sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Os tumultos da paz (Hélio Pellegrino)

Costuma-se confundir paz com imobilismo quietista ou, o que é pior: costuma-se desfigurá-la a ponto de enxergar nela um sinônimo de conformismo submisso, onde a ausência de conflito é valorizada como virtude, e a tibieza celebrada como valor. Na realidade, paz nunca é pasmaceira. Nem turbulência coagulada pela força do arbítrio. Nem muito menos silêncio das tumbas. Ao contrário, paz é tensão criadora, e implica agonia ativa e apaixonada vigília. Não há paz sem contradição e contradição dialéticas. Paz é, portanto, possibilidade de comunicação autêntica, de diálogo, de palavra plena. Nada em si mesmo é completo, acima e além da contingência, do movimento, da transformação. Todas as coisas - mergulhadas no rio heráclito - trazem em si os seus contrário e, nesta medida, nascem, vivem e morrem, para dar lugar a novos nascimentos, novas vidas, novas mortes. É do embate de opostos que surge o desvendamento da verdade, através do ballet célebre: tese, antítese e síntese.

Para que se possa chegar à síntese - ponto de partida para novas contradições, que irão dividi-la - é preciso que a tese e a antítese tenham garantido o seu direito à palavra, ao debate sem medo e sem coação. Não há paz sem liberdade. Não há progresso sem liberdade. Não há nada de verdadeiramente humano sem liberdade. Para que exista paz, é necessário que haja humildade, transparência, paciente busca da justiça. Se quero construir a paz com os outros seres humanos, tenho que saber que não sou nem onipotente, nem perfeito. Paz é virtude coletiva, política, edificada com os outros. Ela implica, portanto, e de maneira radical ao Próximo, escuta atenta, modéstia.

Paz é consentimento profundo na existência do Outro. Só através dele é que chego a ganhar-me, em minha autonomia, identidade e diferença. O mundo me esbarra, limita, resiste - e liberta. O mesmo acontece com a presença intersubjetiva do Outro a meu lado, companheiro com quem divido a tarefa da construção da polis - cidade de todos. A alteridade é constitutiva de mim, enquanto pessoa, da mesma forma que eu, pela minha existência, sou uma dádiva doada ao Outro, para que ele seja.

Ao postular a necessidade de amor ao Próximo, nem por isso me exponho ao mundo de artérias abertas, nem abro mão do investimento narcísico fundamental que constitui a base de minha coesão psíquica. O amor ao Próximo está longe de representar um devaneio beato e piedoso, conto da carochinha para embair crianças, desavisados e inquilinos de sacristia. Trata-se de uma essencial exigência pessoal e política, sem cujo atendimento não nos poremos a serviço, nem de nós mesmos, nem de ninguém. Amar ao próximo como a si mesmo é, por excelência, a regra de ouro, cânon fundador da única prática pela qual poderemos chegar a um pleno amor por nós próprios. Sou o primeiro e mais Próximo de mim, e esta relação de mim para comigo passa, inevitavelmente, pela existência do Outro. Este é o termo terceiro, a referência transcendente por cuja mediação passo a construir a minha auto-estima.

Eis aí o modelo da paz. Minha abertura ao Outro constitui - sem nenhum pieguismo! - um ato de gratidão por ele existir, dando-me a possibilidade  de minha própria existência. Ao defender o direito que tem o Outro de ser, afirmo - e confirmo - o meu direito de existir. O contrário da paz é o ódio ao próximo ou a si mesmo, seja em nome do que for. O ódio me destrói sempre, na medida em que visa a destruir meu irmão, meu vizinho, meu contendor - meu inimigo. O amor aos inimigos não é a utopia de um louco manso chamado de Jesus Cristo. Antes e acima de tudo é um princípio pragmático, vacina contra a raiva que garante minha integridade psíquica e existencial.

O racismo, por exemplo, é o contrário da paz. O anti-comunismo irracional, do fascista cego, também o é. O racista, por covardia, atribui à raça estrangeira todas as nódoas e imperfeições que não suporta em si mesmo. A alvura do racista americano - ou rodesiano - é suja e conspurca a dignidade humana. Por seu intermédio, deixa ele de assumir seus defeitos e mesquinhezas e os projeta, com excremento, na face de crianças inocentes, de mulheres, de velhos ou de quem quer que traga o estigma da cor maldita. O racista, para afirmar-se e estimar-se, tem que destruir o Outro, numa negação assassina. sua auto-estima perversa depende da anulação daquele que encarna a diferença. Quanto mais o odeia - e se odeia, nele -, mais se embriaga de arrogância. Do que irá decorrer que o racista, inevitavelmente, venha a servir ao homicídio, ao genocídio, à guerra, à destruição de si mesmo e dos outros.

No caso do anticomunista irracional, a estrutura do problema é basicamente a mesma. O capitalismo é um intrinsecamente mau, já que implica um injustiça visceral, que lhe constitui o cerne. Por mais que tente embelezar-se , o regime capitalista na exploração do homem pelo homem, e isto gera um modelo de sociedade em que a riqueza e o fastígio de uns poucos se erigem à custa do trabalho e da privação de muitíssimos. Nessas condições, a possibilidade de paz é relativa, e só se construirá na medida em que os vícios e as iniquidades do sistema possam ser dialetizados, discutidos e modificados, num clima de absoluta liberdade política.

Acontece, entretanto, que o regime capitalista, em todos os lugares está longe de reconhecer seus defeitos e imperfeições. Os capitalistas, inflando as bochechas de retórica, costumam autoproclamar-se defensores dacivilização ocidental e cristã, paladinos da liberdade e cavaleiros da mais pura justiça social. Se assim é, o descontentamento popular, os conflitos e a violência, as greves e os embates gerados pela luta de classes hão de ser imputados, não às podridões do regime - que inexistem -, mas à ações deletéria dos grupos subversivos, a serviço e a soldo do comunismo internacional. Há aqui projeção, no sentido psicanalítico do termo, além de negação da dialética e, portanto, do movimento da vida.

Ta modelo sociológico, psicológico e político, tão bem exemplificado através do racismo e do anticomunismo cego, me parece representar, nos dias de hoje, um verdadeiro câncer, capaz de gerar patologia pessoal e social que  venha a empurrar o mundo no rumo da catástrofe e da destruição. O maniqueísmo - racista, anticomunista, religioso, ou de qualquer outro tipo - constitui, por excelência, o pecado contra a vida e contra a paz, a serviço da morte. A paranóia maniqueísta produz a pululação crispada da arrogância, da crueldade enlouquecida, da soberba sem limites. Daí para o apocalipse, é um passo.

Paz, finalmente, é a assunção - mais do que dolorosa, porque crucificadora - de que nós, os humanos, somos carcaças deitas de tempo, marcados pela finitude, que constitui nossa dimensão mais radical. Paz é a possibilidade de nos sabermos sem rancor excessivo, falíveis, finitos, limitados, necessariamente ultrapassáveis. Ela exige, portanto, aceitação - e reverência - do que é novo e dessemelhante, pela consciência que devemos ter de  que jamais possuiremos, a respeito de coisa alguma, a última palavra. Paz é coragem de pôr-se de acordo com a verdade, a justiça, a liberdade. E como a verdade, a justiça e a liberdade implicam a existência dos outros, paz é coragem de con-sentir na existência deles, inferno muitas vezes, escândalo quase sempre, mas porto e destino de tudo o que é humano.