por excelência, a regra de ouro, cânon fundador da única prática pela qual poderemos chegar a um pleno amor por nós próprios. Sou o primeiro e mais Próximo de mim, e esta relação de mim para comigo passa, inevitavelmente, pela existência do Outro. Este é o termo terceiro, a referência transcendente por cuja mediação passo a construir a minha auto-estima.

Eis aí o modelo da paz. Minha abertura ao Outro constitui - sem nenhum pieguismo! - um ato de gratidão por ele existir, dando-me a possibilidade  de minha própria existência. Ao defender o direito que tem o Outro de ser, afirmo - e confirmo - o meu direito de existir. O contrário da paz é o ódio ao próximo ou a si mesmo, seja em nome do que for. O ódio me destrói sempre, na medida em que visa a destruir meu irmão, meu vizinho, meu contendor - meu inimigo. O amor aos inimigos não é a utopia de um louco manso chamado de Jesus Cristo. Antes e acima de tudo é um princípio pragmático, vacina contra a raiva que garante minha integridade psíquica e existencial.

O racismo, por exemplo, é o contrário da paz. O anti-comunismo irracional, do fascista cego, também o é. O racista, por covardia, atribui à raça estrangeira todas as nódoas e imperfeições que não suporta em si mesmo. A alvura do racista americano - ou rodesiano - é suja e conspurca a dignidade humana. Por seu intermédio, deixa ele de assumir seus defeitos e mesquinhezas e os projeta, com excremento, na face de crianças inocentes, de mulheres, de velhos ou de quem quer que traga o estigma da cor maldita. O racista, para afirmar-se e estimar-se, tem que destruir o Outro, numa negação assassina. sua auto-estima perversa depende da anulação daquele que encarna a diferença. Quanto mais o odeia - e se odeia, nele -, mais se embriaga de arrogância. Do que irá decorrer que o racista, inevitavelmente, venha a servir ao homicídio, ao genocídio, à guerra, à destruição de si mesmo e dos outros.

No caso do anticomunista irracional, a estrutura do problema é basicamente a mesma. O capitalismo é um intrinsecamente mau, já que implica um injustiça visceral, que lhe constitui o cerne. Por mais que tente embelezar-se , o regime capitalista na exploração do homem pelo homem, e isto gera um modelo de sociedade em que a riqueza e o fastígio de uns poucos se erigem à custa do trabalho e da privação de muitíssimos. Nessas condições, a possibilidade de paz é relativa, e só se construirá na medida em que os vícios e as iniquidades do sistema possam ser dialetizados, discutidos e modificados, num clima de absoluta liberdade política.

Acontece, entretanto, que o regime capitalista, em todos os lugares está longe de reconhecer seus defeitos e imperfeições. Os capitalistas, inflando as bochechas de retórica, costumam autoproclamar-se defensores dacivilização ocidental e cristã, paladinos da liberdade e cavaleiros da mais pura justiça social. Se assim é, o descontentamento popular, os conflitos e a violência, as greves e os embates gerados pela luta de classes hão de ser imputados, não às podridões do regime - que inexistem -, mas à ações deletéria dos grupos subversivos, a serviço e a soldo do comunismo internacional. Há aqui projeção, no sentido psicanalítico do termo, além de negação da dialética e, portanto, do movimento da vida.

Ta modelo sociológico, psicológico e político, tão bem exemplificado através do racismo e do anticomunismo cego, me parece representar, nos dias de hoje, um verdadeiro câncer, capaz de gerar patologia pessoal e social que  venha a empurrar o mundo no rumo da catástrofe e da destruição. O maniqueísmo - racista, anticomunista, religioso, ou de qualquer outro tipo - constitui, por excelência, o pecado contra a vida e contra a paz, a serviço da morte. A paranóia maniqueísta produz a pululação crispada da arrogância, da crueldade enlouquecida, da soberba sem limites. Daí para o apocalipse, é um passo.

Paz, finalmente, é a assunção - mais do que dolorosa, porque crucificadora - de que nós, os humanos, somos carcaças deitas de tempo, marcados pela finitude, que constitui nossa dimensão mais radical. Paz é a possibilidade de nos sabermos sem rancor excessivo, falíveis, finitos, limitados, necessariamente ultrapassáveis. Ela exige, portanto, aceitação - e reverência - do que é novo e dessemelhante, pela consciência que devemos ter de  que jamais possuiremos, a respeito de coisa alguma, a última palavra. Paz é coragem de pôr-se de acordo com a verdade, a justiça, a liberdade. E como a verdade, a justiça e a liberdade implicam a existência dos outros, paz é coragem de con-sentir na existência deles, inferno muitas vezes, escândalo quase sempre, mas porto e destino de tudo o que é humano.