Todo Carnaval eu viajo
para o sul, o que é uma maneira de escapar das folias, e em nenhum lugar eu me
sentiria mais seguro contra elas do que na casa do Otto, o mais alemão dos
são-bentenses. Otto, naturalmente, não
comemora o Carnaval – diz que é uma sem-vergonheira só, e que é por causa disso
que o país não vai para frente. Embora considere impossível que um homem
alcance a verdadeira felicidade sem fazer uso de cerveja, Otto chegou até mesmo
a lamentar quando a televisão mostrou a imagem de jovens caindo pelo chão em
festas de rua. Eu não queria comprar briga, e por isso nada falei sobre algumas
cenas que vi na Oktoberfest.
A verdade é que eu
estava de bom humor. Havia chegado exatamente na hora do café e me empanturrava
com os deliciosos cuques oferecidos pela dona Johanna, a mulher do Otto. Papo
vai, papo vem, e a dona Johanna me pergunta se eu não penso em me casar. Quase
toda vez que eu visito a casa do Otto ela me pergunta isso. Estou convencido de
que, para ela, a minha vida é um perfeito fracasso se eu não estiver casado. O
próprio Otto concorda com ela, e mais de uma vez me mostrou a conveniência de
levar meus genes germânicos a uma nova geração.
Nas outras vezes, eu
tive que dar uma resposta evasiva, pois eu realmente não havia pensado em me
casar. Mas dessa vez eu tinha uma boa nova, e a anunciei como se fosse uma
promessa de vida eterna: “Estou namorando”. O que se passou então foi algo
indizível, ficaram os dois tão comovidos com a novidade que nem repararam
quando peguei o último cuque de banana. Felicíssimos, começaram a me fazer
perguntas sobre quem era a escolhida. Otto queria saber “de que família” ela
era. Não pude reprimir um sorriso maroto quando respondi que era “da
tradicional família Silva”. Otto recuou, espantado. Ainda conseguiu balbuciar:
“Não é alemã”? Fui sincero como um teste de gravidez: era brasileira, tão
brasileira quanto um índio botocudo.
Enquanto ele se
recuperava, dona Johanna perguntou se por acaso eu não tinha uma foto da moça.
Por acaso eu tinha. Tirei-a da carteira e mostrei a ela, que não poupou elogios
à “futura senhora Fendrich”. Otto, no entanto, quando viu a foto, não pôde
reprimir uma expressão de desagrado. Suspeitei que isso pudesse ter a ver
também com a cor da senhora Fendrich – de fato, ela é morena, quase negra.
Normalmente sou bastante tranquilo com o Otto, mas aquela suspeita me indignou,
e então, como o apóstolo Paulo, eu lhe resisti na face: perguntei o que ele
achava de um homem branco namorar uma mulher negra. Otto ficou bastante
embaraçado e por um momento não soube o que responder. Como eu insistisse,
começou uma confusa explicação sobre os motivos para que esses relacionamentos
fossem evitados, chegando a invocar até mesmo “a maldição que Noé jogou em cima
desses povos”. Neste momento eu o interrompi e, com os olhos rútilos e os
lábios trêmulos, só consegui dizer: “Mentes! Mentes!”
Otto se assustou com
a minha reação, e dona Johanna veio se acercar de mim pedindo que eu tivesse
calma e não prestasse atenção ao marido. E se eu termino aqui agora, com esse
grau de dramaticidade, é apenas para garantir a audiência da coluna na semana
que vem. Tschüss!
3. O anti-Otto