terça-feira, 2 de julho de 2013

Otto vai à festa

Chegou setembro, e com ele um e-mail inesperado do Otto, o mais alemão dos são-bentenses. Eu não falava com ele desde o começo do ano, quando estive na sua casa em São Bento. Na ocasião ele me apresentou o seu filho Otto, que tem nome igual ao do pai, mas escrito de trás pra frente. O filho do Otto é o homem sem história. Todo manhã ele arranca da agenda a página do dia anterior. Para ele, sou tão interessante quanto um calendário do ano passado. Bem ao contrário de seu pai, que me considera tão alemão quanto Bismarck. Se pudesse, Otto me contrataria como seu historiador particular, apenas para falar alguma coisa bonita sobre o passado da sua Alemanha, logo de manhã durante o café.

Mas eu dizia que ele me mandou um e-mail. Perguntava se eu não viria para São Bento aproveitar a Schlachtfest deste ano. Respondi que não poderia e Otto quis saber por que causa, motivo, razão ou circunstância. Fui sincero como um raio-x: eu não tinha dinheiro para viajar. Otto fez então a pergunta que cai bem a todos os homens bem-sucedidos: “Mas você não tem um emprego fixo? Não recebe um salário? De vez em quando deve sobrar algum pra você viajar”. Disso se percebe que Otto se tornou tão alemão que sequer compreende a realidade brasileira.

E como ele insistisse, fui obrigado a dizer que não gostava dessas festas. Esse foi o meu mal. Por “essas festas”, Otto entendeu “as festas alemãs em geral”, achando que eu deveria preferir algum outro tipo de festa. Eis a verdade: não prefiro festa alguma, alemã, libanesa ou bielorrussa. Sou um homem sem festas. Mas vá explicar isso ao Otto. Espantado com a minha recusa, começou um discurso em defesa da festa “trazida pelos imigrantes quando vieram ao Brasil fugindo da guerra”.

Suspirei. Otto me acusava de ter passado para o lado seu filho, o homem sem passado, e para quem as festas só deveriam acontecer depois que o último buraco da última rua da cidade fosse fechado. Esperei ele se acalmar e no dia seguinte mandei algumas informações, apenas a título de curiosidade. A primeira é justamente que os imigrantes não vieram fugindo de nenhuma guerra. Imigraram pelo mesmo motivo que os nordestinos migram para São Paulo ou que eu migrei pra Brasília: desejo de novas oportunidades na vida.

 A segunda é que, naturalmente, a Schlachtfest não foi trazida pelos imigrantes. No máximo, o espírito da festa. Em São Bento, ela teve início apenas em 1966. Teve outras edições em 1967 e 1968, e depois apenas em 1985. Desde 1963, a Sociedade Duque de Caxias, de Curitiba, também realiza uma festa chamada Schlachtfest, e que inclusive já foi animada por bandas de São Bento. Uma outra com o mesmo nome também é realizada no Clube Concórdia, da mesma cidade. Em Teotônia, no Rio Grande do Sul, há ainda uma outra Schlachtfest. Talvez haja outras.

Em todas elas a iniciativa pela preservação de manifestações culturais é algo louvável, digna de nota mesmo. É verdade que nem sempre há uma vinculação direta com a história da cidade – coisa que a Böhmenfest talvez consiga melhor. Insisto que devemos ser mais boêmios (da Boêmia, não da boemia) do que alemães.

Mas essa parte eu achei melhor não comentar com o Otto.


Leia todas as histórias com Otto, o mais alemão dos são-bentenses: 

1. Otto e a cidadania europeia 










O anti-Otto

Quando estive em São Bento no final do ano, me encontrei com Otto, o Bismarck das Araucárias. Tive receio de ser mal recebido. Ano passado eu havia destruído o sonho dele de conseguir dupla cidadania. E mais: mostrei a ele que a sua família não poderia ter tido um brasão. Mas Otto, o alemão de quatro costados, me recebeu de maneira efusiva, e foi logo me oferecendo uma cerveja - que recusei. Fui sincero como um teste de DNA: eu não bebia. Mal terminei de falar isso e vi que o Otto estava paralisado. Sentia falta de ar, palpitações, e suava muito. Tudo que conseguiu dizer foi: “Mas um alemão! Tu, um alemão... não bebe!”. Tratei de acalmá-lo, e citei alguns problemas gástricos entre os motivos da minha abstinência.

Mas eis que, no meio dessa crise, aparece o filho do Otto. Não sei se já falei nele. É um rapaz das artes. Escreve poemas e faz teatro. Pois bem. E esse filho do Otto também se chama Otto. É uma tradição na família há cinco gerações. Todos os filhos se chamam Otto. E às vezes até as filhas. Só que esse filho do Otto não é um novo Otto: ele é, na verdade, um anti-Otto. É o próprio conflito de gerações. O seu filho é tão anti-Otto que até o seu nome é escrito de trás pra frente: Otto. Em suma: o filho do Otto renega toda a história familiar. Como um Galileu diante da Inquisição.

Diz ele que não há nada mais ultrapassado do que o passado. O filho do Otto detesta tanto o passado que todo dia arranca da agenda a página do dia anterior. Bem ao contrário do seu pai, que, em pleno século XXI, continua vivendo sob o domínio da Prússia. Pode-se imaginar a quantidade de conflitos nessa casa. E eu fiz parte de mais um deles quando o Otto pai me apresentou ao Otto filho. Disse ele que eu era um “historiador da imigração alemã”. Ao ouvir isso, Otto primeiro teve uma violenta crise de tosse, e em seguida deu uma catarrada no chão. Virou-se então para mim e, cheio de desprezo, afirmou: “Mais um que vive no passado. Era só o que me faltava”.

Indignado, Otto pai tentou me defender – e, no fundo, estava defendendo a si mesmo. Mas Otto filho iniciou então um comovente discurso, revolucionário como a Holanda de 74: “Enquanto vocês pensam em coisas que já passaram, crianças morrem de fome. A África sobre epidemias. Vão olhar os buracos na rua! O problema da saúde, o preço do transporte coletivo! O caos no trânsito”. E por aí foi arrolando uma série de tragédias que estavam acontecendo no mundo, e que nem eu nem seu pai percebíamos, tão concentrados estávamos em falar sobre o passado.

O discurso lembrou-me uma página de Os Maias. Imaginem que existe um livro chamado Os Maias - e que eu não li. Mas aconteceu nele o seguinte: um rapaz estava em uma festa, sozinho, olhando pela janela. Uma dama veio até ele e perguntou se não gostaria de dançar. E ele respondeu: “Como posso dançar, se a Polônia sofre?”. Aí está o filho do Otto falando mais ou menos a mesma coisa.

A discussão familiar continuou, e então achei melhor ir embora. No outro dia, mais calmo, o filho do Otto me mostrou as suas poesias – Otto guarda todas, incluindo algumas feitas na infância. E então pude concluir: o único passado que interessa é o que se tem como nosso.


Leia todas as histórias com Otto, o mais alemão dos são-bentenses: 

1. Otto e a cidadania europeia 










O brasão do Otto

Fiquei sabendo que a coluna da semana passada não foi lida pelo Otto – o Bismarck das Araucárias. Eu já esperava. Otto não costuma ler jornais brasileiros. Aliás, ele não costuma ler nada. Um dia soube que Goethe era um escritor alemão. Passou então a citá-lo como o seu autor favorito. Minto: de vez em quando, Otto lê a “Veja”. E não mais que isso. Portanto, foi uma grande coincidência ele ter me procurado mais uma vez.

Senti que Otto, o alemão de quatro costados, não havia ainda se recuperado do baque de não conseguir a cidadania europeia. E foi exatamente o que ele me disse. Tentei consolá-lo, falando que a cidadania europeia havia perdido um pouco da graça depois da Reforma Ortográfica. Ele sorriu amarelo, e logo me contou por que estava me procurando de novo: queria, ao menos, descobrir o brasão de sua família.

Suspirei. Perguntei por que queria o brasão. “Para mostrar o valor da minha família, dos imigrantes que vieram pra cá fugindo da guerra”. Tive então um pequeno espasmo. O velho mito dos imigrantes que fogem da guerra. Eu estava de mau-humor, e fui sincero como um boleto bancário: “Otto, teus antepassados eram uns pobretões”. Ele recuou, espantado. Mais calmo, disse a ele toda a verdade: não há, não existe, nunca haverá, brasão de família – pelo menos não da forma que pensamos.

Procurei então nos meus papéis a fotografia de um brasão dos Fendrich. Mostrei a ele. Em seguida, mostrei um brasão de outra família, os Friedrich. “Mas são idênticos!”, exclamou. De fato, eram os mesmos. Eis o que lhe expliquei: um brasão não pode servir para todos os Fendrich na face da terra – ou qualquer outro sobrenome. Os brasões são símbolos de nobreza que só podem ser ostentados pelos descendentes de quem o recebeu por primeiro. Se você é um Pscheidt, um Schreiner, um Grossl, e encontra um brasão com o nome da sua família, isso não quer dizer que ele serve para você.

Servirá apenas se você conseguir provar que é descendente do primeiro portador do brasão. Sem essa comprovação, o brasão, quando verdadeiro, é apenas uma figura decorativa que mostra a coincidência que há entre você a pessoa que foi agraciada com ele – ambas com o mesmo sobrenome. É como se eu resolvesse colocar na parede do meu quarto um disco de platina do Rainhard Fendrich, aquele popular cantor austríaco. Temos o mesmo sobrenome, afinal. “Você há de concordar, Otto, que eu não tenho mérito algum na conquista do Rainhard”, concluí. É claro que nos brasões de internet isso não é avisado.

Mas vamos imaginar que alguém está disposto a encontrar uma ligação genealógica que justifique o uso do brasão. No caso dos imigrantes de São Bento, é quase impossível. Nossos ancestrais eram honrados plebeus, acostumados com a pobreza, explorados pelos patrões. Não são o tipo de pessoas de quem se esperaria ancestrais nobres.

Vendo o desespero estampado na fisionomia de Otto, consolei: “Garanto que há na história da sua família coisas suficientes para deixar você orgulhoso. Talvez não tão visíveis quanto um brasão. Mas elas te oferecem o seu passado, um legado que não depende de autorização do rei”. Como sempre, Otto então me deixou após um palavrão em alemão.


Leia todas as histórias com Otto, o mais alemão dos são-bentenses: 

1. Otto e a cidadania europeia 










Otto e a cidadania europeia

Dia desses, encontrei Otto, o Bismarck das Araucárias – assim chamo esse ilustre são-bentense, “alemão de quatro costados”. Pois o Otto chegou para mim e disse: “Fendrich, fiquei sabendo que você mexe com essas coisas de antepassados. Eu quero descobrir quem foram os meus”. Minha primeira reação foi de espanto. Afinal, achei que Otto já devia saber quem foram eles – pois vive dizendo que tem orgulho das suas origens. Pois bem. Quis saber o que havia motivado esse interesse pela vida dos seus ancestrais. E o Otto, sincero como uma balança, disse tudo: “Estou atrás da cidadania europeia”.

Bolas, eu devia imaginar. Volta e meia me procuram por conta disso. Não seria diferente com o Otto, o mais alemão dos são-bentenses – Otto é tão alemão que não é o simples fato de ter nascido no Brasil que irá torná-lo brasileiro. Percebi que a coisa seria longa e pedi que sentasse. Comecei: “Veja bem, Otto. A Boêmia...”. E ele me interrompeu: “Ah, ia bem uma agora. Aceito”. Tive que explicar então que falava daquele antiga região da Europa. Os ancestrais de Otto, como de grande parte dos são-bentenses, vieram de lá.

Perguntou-me então em que parte da Alemanha ficava a Boêmia. Tive que dizer que não ficava na Alemanha. Otto ficou perplexo. Falei que na época era Áustria, e ele perguntou se então éramos austríacos. Respondi que não exatamente, já que hoje a Boêmia fica na República Tcheca. Quase sem ar, Otto perguntou onde é que entrava a sua querida Alemanha nessa história. Esclareci que eram povos germânicos, mas nem sempre habitaram a Alemanha. “Meu Deus! Isso não causa problema para a cidadania europeia?”.

Tive que contar: causa, causa problema, sim. A confusão geográfica é tamanha que hoje é impossível qualquer descendente de boêmios reivindicar uma cidadania europeia. Para começo de conversa, nem sabemos a qual cidadania teríamos direito.  Vamos supor que tentamos a cidadania alemã. Pois bem. A Embaixada da Alemanha diz que um alemão que imigrou antes de 1904 perde automaticamente a sua nacionalidade após permanecer dez anos no exterior sem realizar matrícula no consulado. Também perde se, por vontade própria, adquirir uma nacionalidade estrangeira – como fizeram imigrantes de São Bento.

A isso se soma o fato da Boêmia jamais ter pertencido ao território alemão. Deveríamos tentar então a cidadania austríaca? A Embaixada da Áustria diz que para isso é preciso comprovar que o requerente, seus pais e seus avós possuem nacionalidade austríaca. Portanto, se seu avô não foi naturalizado austríaco, esqueça.

E o Consulado Geral da República Tcheca diz que todos os documentos para cidadania devem ser tchecos, escritos na língua tcheca e emitidos por órgãos tchecos. Os registros da Boêmia, no entanto, eram alemães, escritos na língua alemã, e emitido por órgãos austríacos. E mesmo assim, seu pai, avô e bisavô precisam ser naturalizados.

Contei isso rapidamente ao Otto. Disse a ele que não havia como conseguir o que me pedia. Otto suava frio. Percebi que estava desorientado. Aproveitei para falar então uma pequena maldade: “Vai ter que se contentar em ser brasileiro, Otto”. Ele então se levantou e saiu, resmungando em alemão.


Leia todas as histórias com Otto, o mais alemão dos são-bentenses: 

1. Otto e a cidadania europeia 










sábado, 15 de dezembro de 2012

Os 10 Melhores Livros de Crônicas que Li em 2012

Seguramente, sou a pessoa que mais lê livros de crônicas no Brasil. Embora seja um gênero até certo ponto popular, não imagino que outra pessoa saia garimpando sebos e bibliotecas atrás de cronistas obscuros ou já esquecidos. Também não acho que mais alguém dedique mais de 70% dos livros de literatura para a crônica. Então, quero acreditar que tenho ao menos algum conhecimento de causa. E, com base nele, escolhi os 10 melhores livros de crônica que li este ano, a exemplo do que fiz ano passado. Novamente, quem ganhou foi o Nelson Rodrigues. Como já li todos os livros do Rubem Braga, o nosso cronista mais ilustre só aparecerá eventualmente nestas minhas listas, quando me disponho a relê-lo. Eis o resultado:


10. Inverno em biquíni - Henrique Pongetti. Cronista famoso nos anos 60 e 70, Pongetti escreve textos cultos, nem sempre fáceis, marcados pela elegância no estilo e serenidade no tom, em abordagens pouco tradicionais que, vez ou outra, nos levam ao riso de canto de boca. 

9. Bom dia para nascer - Otto Lara Resende. Com um início difícil, a adaptação ao estilo de Otto ao longo da leitura garante diversão em bons textos sobre assuntos gerais, mas também específicos como etimologia, literatura, política e até mesmo animais. 

8. Melhores crônicas - Ferreira Gullar. Famoso pela poesia, Ferreira Gullar é um nome que merece ser mencionado também entre nossos bons cronistas. Esta coletânea mistura textos marcados pela singeleza, pela crítica social, pelo humor e por algumas experimentações. 

7. Quarta-feira - Eric Nepomuceno. É um livro em que os gêneros se misturam (crônica, conto e ensaio). Mas Eric também esteve sujeito á memória pessoal, e com ela escreveu casos singelos, alguns humorísticos, além de mini-reportagens típicas da crônica.

6. Diário da patetocracia - José Carlos Oliveira. É o testemunho incisivo mas bem-humorado de Carlinhos Oliveira diante da evolução dos acontecimentos políticos e sociais que fizeram de 1968 um dos anos mais marcantes da nossa história recente. 

5. As terras ásperas - Rachel de Queiroz. Na casa dos 80 anos, Rachel de Queiroz escreveu crônicas que em nenhum momento resvalam em saudosismo. São textos maduros e concisos em que se posiciona criticamente sobre questões importantes e contemporâneas. 

4. O caos nosso de cada dia - Carlos Eduardo Novaes. Herdeiro de Stanislaw Ponte Preta, Novaes destila um humor certeiro, mordaz, divertidíssimo, diante dos problemas sociais e urbanos que, quase 40 anos depois, continuam gerando o caos em nossos cidades. 

3. Um cartão de Paris - Rubem Braga. Crônicas da velhice de Braga, cheias das mesmas belezas e desencantos. Relatos episódicos, impressionistas, ou simples recordações, nascidas de livros, dicionários, revistas, e temperados com a ironia tão típica do gênero.  

2. A Semana - Machado de Assis. Mestre do gênero, só não é melhor saboreado pelo tempo, que deixou referências obscuras em seus textos. Comparações, associação de deias, o exagero claro e desnorteador revelam a ironia em seu mais perfeito estado. Um primor. 

1. A cabra vadia - Nelson Rodrigues. Aqui estão algumas das coisas mais divertidas e originais que já se escreveu em português. Entrevistas imaginárias, personagens caricatos e sacadas extraordinárias aplicadas nas suas principais argumentações dos anos 60. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Eu, Nelson Rodrigues e uma cabra vadia


Como se sabe, nada mais falso do que a entrevista verdadeira. O entrevistado só diz o que sente, o que pensa, o que sabe, nas entrevistas inventadas. Inventadas da primeira à última linha e, por isso mesmo, de uma imaculada veracidade.


Era meia-noite, hora convencional, mas altamente sugestiva. Boa hora para matar, para morrer, ou simplesmente para dizer as verdades atrozes. Estávamos num terreno baldio. Eu, Nelson Rodrigues e uma cabra vadia. Há coisas que só se confessa num terreno baldio, à luz de archotes, e na presença de apenas uma cabra vadia. Alhures, uma coruja pia. Nelson foi pontualíssimo. Chegou exatamente quando o sino da matriz dava as doze badaladas. Ele estava ali completando o seu centésimo aniversário. "Sou tão velho como o Antônio Houaiss. Ainda me impressionam os umbigos do biquíni", confessou. Expliquei então o motivo da entrevista: queria que, pela primeira vez, ele comentasse algo sobre o advento da internet e das redes sociais. "Você é estagiário do Jornal do Brasil? Bem, o brasileiro é um internauta nato. Mas vamos logo que às três da madrugada começa a doer minha úlcera. Eu a adulo com pires de leite. Lambe como uma gata", explicou. 

Quis começar então com uma pergunta mais genérica: que tal lhe parecia a internet? "Olha, a internet tem todos os defeitos da vida real, e mais um: é virtual". Lembrei a ele então da possibilidade de interação social que a internet oferece, mas ele logo me interrompeu: "Aí eu faço a mesma pergunta que Sartre fez quando veio ao Brasil: onde estão os negros?". Enquanto eu pensava se isso era ou não uma pergunta retórica, Nelson explicou melhor o seu raciocínio: "Após milênios de passividade abjeta, o idiota descobriu na internet a própria superioridade numérica. O imbecil, que falava baixinho, ergueu a voz. Ele, que apenas fazia filhos, começou a pensar. Pela primeira vez, o idiota é artista plástico, é sociólogo, é cientista, é romancista, é prêmio Nobel, é dramaturgo, é professor, é sacerdote. E sem sair da internet. Os idiotas perderam a modéstia. São os que mais berram", acusou. 


Perguntei se ao menos a internet não poderia contribuir com a consciência política do país, mas Nelson desdenhou dessa possibilidade: "Nenhum perigo ameaça os internautas. Quando falam de política na rede, eles têm rompantes ferozes. Mas a política está fora da internet, e eles não. Há uma sábia distância entre os heróis da internet e a política. Os nossos internautas não têm nenhuma vocação do risco. E possuem a vocação inversa da segurança". Sugeri que talvez houvesse uma certa imaturidade nos comentários na internet, e Nelson logo concordou: "Há por aí nas redes sociais uma promoção da imaturidade como se fosse um sabonete ou um refrigerante. Mas nem se pense que essa idealização da imaturidade começa na internet. Não. Começa em casa".

E o Facebook? Quis saber o que Nelson pensava especificamente sobre essa rede.  "No Facebook são publicadas coisas que não se contam nem ao médium depois de morto. Não há ser mais pungente e, repito, não há ser mais plangente do que aquele que recebe um "curtir". Não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima, e por isso um simples "curtir" já nos gratifica", acredita. 

Suas opiniões sobre o twitter não foram melhores. Nelson não simpatiza com a tentativa de limitar o número de caracteres - diz que isso nos transforma em idiotas do objetividade. "O twitter e o idiota da objetividade são gêmeos e um explica o outro. E o pior é que, pouco a pouco, toda a internet está se transformando em outra idiota da objetividade. Eu me pergunto se, um dia, não seremos nós 200 milhões de tuiteiros? Duzentos milhões de impotentes sem sentimento".

Nem mesmo a possibilidade de se relacionar com personalidades no twitter é vista com bons olhos por Nelson: "Há admirações nobilíssimas, e outras abjetas. No twitter eu só vejo admirações abjetas". O YouTube também não escapou das suas críticas: "Não há lembrança de outra época tão pornográfica como essa. Mas o problema não começa no YouTube. A internet foi chamada de obscena porque pôs no vídeo a nudez coletiva, geral, ululante. Eis o que me pergunto: queriam o quê? Que as câmeras vestissem os nus, calafetassem os umbigos, enfiassem espartilhos nos quadris? Por que ter pudor na internet se não se tem nos bailes funk?", questiona.  

Antes de terminar, quis saber se ele concordava que a internet iria substituir meios de comunicação tradicionais como o jornal impresso, mas Nelson foi enfático: "O jornal vive de mortes e ressurreições. Antes da internet, era a televisão. De vez em quando, vem alguém passar o atestado de óbito do jornal. Mas ele continua. O jornal está vivo, o jornal é um cadáver salubérrimo". Logo depois dessa pergunta tivemos que nos despedir - Nelson começava a sentir a sua úlcera vibrando como uma víbora. Ainda era a madrugada do seu aniversário. Senti um tom de nostalgia e uma certa mágoa quando observou: "Durante anos, os casais Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende não faltaram na minha mesa de aniversariante".


E então partiu, deixando-me a sós com a cabra vadia. Lá estava ela, comendo capim - ou, por outra: comendo a paisagem. No alto, uma lua de sangue e, por fundo, a gargalhada dos sátiros e duendes. 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Depois de barrar coral natalino, MPT investiga denúncias na fábrica do Papai Noel


Depois de ter considerado trabalho infantil a participação de crianças no tradicional coral de Natal do Palácio Avenida, em Curitiba, o Ministério Público do Trabalho investiga denúncias de irregularidades na fábrica de brinquedos do Papai Noel, no Pólo Norte. Segundo o órgão, a participação de figuras mitológicas como os duendes e de animais de grande porte como as renas na fabricação e distribuição de brinquedos representa uma relação de trabalho não permitida pela legislação.

Para o MPT, o fato do Natal acontecer com frequência, repetidas vezes e durante vários anos seguidos, e de não ter como objetivo o benefício dos duendes e renas, e sim de terceiros, que recebem os presentes, é considerado sim uma relação de trabalho. Apesar disso, ainda não houve um consenso sobre qual legislação deve ser aplicada no caso dos duendes. "Chegamos a pensar no Código Florestal. A legislação trabalhista é omissa no que se refere à participação de seres da florestas em atividades de mercado. Mas parece claro que estamos diante de um avanço indevido da exploração econômica sobre comunidades tradicionais", constatou o órgão.

Em relação às renas, o órgão argumenta que os animais são forçados a fazer viagens extremamente desgastantes, dando a volta no mundo inteiro em menos de 24 horas e ainda precisando se equilibrar em cima de telhados. "Temos uma lei de proteção aos animais que impede atividades dolorosas em animais vivos, ainda mais quando houver recursos alternativos. Por que o Papai Noel não usa um jatinho, por exemplo?", questionou um representante do MPT. 

Foram feitas reuniões com representantes da fábrica do Papai Noel para resolver a questão, mas ainda não houve um acordo sobre como vai ser o Natal deste ano, e se de fato ele vai acontecer. De acordo com um dos procuradores do órgão, o Natal só acontecerá se a fábrica cumprir algumas recomendações: "Queremos que a fabricação dos brinquedos seja feita por adolescentes em regime de estágio, e não por duendes. Seria preciso reduzir o número de Natais também. Um a cada três anos seria ideal. E em hipótese alguma deve haver trabalho noturno. Os presentes devem ser entregues na manhã do dia 25".

Procurado pela reportagem, Papai Noel discordou do órgão: "Nunca vi a participação dos duendes e das renas como uma relação de trabalho. A gente sabe que eles têm desejo de participar do Natal", afirmou. Ele lembrou ainda que é diretor do Instituto Santa Claus de Solidariedade, que mantém um programa de apoio e educação que beneficia durante todo o ano duendes socialmente vulneráveis. Papai Noel lembrou ainda que concordou em diminuir o ritmo de trabalho, mas não abre mão dos duendes e das renas. "Mudar para estagiários e um jatinho poderia descaracterizar o Natal da forma como ele foi concebido", concluiu.