terça-feira, 2 de julho de 2013

Otto vê o Brasil campeão

No último domingo estive na casa do Otto, o Bismarck das Araucárias. Vocês conhecem o sujeito: é o mais alemão dos são-bentenses. Só não digo mais que é alemão de quatro costados porque descobrimos que tem uma bisavó brasileira, moradora de Campo Alegre, e mais paranaense do que o fandango. Pois bem. Fui à casa do Otto porque ele me convidou para assistir a final da Copa das Confederações. Acho que nunca disse que o Otto gosta de futebol. Gosta de futebol. E, para o meu espanto, torce para o Brasil – a menos que enfrente a Alemanha. Mas o jogo era contra a Espanha, país que não lhe fede nem cheira. E o Otto chegou ao ponto de vestir a camisa de seleção. “O gigante acordou”, confessou, para o meu pasmo. A onda de protestos no Brasil revelou um insuspeito lado brasileiro no Otto. Talvez tenha sido a oportunidade que faltava para virarmos mais um estado germânico. 

Acomodamo-nos no sofá e, depois da minha tradicional recusa à bebida, começamos a assistir. Assim como eu, Otto se entusiasmou com a partida arrasadora feita pelo Brasil. Falou que o Paulinho era o novo Beckenbauer. E que o Neymar lembrava bastante aquele moço com família em Blumenau, o Friedenreich. Só se traiu mesmo quando disse que estava virando moda bater em espanhol, certamente aludindo às vitórias do Bayern e do Borussia. 

A partida já estava perto do fim quando entrou na sala o Otto, o filho do Otto.  Vocês também conhecem a peça: é o homem sem passado, que arranca a folha da agenda a cada dia que passa. Pois o Otto estava vindo de um protesto. Encontrou-nos ali sentados, torcendo pela Seleção, olhou com desprezo e sentenciou: “Como podem ficar na frente da TV enquanto o Brasil está mudando? O futebol é o ópio do povo”. Ele parafraseou Marx, que é o ópio do Otto. Pois bem. Pai e filho começaram a discutir. Otto, o filho, disse que era uma vergonha não estarmos protestando, e que não tínhamos nada o que comemorar, pois ainda há corrupção no Brasil, ainda faltam investimentos na Saúde e na Educação, o Feliciano ainda está na Comissão de Direitos Humanos, e há muitas outras PECs pra derrubar.

Eu já me sentia um traidor da pátria quando entrou a namorada do Otto – essa vocês não conhecem. Chama-se Anita, a nossa heroína. Mais revolucionária que a Holanda de 74.  Por educação, ela não se meteu na discussão de pai e filho. Foi puxar assunto comigo. E o jogo ainda rolando. Foi quando ela insinuou: “Vitória estranha essa, hein? Aí tem coisa”. Respondi que realmente era estranho, pois até o Hulk havia jogado bem, mas então ela disse o que pensava: a partida havia sido comprada. Disse que eu era muito ingênuo de acreditar que a Espanha iria perder tão fácil assim. E que provavelmente foi a dona Dilma que fez o negócio, pro povo se esquecer dos protestos. 

Entendi tudo então: assim como há os caçadores de mitos e de fantasmas, também há os caçadores de teorias da conspiração. Anita era um deles.  Há gente que não masca um chiclete sem questionar as reais motivações da indústria chicleteira. Não faltou muito para eu me convencer que a minha própria visita ao Otto era obra de forças ocultas. Na dúvida, fui embora. Sem comemorar, porque pega mal.

Leia todas as histórias com Otto, o mais alemão dos são-bentenses: 

1. Otto e a cidadania europeia 










Otto continua em Campo Alegre

Ou eu muito me engano ou na semana passada deixamos Otto, o alemão de quatro costados, embasbacado diante da descoberta de que uma de suas bisavós era brasileira, mais paranaense do que o barreado. Sorumbático, Otto caminhou até a janela, voltou e parou diante de um quadro na sala de estar que retrata a Guerra das Sete Semanas. Esta foi uma guerra em que o Reino da Prússia derrotou o Império da Áustria, e Otto não sabe, nem eu tive coragem de lhe dizer, que os seus ancestrais estavam do lado austríaco. Estava nesse estado lamentável de contemplação quando entrou o filho do Otto.

Bolas, já falei aqui: o filho do Otto nasceu sem passado. Recusou abertamente toda e qualquer informação genética que seu pai tentou lhe transmitir através da reprodução. Pois o filho do Otto entrou e quis saber o que houve. Contei que agora ele tinha uma antepassada brasileira e o seu rosto se iluminou: “Brasileira? No duro?”. Brasileiríssima. E foi como se eu contasse que ele seria pai.  De repente, não havia mais sete bisavós de origem germânica, mas uma única bisavó de origem brasileira. E, por conta dessa única e escassa bisavó, o filho do Otto parecia disposto a se reconciliar com toda a História Mundial.

Começou então a fazer algumas perguntas: “Ela era escrava? Ao menos negra? Ou era índia? Judia, talvez? Homossexual?”. Ao ouvir isso, entendi tudo: a História, para o filho do Otto, só tem sentido se for para vingar as minorias. Ou seja: ele seria um dos nossos alunos mais brilhantes nas Faculdades de História. Mas eu me aborreci com essas perguntas e fui sincero como um pardal: “Provavelmente a bisavó do teu pai era alva como a neve. Submissa como uma mulher do Antigo Testamento. Católica como Santo Agostinho. O pai dela era um fazendeiro, cheio da grana, usava serviço escravo”. E o filho do Otto então saiu resmungando.

Esses fazendeiros realmente estiveram entre os primeiros moradores de Campo Alegre, onde exerceram seu domínio na vida social e política. No final dos anos 70, criou-se o brasão de Campo Alegre, e nele há uma estrela de cinco pontas: uma para cada pioneiro da cidade – apenas homens influentes.

Não é preciso muito esforço para saber que os pioneiros não foram cinco, e que, portanto, houve uma escolha. José Affonso Ayres Cubas, um escolhido, tinha escravos em sua fazenda, e eles devem ter chegado ao mesmo tempo – logo, são tão pioneiros quanto o seu dono.

O brasão homenageia também um Munhoz, o Raimundo, que na melhor das hipóteses era uma criança quando veio a Campo Alegre. O prefeito Bento Martiniano de Amorim foi outro escolhido, embora não apareça em nenhum registro antigo da cidade – logo, não há pioneirismo. Francisco Teixeira de Freitas, esse sim, esteve desde cedo em Campo Alegre, mas acompanhado de uma multidão, que não teve a sua atuação política e influência. O mesmo vale para o prefeito Francisco Bueno Franco. Veio acompanhado de gente que não conseguiu a sua fama. Gente anônima, que não vai entrar para a história de Campo Alegre, assim como não entram para a história de São Bento.

E eu não contei nada disso ao Otto, apenas divaguei enquanto ele caminhava tristemente para lá e  para cá.


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1. Otto e a cidadania europeia 










Otto vai a Campo Alegre

Em dezembro, fiz a minha visita anual ao Otto, o mais alemão dos são-bentenses. Recebeu-me como receberia o próprio Bismarck. A efusão foi tamanha que tive o cuidado de alertá-lo que parecia italiano. Otto riu e perguntou se eu queria beber alguma coisa. Perguntei se tinha iogurte. Otto riu mais ainda. Ofereceu-me uma cerveja, que recusei. Foi visível então a mudança no seu humor. Até hoje Otto não aceita minha abstinência. Ficou melancólico, e então me confessou uma espantosa descoberta que estava tirando seu sono.

Já contei aqui que Otto é alemão de quatro costados. Mas pesquisando a sua árvore genealógica, Otto descobriu uma bisavó de família brasileira. Vinha de Campo Alegre, a distinta. Era o único caso de brasileiros em toda a sua árvore, e essa descoberta o aterrorizou. E num esforço que só a indignação é capaz de produzir, Otto decidiu investigar melhor essa história. Consultou sites, ouviu pessoas, e descobriu o seguinte: Campo Alegre, na verdade, havia sido colonizada por imigrantes espanhóis, alemães, poloneses e lituanos. E mais: originalmente, a cidade se chamava Froeliches Feld, que nada mais é do que a versão da língua de Goethe para Campo Alegre.

Otto exultou diante dessa última descoberta, e eis o que concluiu: sua bisavó, apesar do sobrenome brasileiro, era provavelmente uma imigrante espanhola que por acaso vivia no meio de uma colônia alemã - tão alemã como todos os seus outros costados. Embora reconfortado com essa conclusão, Otto ainda estava inseguro e queria ouvir a minha opinião como pesquisador da história local. Suspirei.

Fui sincero como a fórmula de Bhaskara: a colonização de Campo Alegre não foi feita por imigrantes. Sejam eles espanhóis, alemães, lituanos, afegãos ou escandinavos. Os primeiros moradores da cidade eram tão brasileiros quanto a Amazônia, e mais: eram tão paranaenses quanto a Araucária. Diante da força dessas palavras, Otto protestou: “Mas então todos os sites estão errados?”. É mais ou menos por aí. Um dia alguém quis tornar mais elegante a história da cidade e então criou-se uma versão que atribui uma origem europeia. Não satisfeitos, deram a ela um nome alemão. Alguém publicou isso na Internet e todos começaram a repetir – especialmente os sites de turismo. Bem se vê que não é apenas a história de São Bento que é refém de vãs repetições.

Tentei consolar Otto: lá atrás (bem lá atrás), havia sim uma origem europeia. Veja o caso da família Cubas, por exemplo. Provavelmente está na lista que alguém chamaria de imigrantes espanhóis. Pois bem. Os Cubas eram paranaenses de São José dos Pinhais, que anteriormente eram paranaenses de Curitiba, que anteriormente eram paulistas, e que anteriormente eram portugueses. É verdade que se passaram três séculos entre a saída de Portugal e a chegada em Campo Alegre, mas aí está a origem europeia tão desejada. Os Munhoz, de imigração mais recente, tem origem realmente na Espanha, mas quando chegaram a Campo Alegre já estavam há algumas gerações no Paraná – e quem nasce no Paraná, pelas nossas leis, ainda é brasileiro.

É melhor pararmos por aqui, enquanto o Otto absorve estas tristes informações. Semana que vem a gente continua.


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1. Otto e a cidadania europeia 










Otto vai à festa

Chegou setembro, e com ele um e-mail inesperado do Otto, o mais alemão dos são-bentenses. Eu não falava com ele desde o começo do ano, quando estive na sua casa em São Bento. Na ocasião ele me apresentou o seu filho Otto, que tem nome igual ao do pai, mas escrito de trás pra frente. O filho do Otto é o homem sem história. Todo manhã ele arranca da agenda a página do dia anterior. Para ele, sou tão interessante quanto um calendário do ano passado. Bem ao contrário de seu pai, que me considera tão alemão quanto Bismarck. Se pudesse, Otto me contrataria como seu historiador particular, apenas para falar alguma coisa bonita sobre o passado da sua Alemanha, logo de manhã durante o café.

Mas eu dizia que ele me mandou um e-mail. Perguntava se eu não viria para São Bento aproveitar a Schlachtfest deste ano. Respondi que não poderia e Otto quis saber por que causa, motivo, razão ou circunstância. Fui sincero como um raio-x: eu não tinha dinheiro para viajar. Otto fez então a pergunta que cai bem a todos os homens bem-sucedidos: “Mas você não tem um emprego fixo? Não recebe um salário? De vez em quando deve sobrar algum pra você viajar”. Disso se percebe que Otto se tornou tão alemão que sequer compreende a realidade brasileira.

E como ele insistisse, fui obrigado a dizer que não gostava dessas festas. Esse foi o meu mal. Por “essas festas”, Otto entendeu “as festas alemãs em geral”, achando que eu deveria preferir algum outro tipo de festa. Eis a verdade: não prefiro festa alguma, alemã, libanesa ou bielorrussa. Sou um homem sem festas. Mas vá explicar isso ao Otto. Espantado com a minha recusa, começou um discurso em defesa da festa “trazida pelos imigrantes quando vieram ao Brasil fugindo da guerra”.

Suspirei. Otto me acusava de ter passado para o lado seu filho, o homem sem passado, e para quem as festas só deveriam acontecer depois que o último buraco da última rua da cidade fosse fechado. Esperei ele se acalmar e no dia seguinte mandei algumas informações, apenas a título de curiosidade. A primeira é justamente que os imigrantes não vieram fugindo de nenhuma guerra. Imigraram pelo mesmo motivo que os nordestinos migram para São Paulo ou que eu migrei pra Brasília: desejo de novas oportunidades na vida.

 A segunda é que, naturalmente, a Schlachtfest não foi trazida pelos imigrantes. No máximo, o espírito da festa. Em São Bento, ela teve início apenas em 1966. Teve outras edições em 1967 e 1968, e depois apenas em 1985. Desde 1963, a Sociedade Duque de Caxias, de Curitiba, também realiza uma festa chamada Schlachtfest, e que inclusive já foi animada por bandas de São Bento. Uma outra com o mesmo nome também é realizada no Clube Concórdia, da mesma cidade. Em Teotônia, no Rio Grande do Sul, há ainda uma outra Schlachtfest. Talvez haja outras.

Em todas elas a iniciativa pela preservação de manifestações culturais é algo louvável, digna de nota mesmo. É verdade que nem sempre há uma vinculação direta com a história da cidade – coisa que a Böhmenfest talvez consiga melhor. Insisto que devemos ser mais boêmios (da Boêmia, não da boemia) do que alemães.

Mas essa parte eu achei melhor não comentar com o Otto.


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1. Otto e a cidadania europeia 










O anti-Otto

Quando estive em São Bento no final do ano, me encontrei com Otto, o Bismarck das Araucárias. Tive receio de ser mal recebido. Ano passado eu havia destruído o sonho dele de conseguir dupla cidadania. E mais: mostrei a ele que a sua família não poderia ter tido um brasão. Mas Otto, o alemão de quatro costados, me recebeu de maneira efusiva, e foi logo me oferecendo uma cerveja - que recusei. Fui sincero como um teste de DNA: eu não bebia. Mal terminei de falar isso e vi que o Otto estava paralisado. Sentia falta de ar, palpitações, e suava muito. Tudo que conseguiu dizer foi: “Mas um alemão! Tu, um alemão... não bebe!”. Tratei de acalmá-lo, e citei alguns problemas gástricos entre os motivos da minha abstinência.

Mas eis que, no meio dessa crise, aparece o filho do Otto. Não sei se já falei nele. É um rapaz das artes. Escreve poemas e faz teatro. Pois bem. E esse filho do Otto também se chama Otto. É uma tradição na família há cinco gerações. Todos os filhos se chamam Otto. E às vezes até as filhas. Só que esse filho do Otto não é um novo Otto: ele é, na verdade, um anti-Otto. É o próprio conflito de gerações. O seu filho é tão anti-Otto que até o seu nome é escrito de trás pra frente: Otto. Em suma: o filho do Otto renega toda a história familiar. Como um Galileu diante da Inquisição.

Diz ele que não há nada mais ultrapassado do que o passado. O filho do Otto detesta tanto o passado que todo dia arranca da agenda a página do dia anterior. Bem ao contrário do seu pai, que, em pleno século XXI, continua vivendo sob o domínio da Prússia. Pode-se imaginar a quantidade de conflitos nessa casa. E eu fiz parte de mais um deles quando o Otto pai me apresentou ao Otto filho. Disse ele que eu era um “historiador da imigração alemã”. Ao ouvir isso, Otto primeiro teve uma violenta crise de tosse, e em seguida deu uma catarrada no chão. Virou-se então para mim e, cheio de desprezo, afirmou: “Mais um que vive no passado. Era só o que me faltava”.

Indignado, Otto pai tentou me defender – e, no fundo, estava defendendo a si mesmo. Mas Otto filho iniciou então um comovente discurso, revolucionário como a Holanda de 74: “Enquanto vocês pensam em coisas que já passaram, crianças morrem de fome. A África sobre epidemias. Vão olhar os buracos na rua! O problema da saúde, o preço do transporte coletivo! O caos no trânsito”. E por aí foi arrolando uma série de tragédias que estavam acontecendo no mundo, e que nem eu nem seu pai percebíamos, tão concentrados estávamos em falar sobre o passado.

O discurso lembrou-me uma página de Os Maias. Imaginem que existe um livro chamado Os Maias - e que eu não li. Mas aconteceu nele o seguinte: um rapaz estava em uma festa, sozinho, olhando pela janela. Uma dama veio até ele e perguntou se não gostaria de dançar. E ele respondeu: “Como posso dançar, se a Polônia sofre?”. Aí está o filho do Otto falando mais ou menos a mesma coisa.

A discussão familiar continuou, e então achei melhor ir embora. No outro dia, mais calmo, o filho do Otto me mostrou as suas poesias – Otto guarda todas, incluindo algumas feitas na infância. E então pude concluir: o único passado que interessa é o que se tem como nosso.


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1. Otto e a cidadania europeia 










O brasão do Otto

Fiquei sabendo que a coluna da semana passada não foi lida pelo Otto – o Bismarck das Araucárias. Eu já esperava. Otto não costuma ler jornais brasileiros. Aliás, ele não costuma ler nada. Um dia soube que Goethe era um escritor alemão. Passou então a citá-lo como o seu autor favorito. Minto: de vez em quando, Otto lê a “Veja”. E não mais que isso. Portanto, foi uma grande coincidência ele ter me procurado mais uma vez.

Senti que Otto, o alemão de quatro costados, não havia ainda se recuperado do baque de não conseguir a cidadania europeia. E foi exatamente o que ele me disse. Tentei consolá-lo, falando que a cidadania europeia havia perdido um pouco da graça depois da Reforma Ortográfica. Ele sorriu amarelo, e logo me contou por que estava me procurando de novo: queria, ao menos, descobrir o brasão de sua família.

Suspirei. Perguntei por que queria o brasão. “Para mostrar o valor da minha família, dos imigrantes que vieram pra cá fugindo da guerra”. Tive então um pequeno espasmo. O velho mito dos imigrantes que fogem da guerra. Eu estava de mau-humor, e fui sincero como um boleto bancário: “Otto, teus antepassados eram uns pobretões”. Ele recuou, espantado. Mais calmo, disse a ele toda a verdade: não há, não existe, nunca haverá, brasão de família – pelo menos não da forma que pensamos.

Procurei então nos meus papéis a fotografia de um brasão dos Fendrich. Mostrei a ele. Em seguida, mostrei um brasão de outra família, os Friedrich. “Mas são idênticos!”, exclamou. De fato, eram os mesmos. Eis o que lhe expliquei: um brasão não pode servir para todos os Fendrich na face da terra – ou qualquer outro sobrenome. Os brasões são símbolos de nobreza que só podem ser ostentados pelos descendentes de quem o recebeu por primeiro. Se você é um Pscheidt, um Schreiner, um Grossl, e encontra um brasão com o nome da sua família, isso não quer dizer que ele serve para você.

Servirá apenas se você conseguir provar que é descendente do primeiro portador do brasão. Sem essa comprovação, o brasão, quando verdadeiro, é apenas uma figura decorativa que mostra a coincidência que há entre você a pessoa que foi agraciada com ele – ambas com o mesmo sobrenome. É como se eu resolvesse colocar na parede do meu quarto um disco de platina do Rainhard Fendrich, aquele popular cantor austríaco. Temos o mesmo sobrenome, afinal. “Você há de concordar, Otto, que eu não tenho mérito algum na conquista do Rainhard”, concluí. É claro que nos brasões de internet isso não é avisado.

Mas vamos imaginar que alguém está disposto a encontrar uma ligação genealógica que justifique o uso do brasão. No caso dos imigrantes de São Bento, é quase impossível. Nossos ancestrais eram honrados plebeus, acostumados com a pobreza, explorados pelos patrões. Não são o tipo de pessoas de quem se esperaria ancestrais nobres.

Vendo o desespero estampado na fisionomia de Otto, consolei: “Garanto que há na história da sua família coisas suficientes para deixar você orgulhoso. Talvez não tão visíveis quanto um brasão. Mas elas te oferecem o seu passado, um legado que não depende de autorização do rei”. Como sempre, Otto então me deixou após um palavrão em alemão.


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1. Otto e a cidadania europeia 










Otto e a cidadania europeia

Dia desses, encontrei Otto, o Bismarck das Araucárias – assim chamo esse ilustre são-bentense, “alemão de quatro costados”. Pois o Otto chegou para mim e disse: “Fendrich, fiquei sabendo que você mexe com essas coisas de antepassados. Eu quero descobrir quem foram os meus”. Minha primeira reação foi de espanto. Afinal, achei que Otto já devia saber quem foram eles – pois vive dizendo que tem orgulho das suas origens. Pois bem. Quis saber o que havia motivado esse interesse pela vida dos seus ancestrais. E o Otto, sincero como uma balança, disse tudo: “Estou atrás da cidadania europeia”.

Bolas, eu devia imaginar. Volta e meia me procuram por conta disso. Não seria diferente com o Otto, o mais alemão dos são-bentenses – Otto é tão alemão que não é o simples fato de ter nascido no Brasil que irá torná-lo brasileiro. Percebi que a coisa seria longa e pedi que sentasse. Comecei: “Veja bem, Otto. A Boêmia...”. E ele me interrompeu: “Ah, ia bem uma agora. Aceito”. Tive que explicar então que falava daquele antiga região da Europa. Os ancestrais de Otto, como de grande parte dos são-bentenses, vieram de lá.

Perguntou-me então em que parte da Alemanha ficava a Boêmia. Tive que dizer que não ficava na Alemanha. Otto ficou perplexo. Falei que na época era Áustria, e ele perguntou se então éramos austríacos. Respondi que não exatamente, já que hoje a Boêmia fica na República Tcheca. Quase sem ar, Otto perguntou onde é que entrava a sua querida Alemanha nessa história. Esclareci que eram povos germânicos, mas nem sempre habitaram a Alemanha. “Meu Deus! Isso não causa problema para a cidadania europeia?”.

Tive que contar: causa, causa problema, sim. A confusão geográfica é tamanha que hoje é impossível qualquer descendente de boêmios reivindicar uma cidadania europeia. Para começo de conversa, nem sabemos a qual cidadania teríamos direito.  Vamos supor que tentamos a cidadania alemã. Pois bem. A Embaixada da Alemanha diz que um alemão que imigrou antes de 1904 perde automaticamente a sua nacionalidade após permanecer dez anos no exterior sem realizar matrícula no consulado. Também perde se, por vontade própria, adquirir uma nacionalidade estrangeira – como fizeram imigrantes de São Bento.

A isso se soma o fato da Boêmia jamais ter pertencido ao território alemão. Deveríamos tentar então a cidadania austríaca? A Embaixada da Áustria diz que para isso é preciso comprovar que o requerente, seus pais e seus avós possuem nacionalidade austríaca. Portanto, se seu avô não foi naturalizado austríaco, esqueça.

E o Consulado Geral da República Tcheca diz que todos os documentos para cidadania devem ser tchecos, escritos na língua tcheca e emitidos por órgãos tchecos. Os registros da Boêmia, no entanto, eram alemães, escritos na língua alemã, e emitido por órgãos austríacos. E mesmo assim, seu pai, avô e bisavô precisam ser naturalizados.

Contei isso rapidamente ao Otto. Disse a ele que não havia como conseguir o que me pedia. Otto suava frio. Percebi que estava desorientado. Aproveitei para falar então uma pequena maldade: “Vai ter que se contentar em ser brasileiro, Otto”. Ele então se levantou e saiu, resmungando em alemão.


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1. Otto e a cidadania europeia