sexta-feira, 19 de julho de 2013

Morte e vida taubateana

 


O inesquecível Josef Studenick, pioneiro industrial no Vale do Paraíba, e assim qualificado no busto que recebeu em sua homenagem, está, quem diria, sendo esquecido. Studenick está bem cercadinho em frente ao Convento Santa Clara, em Taubaté, mas já tem o seu rosto coberto pelos galhos das árvores ao redor. Um dia estará tão esquecido quanto a Rua do Meio – rua em que meus ancestrais de Taubaté moraram, nos inesquecíveis anos 1700.

Na Rua do Meio, minha não-sei-quanto-avó Catharina Garcia de Unhatte tinha “dois lanços de casa de taipa de pilão cobertas de telha”. Custo a acreditar que tenha existido algo assim na Rua do Meio ou em qualquer outro lugar de Taubaté. É preciso um esforço sobre-humano para tentar visualizar a cidade da maneira que o francês Pallière registrou em um mapa de 1821. E, não fossem as bonitas maquetes que existem no Museu Histórico, jamais teríamos ideia de que as coisas um dia foram bem diferente do que são hoje.

Eram cinco as ruas, de modo que uma delas ficava ao meio. Mas a Rua do Meio virou depois Rua do Comércio e hoje se chama Duque de Caxias – embora devesse se chamar Rua das Noivas, tantas são as lojas destinadas a elas. Não sei em que parte dela morou Catharina, mas sei onde ela está morando agora. Seu corpo foi amortalhado no Convento Santa Clara, que já existia em Taubaté há um bom tempo. Tento entrar no Convento, mas as portas estão fechadas. Ao seu lado está o cemitério da Venerável Ordem Terceira, e eu, turista estranho, resolvo dar uma caminhada por ele.

Logo de cara, encontro Félix Gusard, outro homem importante na vida econômica de Taubaté. Não me detenho, e começo a ler algumas lápides, dando preferência para aquelas cuja arquitetura era mais destacada. E foi assim que encontrei a sepultura de Olga Guedes Tavares, percebendo de imediato que se tratava de uma espécie de Maria Bueno de Taubaté. Tenho a impressão de que toda cidade possui uma jovem morta na flor da idade e que desde então passou a ser venerada como santa. Assim foi com Olga Guedes Tavares, e no pequeno altar que se levantou em seu túmulo consigo ver cópias de orações, algumas feitas à mão, e que devem ter o mesmo texto há várias gerações, pois vejo referência até aos avós da menina.

Ao sair, retomo o caminho pela Rua do Meio e percebo que ela irá dar bem em frente à igreja de São Francisco das Chagas de Taubaté, a mais antiga da cidade. Quase chegando, descubro a Rua Bispo Rodovalho, que não é o fundador da Sara Nossa Terra, mas um antigo frade franciscano – o maior orador sacro da ordem franciscana no Brasil. Entro na igreja, observo as muitas imagens, os vários ventiladores, e por fim sento. Vários cidadãos de Taubaté entram e – acho curioso – começam uma peregrinação pelas imagens da igreja, parando, tocando e orando em todas elas. Simpatizo-me com um homem em especial e, na minha fé diversa, faço uma rápida oração para que não sofra tanto quanto demonstra.

Penso confusamente em escrever alguma coisa sobre a fé. Saio da igreja e sou absorvido pelo barulho do sábado de manhã, engolido pela multidão que caminha com pressa e sacolas – completamente alheia ao tempo em que será esquecida.   

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Grandes Sertões: São Paulo


“Só se vê prédio e casa. De natureza mesmo, só as nuvens. E aquelas montanhazinhas”. Assim observou a bonita moça sentada à minha frente enquanto nos preparávamos para pousar em São Paulo. Sem dúvida ela achou que seria uma condescendência muito grande incluir o Tietê, também visível ali de cima, entre as obras da natureza na capital paulista. Cheguei até mesmo a ouvir uma conversa questionando se era realmente água aquilo que víamos lá embaixo. A moça bonita reparou ainda na poluição do ar. Fez questão de mostrar a névoa escura para sua amiga. Esta, apenas respondeu: “Tenso, véi!”.

E assim fui chegando a São Paulo, pela segunda vez na vida – estou desconsiderando as conexões de vôos. Há oito anos eu cheguei a São Paulo de ônibus. Já escrevi sobre isso: andei de metrô, caminhei pela Paulista, cruzei a Ipiranga com a São João, vi o Canindé, o antigo Carandiru e preenchi o bilhete de passagem para um velhinho no Tietê – o Terminal, e não o Rio. E era justamente para o Terminal Rodoviário do Tietê que eu iria agora.

Lá eu pegaria um ônibus que me levaria a Taubaté, no Vale do Paraíba. Ainda impressionado por não haver uma ligação direta entre Congonhas e o Tietê, busco um ponto de ônibus na Avenida Washington Luís. Este ponto, imagino, é um dos primeiros contatos dos visitantes com a cidade. Procuro o ponto e não acho. Vejo pessoas paradas sem muita ordem. Não há um abrigo. Não há sequer uma placa indicando o local exato. Decido ficar por ali mesmo. A calçada é apertada. Encosto-me na parede de um comércio. Mal encosto e me pedem uma licencinha, porque estão pintando a parede. Eis a minha recepção na cidade.

Tenho anotado na cabeça o número de um ônibus que devo pegar até uma estação de metrô. O ônibus aparece. Reparo que está escrito realmente o nome de uma estação de metrô no itinerário. Embarco e relaxo. Fico na expectativa de chegar à estação. O tempo vai passando. Começo a achar muito demorado. Mas confio cegamente no itinerário e permaneço dentro. Chego em ruas estranhas. Súbito, o ônibus estaca: é o ponto final. Nem sinal do metrô. Tenho que descer. Estou perdido no meio do nada – até agora não sei onde estive. Nonada. Curiosamente, não fui o único a descobrir que pegou o ônibus errado só no ponto final. Indicam outro ponto para nós. Seguimos para lá. Pego outro ônibus, essa vez escrito bem grandão “Metrô Jabaquara”. Pergunto ao cobrador quanto tempo demora até lá. Ele responde: mais ou menos uma hora. Quase pergunto se isso é no fuso daqui ou no de lá.

Chego, finalmente. Vou comprar um bilhete para o metrô. A fila está enorme. Sou tomado por uma repentina saudade da roça. Começo a questionar a minha decisão de viajar. Murmuro palavras muito duras contra a cidade, e o que menos disse foi que era uma loucura. Compro o bilhete, entro no metrô e enfim chego ao Tietê. São quase quatro horas da tarde e eu ainda não almocei. Decido comer um prato completo, refeição de verdade. Vou a uma lanchonete, passo um tempo escolhendo, e então faço o meu pedido. O atendente explica: refeições, só a partir das cinco horas. Suspiro. E desejo ardentemente que o Vale do Paraíba ainda seja conhecido como os Sertões de Taubaté.  

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Retrato do cronista quando viaja


Vocês deviam ver um cronista se preparando pra viajar. Eu já disse que o turista é um bicho engraçado, mas o cronista é muito mais. Começa que ele compra um caderninho e enche de anotações preliminares, informações, curiosidades e frases sobre os lugares que irá visitar. Quer potencializar as experiências que irá ter e sobre as quais deseja escrever. E então ele começa a idealizar os textos que irá fazer. Até em alguns títulos ele já pensou! Não viu lugar nenhum ainda e já pensa nos títulos! Bicho engraçado, sô. Isso me lembra um personagem do John Fante (acho que é do John Fante. Se não for do John Fante, paciência. Perguntem ao pó). Pois o personagem está se afogando, quase morrendo, e no meio da luta para sobreviver pensa em como irá escrever sobre aquilo. Terríveis, os escritores.

A essa altura vocês já perceberam que o cronista que se prepara para viajar sou eu mesmo. De fato, estarei em férias por alguns dias. Tem uma citação ótima do Henfil sobre férias. Vocês conhecem o Henfil. Lembram da música da Elis? “Meu Brasil, que sonha com a volta do irmão do Henfil”. Era o Betinho, o irmão do Henfil. Pois o Henfil foi viajar para China. E enquanto fazia uma escala na Europa, o Henfil fez a seguinte divagação:

“Agora, suponhamos que um chinês viesse aqui e, pela observação de sua maneira de viver, procurasse interpretar o european way of life. Diria ele quando voltasse pra China: o europeu é escravo do trabalho. Não lhes respeitam vocação ou potencial. Trabalha onde o mercado manda. Recebe uma quantia em dinheiro para comprar uma porção de coisas supérfluas. A parte que economiza ele gasta quando entra... numa fila imensa de carros na tradicional festa ocidental chamada weekend. Todo ano ele participa também de outra festa chamada férias. Fica um mês sem trabalhar e isto lhe causa muita angústia e um vazio enorme. Aí ele procura um cinema ou um teatro onde artistas contratados vivem para ele coisas essenciais como amor, sexo etc”.

Poxa, estou justamente participando da festa ocidental chamada férias – eu diria vacation. Mas tenho os meus direitos, e afinal nem será um mês inteiro, e nem sei ainda se irei a algum cinema ou teatro. Estou pensando em fazer como o Henfil, que nessa ida à China sequer foi ver a Muralha. Turismo alternativo. É outra das graças do cronista.

Tem mais uma coisa também. Essa não acontece só com os cronistas. Véspera de viagem, pelo menos para quem não costuma viajar, dá sempre vontade de encontrar todo mundo, se despedir, ouvir boas recomendações. Um dia eu disse que me sentia um pracinha indo para a Guerra. É mais ou menos assim. Quero me despedir das pessoas, declaro meu amor por todos. E o pessoal me diz pra avisar, mandar mensagem, assim que chegar. Ah, isso faz bem!

Tive vontade de me despedir inclusive daquela moça, caixa de restaurante, por quem cultivo uma suave afeição, e em cujos dedos (eu reparei bem) não há um mísero anel. Mas ela não sabe que vou viajar, nem notará minha falta, e mal perceberá meu retorno. Tudo bem, tudo bem. Mas saiba que nem a sua indiferença foi suficiente para impedir que eu te arrumasse um espacinho nesta crônica que era pra ser só sobre viagem.  

terça-feira, 2 de julho de 2013

Otto vê o Brasil campeão

No último domingo estive na casa do Otto, o Bismarck das Araucárias. Vocês conhecem o sujeito: é o mais alemão dos são-bentenses. Só não digo mais que é alemão de quatro costados porque descobrimos que tem uma bisavó brasileira, moradora de Campo Alegre, e mais paranaense do que o fandango. Pois bem. Fui à casa do Otto porque ele me convidou para assistir a final da Copa das Confederações. Acho que nunca disse que o Otto gosta de futebol. Gosta de futebol. E, para o meu espanto, torce para o Brasil – a menos que enfrente a Alemanha. Mas o jogo era contra a Espanha, país que não lhe fede nem cheira. E o Otto chegou ao ponto de vestir a camisa de seleção. “O gigante acordou”, confessou, para o meu pasmo. A onda de protestos no Brasil revelou um insuspeito lado brasileiro no Otto. Talvez tenha sido a oportunidade que faltava para virarmos mais um estado germânico. 

Acomodamo-nos no sofá e, depois da minha tradicional recusa à bebida, começamos a assistir. Assim como eu, Otto se entusiasmou com a partida arrasadora feita pelo Brasil. Falou que o Paulinho era o novo Beckenbauer. E que o Neymar lembrava bastante aquele moço com família em Blumenau, o Friedenreich. Só se traiu mesmo quando disse que estava virando moda bater em espanhol, certamente aludindo às vitórias do Bayern e do Borussia. 

A partida já estava perto do fim quando entrou na sala o Otto, o filho do Otto.  Vocês também conhecem a peça: é o homem sem passado, que arranca a folha da agenda a cada dia que passa. Pois o Otto estava vindo de um protesto. Encontrou-nos ali sentados, torcendo pela Seleção, olhou com desprezo e sentenciou: “Como podem ficar na frente da TV enquanto o Brasil está mudando? O futebol é o ópio do povo”. Ele parafraseou Marx, que é o ópio do Otto. Pois bem. Pai e filho começaram a discutir. Otto, o filho, disse que era uma vergonha não estarmos protestando, e que não tínhamos nada o que comemorar, pois ainda há corrupção no Brasil, ainda faltam investimentos na Saúde e na Educação, o Feliciano ainda está na Comissão de Direitos Humanos, e há muitas outras PECs pra derrubar.

Eu já me sentia um traidor da pátria quando entrou a namorada do Otto – essa vocês não conhecem. Chama-se Anita, a nossa heroína. Mais revolucionária que a Holanda de 74.  Por educação, ela não se meteu na discussão de pai e filho. Foi puxar assunto comigo. E o jogo ainda rolando. Foi quando ela insinuou: “Vitória estranha essa, hein? Aí tem coisa”. Respondi que realmente era estranho, pois até o Hulk havia jogado bem, mas então ela disse o que pensava: a partida havia sido comprada. Disse que eu era muito ingênuo de acreditar que a Espanha iria perder tão fácil assim. E que provavelmente foi a dona Dilma que fez o negócio, pro povo se esquecer dos protestos. 

Entendi tudo então: assim como há os caçadores de mitos e de fantasmas, também há os caçadores de teorias da conspiração. Anita era um deles.  Há gente que não masca um chiclete sem questionar as reais motivações da indústria chicleteira. Não faltou muito para eu me convencer que a minha própria visita ao Otto era obra de forças ocultas. Na dúvida, fui embora. Sem comemorar, porque pega mal.

Leia todas as histórias com Otto, o mais alemão dos são-bentenses: 

1. Otto e a cidadania europeia 










Otto continua em Campo Alegre

Ou eu muito me engano ou na semana passada deixamos Otto, o alemão de quatro costados, embasbacado diante da descoberta de que uma de suas bisavós era brasileira, mais paranaense do que o barreado. Sorumbático, Otto caminhou até a janela, voltou e parou diante de um quadro na sala de estar que retrata a Guerra das Sete Semanas. Esta foi uma guerra em que o Reino da Prússia derrotou o Império da Áustria, e Otto não sabe, nem eu tive coragem de lhe dizer, que os seus ancestrais estavam do lado austríaco. Estava nesse estado lamentável de contemplação quando entrou o filho do Otto.

Bolas, já falei aqui: o filho do Otto nasceu sem passado. Recusou abertamente toda e qualquer informação genética que seu pai tentou lhe transmitir através da reprodução. Pois o filho do Otto entrou e quis saber o que houve. Contei que agora ele tinha uma antepassada brasileira e o seu rosto se iluminou: “Brasileira? No duro?”. Brasileiríssima. E foi como se eu contasse que ele seria pai.  De repente, não havia mais sete bisavós de origem germânica, mas uma única bisavó de origem brasileira. E, por conta dessa única e escassa bisavó, o filho do Otto parecia disposto a se reconciliar com toda a História Mundial.

Começou então a fazer algumas perguntas: “Ela era escrava? Ao menos negra? Ou era índia? Judia, talvez? Homossexual?”. Ao ouvir isso, entendi tudo: a História, para o filho do Otto, só tem sentido se for para vingar as minorias. Ou seja: ele seria um dos nossos alunos mais brilhantes nas Faculdades de História. Mas eu me aborreci com essas perguntas e fui sincero como um pardal: “Provavelmente a bisavó do teu pai era alva como a neve. Submissa como uma mulher do Antigo Testamento. Católica como Santo Agostinho. O pai dela era um fazendeiro, cheio da grana, usava serviço escravo”. E o filho do Otto então saiu resmungando.

Esses fazendeiros realmente estiveram entre os primeiros moradores de Campo Alegre, onde exerceram seu domínio na vida social e política. No final dos anos 70, criou-se o brasão de Campo Alegre, e nele há uma estrela de cinco pontas: uma para cada pioneiro da cidade – apenas homens influentes.

Não é preciso muito esforço para saber que os pioneiros não foram cinco, e que, portanto, houve uma escolha. José Affonso Ayres Cubas, um escolhido, tinha escravos em sua fazenda, e eles devem ter chegado ao mesmo tempo – logo, são tão pioneiros quanto o seu dono.

O brasão homenageia também um Munhoz, o Raimundo, que na melhor das hipóteses era uma criança quando veio a Campo Alegre. O prefeito Bento Martiniano de Amorim foi outro escolhido, embora não apareça em nenhum registro antigo da cidade – logo, não há pioneirismo. Francisco Teixeira de Freitas, esse sim, esteve desde cedo em Campo Alegre, mas acompanhado de uma multidão, que não teve a sua atuação política e influência. O mesmo vale para o prefeito Francisco Bueno Franco. Veio acompanhado de gente que não conseguiu a sua fama. Gente anônima, que não vai entrar para a história de Campo Alegre, assim como não entram para a história de São Bento.

E eu não contei nada disso ao Otto, apenas divaguei enquanto ele caminhava tristemente para lá e  para cá.


Leia todas as histórias com Otto, o mais alemão dos são-bentenses: 

1. Otto e a cidadania europeia 










Otto vai a Campo Alegre

Em dezembro, fiz a minha visita anual ao Otto, o mais alemão dos são-bentenses. Recebeu-me como receberia o próprio Bismarck. A efusão foi tamanha que tive o cuidado de alertá-lo que parecia italiano. Otto riu e perguntou se eu queria beber alguma coisa. Perguntei se tinha iogurte. Otto riu mais ainda. Ofereceu-me uma cerveja, que recusei. Foi visível então a mudança no seu humor. Até hoje Otto não aceita minha abstinência. Ficou melancólico, e então me confessou uma espantosa descoberta que estava tirando seu sono.

Já contei aqui que Otto é alemão de quatro costados. Mas pesquisando a sua árvore genealógica, Otto descobriu uma bisavó de família brasileira. Vinha de Campo Alegre, a distinta. Era o único caso de brasileiros em toda a sua árvore, e essa descoberta o aterrorizou. E num esforço que só a indignação é capaz de produzir, Otto decidiu investigar melhor essa história. Consultou sites, ouviu pessoas, e descobriu o seguinte: Campo Alegre, na verdade, havia sido colonizada por imigrantes espanhóis, alemães, poloneses e lituanos. E mais: originalmente, a cidade se chamava Froeliches Feld, que nada mais é do que a versão da língua de Goethe para Campo Alegre.

Otto exultou diante dessa última descoberta, e eis o que concluiu: sua bisavó, apesar do sobrenome brasileiro, era provavelmente uma imigrante espanhola que por acaso vivia no meio de uma colônia alemã - tão alemã como todos os seus outros costados. Embora reconfortado com essa conclusão, Otto ainda estava inseguro e queria ouvir a minha opinião como pesquisador da história local. Suspirei.

Fui sincero como a fórmula de Bhaskara: a colonização de Campo Alegre não foi feita por imigrantes. Sejam eles espanhóis, alemães, lituanos, afegãos ou escandinavos. Os primeiros moradores da cidade eram tão brasileiros quanto a Amazônia, e mais: eram tão paranaenses quanto a Araucária. Diante da força dessas palavras, Otto protestou: “Mas então todos os sites estão errados?”. É mais ou menos por aí. Um dia alguém quis tornar mais elegante a história da cidade e então criou-se uma versão que atribui uma origem europeia. Não satisfeitos, deram a ela um nome alemão. Alguém publicou isso na Internet e todos começaram a repetir – especialmente os sites de turismo. Bem se vê que não é apenas a história de São Bento que é refém de vãs repetições.

Tentei consolar Otto: lá atrás (bem lá atrás), havia sim uma origem europeia. Veja o caso da família Cubas, por exemplo. Provavelmente está na lista que alguém chamaria de imigrantes espanhóis. Pois bem. Os Cubas eram paranaenses de São José dos Pinhais, que anteriormente eram paranaenses de Curitiba, que anteriormente eram paulistas, e que anteriormente eram portugueses. É verdade que se passaram três séculos entre a saída de Portugal e a chegada em Campo Alegre, mas aí está a origem europeia tão desejada. Os Munhoz, de imigração mais recente, tem origem realmente na Espanha, mas quando chegaram a Campo Alegre já estavam há algumas gerações no Paraná – e quem nasce no Paraná, pelas nossas leis, ainda é brasileiro.

É melhor pararmos por aqui, enquanto o Otto absorve estas tristes informações. Semana que vem a gente continua.


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1. Otto e a cidadania europeia 










Otto vai à festa

Chegou setembro, e com ele um e-mail inesperado do Otto, o mais alemão dos são-bentenses. Eu não falava com ele desde o começo do ano, quando estive na sua casa em São Bento. Na ocasião ele me apresentou o seu filho Otto, que tem nome igual ao do pai, mas escrito de trás pra frente. O filho do Otto é o homem sem história. Todo manhã ele arranca da agenda a página do dia anterior. Para ele, sou tão interessante quanto um calendário do ano passado. Bem ao contrário de seu pai, que me considera tão alemão quanto Bismarck. Se pudesse, Otto me contrataria como seu historiador particular, apenas para falar alguma coisa bonita sobre o passado da sua Alemanha, logo de manhã durante o café.

Mas eu dizia que ele me mandou um e-mail. Perguntava se eu não viria para São Bento aproveitar a Schlachtfest deste ano. Respondi que não poderia e Otto quis saber por que causa, motivo, razão ou circunstância. Fui sincero como um raio-x: eu não tinha dinheiro para viajar. Otto fez então a pergunta que cai bem a todos os homens bem-sucedidos: “Mas você não tem um emprego fixo? Não recebe um salário? De vez em quando deve sobrar algum pra você viajar”. Disso se percebe que Otto se tornou tão alemão que sequer compreende a realidade brasileira.

E como ele insistisse, fui obrigado a dizer que não gostava dessas festas. Esse foi o meu mal. Por “essas festas”, Otto entendeu “as festas alemãs em geral”, achando que eu deveria preferir algum outro tipo de festa. Eis a verdade: não prefiro festa alguma, alemã, libanesa ou bielorrussa. Sou um homem sem festas. Mas vá explicar isso ao Otto. Espantado com a minha recusa, começou um discurso em defesa da festa “trazida pelos imigrantes quando vieram ao Brasil fugindo da guerra”.

Suspirei. Otto me acusava de ter passado para o lado seu filho, o homem sem passado, e para quem as festas só deveriam acontecer depois que o último buraco da última rua da cidade fosse fechado. Esperei ele se acalmar e no dia seguinte mandei algumas informações, apenas a título de curiosidade. A primeira é justamente que os imigrantes não vieram fugindo de nenhuma guerra. Imigraram pelo mesmo motivo que os nordestinos migram para São Paulo ou que eu migrei pra Brasília: desejo de novas oportunidades na vida.

 A segunda é que, naturalmente, a Schlachtfest não foi trazida pelos imigrantes. No máximo, o espírito da festa. Em São Bento, ela teve início apenas em 1966. Teve outras edições em 1967 e 1968, e depois apenas em 1985. Desde 1963, a Sociedade Duque de Caxias, de Curitiba, também realiza uma festa chamada Schlachtfest, e que inclusive já foi animada por bandas de São Bento. Uma outra com o mesmo nome também é realizada no Clube Concórdia, da mesma cidade. Em Teotônia, no Rio Grande do Sul, há ainda uma outra Schlachtfest. Talvez haja outras.

Em todas elas a iniciativa pela preservação de manifestações culturais é algo louvável, digna de nota mesmo. É verdade que nem sempre há uma vinculação direta com a história da cidade – coisa que a Böhmenfest talvez consiga melhor. Insisto que devemos ser mais boêmios (da Boêmia, não da boemia) do que alemães.

Mas essa parte eu achei melhor não comentar com o Otto.


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1. Otto e a cidadania europeia