segunda-feira, 29 de julho de 2013

Lira paulistana


(Leia ouvindo) 


 E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um outono invencível. Vestindo agasalhos e melancolias, eu caminhava sozinho pelas ruas de uma São Paulo quase provinciana. Sou um homem livre em meio à multidão que trabalha, geralmente naquilo que não ama. E, por ser assim, também sou um homem cheio de dúvidas, que não sabe para qual parte da cidade levar as suas angústias. Mas tenho muito rostos, e por isso caminho com naturalidade – passo facilmente por paulista. A única coisa capaz de me trair são os cruzamentos: sempre olho para o lado errado antes de atravessar a rua. No mais, sou também um quatrocentão, mais velho que os tantos prédios históricos por onde passo, e digno da mesma indiferença na bagunça das calçadas.

Ah, a Estação da Luz! Tanta poesia, tanta agressão. Antigamente até Nossa Senhora era da Luz. Hoje não haveria espaço para ela nos vagões da CPTM. Os trens chegam, já sem nenhum romantismo, as portas abrem e as pessoas disparam ensandecidas – reforço: disparam ensandecidas. E neste tenro gesto vos contemplo. Somos milhões, e para não nos esmagarmos e nem pisarmos uns nos outros, pedem apenas que deixemos a esquerda livre quando usamos as escadas rolantes. Feito isso, estamos livres para ter a pressa que desejarmos. Mas eu sou atraído pelas melodias de um pianista de Hamelin – inacreditável respiro no meio da afobação, bem-encaixado adereço num ambiente em que a própria visão de onde se está já não causa a menor comoção.

Volto às ruas e tenho a nítida impressão de que todo mundo está perdido. Estão todos querendo chegar a algum lugar que não sabem onde fica. Frustro a todos que me pedem informação. Tenho sempre engatilhado o irrefutável argumento de não ser daqui. Quase o usei para dispensar uma garota que me oferecia canetas e chaveiros para ajudar não sei qual causa. Achei caro e não comprei. Mas tive pena da garota, que no meio da praça pouco movimentada arrumava coragem para abordar aqueles que mais tinham cara de cristãos – e eles não compravam. Continuei meu caminho, somando essa às outras tristezas que carregava comigo.

Estou agora na Consolação, geograficamente falando. Também aqui, como em todo lugar, há um pedaço do meu passado. O velho Giese, homem lá do sul, um dia morou no distrito da Consolação. Isso no tempo em que o velho Giese não era velho. O que veio fazer aqui, velho Giese? Ou, pior: o que eu estou fazendo aqui? Tenho andado muito, e nem sempre soube para onde estava indo. Mas continuo andando, porque ficar é impossível. Aproveito para entrar na igreja local e ouvir um pouco do silêncio paulista. Vejo almofadas no espaço em que os fiéis se ajoelham, o que deve ser uma consolação muito grande.

Percebo com satisfação que a sombra em São Paulo é inevitável – os prédios a garantem. O sol está pálido, dentro e fora de mim. Nebulosidade variável, com possibilidade de chuva no decorrer do período. Garoa, sai dos meus olhos! Deixe-me ver as coisas como elas são! Pego um jornal e me dou conta que coisas continuaram acontecendo no mundo, apesar de eu estar viajando. Procuro um banco para sentar – estou cansado de tentar não me importar. Sentado, espero o primeiro pedinte, que já se aproxima.  

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Pierina e pouco mais

 Como já é bastante comum que eu folheie algum livro e, sem querer, logo me depare com alguma citação ao Rubem Braga, não estranhei que justamente nos dias em que estive em São Paulo, vindo de Taubaté, houvesse uma exposição sobre ele no Museu da Língua Portuguesa. É uma lei de atração que provavelmente apenas a mecânica quântica consegue explicar. Ou ela ou o fato de que na última década li, reli e treli todos os seus livros, pesquisei e esmiucei todas as características de suas crônicas, transformei-o em frias tabelas e estatísticas na minha monografia, troquei informações com outros leitores e pesquisadores, vim parar em Brasília por conta disso, criei um blog sobre crônica que leva o seu nome, cheguei a dar entrevista sobre ele, adotei a crônica como meu gênero de leitura favorito e, como se não bastasse, ainda me animei a escrever por causa dele.

Não era, portanto, um desconhecido que fui encontrar no museu. E por isso também não esperava encontrar muita novidade. Pra mim já era bom ver o Braga sendo visto – pelo menos no ano do seu centenário. E lá estava o Braga repórter, escritor, editor, diplomata, cachoeirense, amante das artes, homem da TV e, sobretudo, combatente da FEB. Digo isso porque foi grande o destaque dado à participação de Braga na Segunda Guerra. As salas foram revestidas com capas de jornais da época. Abaixo das manchetes, a crônica que o Braga mandava direto do front na Itália. Também havia uma sala cheia de telefones antigos. Cada um dava uma notícia ou tocava uma música desse tempo. Seria bom se com isso também o “Crônicas da Guerra na Itália” pudesse ser mais conhecido. É um livro diferente do Braga, e ao mesmo tempo um dos mais bonitos.

Pude ler também a sua primeira crônica publicada em jornal – a parnasiana “A Lágrima”, que nem de longe lembra os melhores momentos do Braga. A redação que fez na quarta série, no entanto, chamada “A Batalha das Flores”, já deixava antever muita coisa que viria a fazer parte do seu estilo como escritor. Há ainda entrevistas, fotos, documentos, rascunhos, e outras coisas mais que deixam a gente feliz por vê-lo homenageado.

Tudo isso exposto aqui em São Paulo, onde o Braga se sentiria bem. Ele dizia que Congonhas já havia entrado para a sua geografia. Nesta soberba cidade os seus nervos estalaram, entre emoções e solidões, como vergas de metal do velho viaduto. Dentro dele vibravam, como parte de sua vida, as agitações da ânsia multifária e triste de São Paulo. Era também homem de coração fácil, que logo se afeiçoava a locais, erguia um palco para suas emoções e colocava discretas placas de mármore comemorativas – tudo isso ele escreveu.


E há também Pierina, a amada que vez ou outra aparecia em sua crônica no Diário de São Paulo em 1934. Pierina existiu e se chamava Pierina. Com ela Braga se correspondia por meio de sinais e gestos da janela do seu prédio para a janela do sobrado dela. Às vezes lhe jogava flores ou frutas, sem acertar o alvo. Nunca chegaram a se encontrar, e logo o Braga se mudou de São Paulo. Mas, naquele tempo, o que amava o Braga? Pierina e pouco mais. Pierina e a vida, duas coisas que se confundem hoje, e amanhã mais se confundirão na morte.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Na terra da velhinha de Taubaté


 Sendo turista, posso conhecer os museus que os próprios moradores da cidade nunca tiveram ocasião para conhecer, pois estão todos preocupados demais vivendo. Sei como é: moro em Brasília há três anos e, ao contrário dos turistas, ainda não conheci o Museu JK, e só na companhia de outros visitantes é que conheci o Palácio da Alvorada. Assim, não foi de se estranhar que poucos soubessem da localização e até mesmo da existência do bonito e completinho Museu Histórico Professor Paulo Florençano, em Taubaté. Ele está localizado na Avenida Thomé Portes Del Rey. Taubaté tem cerca de 300 mil habitantes, mas imagino que eu, estrangeiro, seja o único por lá capaz de citar Thomé Portes Del Rey entre os seus antepassados. Thomé fez parte dos homens que partiram para a região das Minas Gerais em busca de ouro. Alcançou o Rio das Mortes, perto da cidade que, por sua causa, é chamada São João Del Rey. Acabou morto pelos seus escravos. Com ele também andou Domingos Soares, cujo neto João um dia, sem razão conhecida, largou Taubaté e foi para Curitiba, contribuindo assim para que o cronista aqui não nascesse no Vale do Paraíba, mas na região das araucárias.

Mas isso são apenas histórias. Outra delas diz que Dom Pedro I dormiu em Taubaté. É sabido que uma das mais nobres funções dos imperadores é a de dormir nas cidades por onde passam. Assim fez Dom Pedro por uma única noite, em agosto de 1822. Logo se vê que, modéstia à parte, eu estou em vantagem, pois, somando minhas duas passagens por Taubaté, já cheguei a sete noites dormidas na cidade. É verdade que, depois de sair daqui, eu não dei nenhum grito às margens do Ipiranga, nem proclamei independência alguma. Assim é a vida.

Falava eu dos museus. Existe em Taubaté um Museu da História Natural, pertinho do Museu Histórico. Por história natural entenda-se coisas de milhões de anos atrás, de troncos de árvores a dinossauros. As datas são realmente de embasbacar. Há algumas réplicas em tamanho natural dos curiosos animais que em um dia bem distante habitaram a Terra. Descubro inclusive um dinossauro do Vale do Paraíba. Esse, mais recente, viveu há 23 milhões de anos. E eu me achando grande coisa por descobrir antepassados dos anos 1700. Não, eu pesquiso dinossauros mais recentes.

Ainda estava nesse maravilhamento quando apareceu um repórter da TV Vanguarda, a Rede Globo local, e perguntou se não podia fazer umas imagens minhas enquanto eu olhava a exposição. Eu autorizei, até porque ainda era cedo e não havia mais ninguém no museu. Mas eu conheço os jornalistas, e sabia que, depois das imagens, viria a inevitável entrevista. Falei então um tanto atabalhoadamente sobre o que acabara de ver. Foi o dia em que saí na Globo.


E mais não sei. Essas foram coisas que vivi enquanto estive nos Sertões de Taubaté, explorados pelo Capitão Jacques Félix e habitados anteriormente pelos índios guaianás. Já não se fala mais em ouro, mas principalmente em trânsito – há sempre alguma rua cuja mão deveria ser mudada, ou não, para facilitar a vida dos 180 mil veículos locais. E, mesmo sem ter bebido a água da Bica do Bugre, dou por cumprido o vaticínio de que quem assim fizer voltará um dia a Taubaté.  

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Reinações do 9 de Julho

 

As más línguas irão dizer que vim para o estado de São Paulo apenas para ter outro feriado. De fato, esta é a primeira vez que comemoro o 9 de Julho. Comemorar, naturalmente, é maneira de dizer, pois, além de não entender exatamente o que se comemora, eu estou de férias e de qualquer jeito não iria trabalhar. Até então, eu tinha para mim apenas que o 9 de julho foi o dia em que se relatou pela primeira vez o uso do guardanapo (é verdade). Mas sinto-me aliviado ao descobrir que o próprio Mário de Andrade, para quem até as nuvens eram paulistas (essa maldade é do Braga), confessou que muitos dos que participavam ou defendiam a Revolução Constitucionalista em 1932 não sabiam o que era Constituição.

Sei mais ou menos o que é uma Constituição, mas já não consigo entender muito bem as motivações de cada lado àquela época. Ainda estou em Taubaté, e por aqui a Revolução de 1932 também teve os seus reflexos. Foram 6 os homens da cidade que tombaram na batalha. Quem estava à frente das ações em Taubaté eram figuras públicas ligadas ao governo ou à elite local. Há quem diga que a população da cidade nem ligou para a Revolução, pois não houve registro de manifestações populares lamentando a derrota. Não posso confirmar. Mas presumo que, em nossos tempos, também grande parte da cidade não esteja ligando para a Revolução, preferindo passar o dia de forma menos cívica. Em todo caso, a data continua bem lembrada como nome de uma de suas principais avenidas, e sendo inclusive repetida em uma pacata rua do distrito de Quiririm, no interior do município.

Taubaté, vocês sabem, é a terra do Monteiro Lobato, que naqueles acontecimentos de 1932 defendeu a separação de São Paulo do resto do Brasil – Lobato via apenas dois caminhos para o estado: a hegemonia nacional ou a separação. Bem se vê que aconteceu o primeiro. Mas Taubaté também é a terra do Mazzaropi, e sobre esse não se sabe que tenha algum dia dado uma opinião sobre a Revolução de 1932 que tenha sido levada em conta. Ele mesmo dizia que o seu sucesso se explicava por falar a língua do povo. Mas naquele ano de revolta, Mazzaropi era apenas um rapazote que trabalhava como pintor de cenários e ator de peças que distraiam os homens que faziam a guerra.

Aproveitamos o dia para visitar o seu museu, tão escondido que a própria atendente se espanta que tenha sido encontrado. Ela também pergunta se nós chegamos a fazer figuração em algum filme do Mazzaropi. Mas nós somos caipiras de verdade, e não figurantes. E passamos a caminhar em meio aos cartazes e as histórias de todos os filmes do Mazzaropi, que saiam praticamente todo ano, cada um feito com a renda do anterior, e com incríveis superações diante das limitações da época – algo típico dos gênios apaixonados. Leio as sinopses e me simpatizo com as discussões provocadas. Penso nos filmes de Hollywood, e penso especialmente naquilo que não se pensa.

Saímos de lá e vamos para São José dos Campos. O feriado está em toda parte. Esqueço o Mazzaropi, esqueço a guerra de 1932. Temos o nosso próprio jeito de fazer filme, e temos as guerras do nosso tempo. Da sala de cinema, vejo o mundo se transformar em zumbis na A Guerra Mundial Z.  

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Morte e vida taubateana

 


O inesquecível Josef Studenick, pioneiro industrial no Vale do Paraíba, e assim qualificado no busto que recebeu em sua homenagem, está, quem diria, sendo esquecido. Studenick está bem cercadinho em frente ao Convento Santa Clara, em Taubaté, mas já tem o seu rosto coberto pelos galhos das árvores ao redor. Um dia estará tão esquecido quanto a Rua do Meio – rua em que meus ancestrais de Taubaté moraram, nos inesquecíveis anos 1700.

Na Rua do Meio, minha não-sei-quanto-avó Catharina Garcia de Unhatte tinha “dois lanços de casa de taipa de pilão cobertas de telha”. Custo a acreditar que tenha existido algo assim na Rua do Meio ou em qualquer outro lugar de Taubaté. É preciso um esforço sobre-humano para tentar visualizar a cidade da maneira que o francês Pallière registrou em um mapa de 1821. E, não fossem as bonitas maquetes que existem no Museu Histórico, jamais teríamos ideia de que as coisas um dia foram bem diferente do que são hoje.

Eram cinco as ruas, de modo que uma delas ficava ao meio. Mas a Rua do Meio virou depois Rua do Comércio e hoje se chama Duque de Caxias – embora devesse se chamar Rua das Noivas, tantas são as lojas destinadas a elas. Não sei em que parte dela morou Catharina, mas sei onde ela está morando agora. Seu corpo foi amortalhado no Convento Santa Clara, que já existia em Taubaté há um bom tempo. Tento entrar no Convento, mas as portas estão fechadas. Ao seu lado está o cemitério da Venerável Ordem Terceira, e eu, turista estranho, resolvo dar uma caminhada por ele.

Logo de cara, encontro Félix Gusard, outro homem importante na vida econômica de Taubaté. Não me detenho, e começo a ler algumas lápides, dando preferência para aquelas cuja arquitetura era mais destacada. E foi assim que encontrei a sepultura de Olga Guedes Tavares, percebendo de imediato que se tratava de uma espécie de Maria Bueno de Taubaté. Tenho a impressão de que toda cidade possui uma jovem morta na flor da idade e que desde então passou a ser venerada como santa. Assim foi com Olga Guedes Tavares, e no pequeno altar que se levantou em seu túmulo consigo ver cópias de orações, algumas feitas à mão, e que devem ter o mesmo texto há várias gerações, pois vejo referência até aos avós da menina.

Ao sair, retomo o caminho pela Rua do Meio e percebo que ela irá dar bem em frente à igreja de São Francisco das Chagas de Taubaté, a mais antiga da cidade. Quase chegando, descubro a Rua Bispo Rodovalho, que não é o fundador da Sara Nossa Terra, mas um antigo frade franciscano – o maior orador sacro da ordem franciscana no Brasil. Entro na igreja, observo as muitas imagens, os vários ventiladores, e por fim sento. Vários cidadãos de Taubaté entram e – acho curioso – começam uma peregrinação pelas imagens da igreja, parando, tocando e orando em todas elas. Simpatizo-me com um homem em especial e, na minha fé diversa, faço uma rápida oração para que não sofra tanto quanto demonstra.

Penso confusamente em escrever alguma coisa sobre a fé. Saio da igreja e sou absorvido pelo barulho do sábado de manhã, engolido pela multidão que caminha com pressa e sacolas – completamente alheia ao tempo em que será esquecida.   

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Grandes Sertões: São Paulo


“Só se vê prédio e casa. De natureza mesmo, só as nuvens. E aquelas montanhazinhas”. Assim observou a bonita moça sentada à minha frente enquanto nos preparávamos para pousar em São Paulo. Sem dúvida ela achou que seria uma condescendência muito grande incluir o Tietê, também visível ali de cima, entre as obras da natureza na capital paulista. Cheguei até mesmo a ouvir uma conversa questionando se era realmente água aquilo que víamos lá embaixo. A moça bonita reparou ainda na poluição do ar. Fez questão de mostrar a névoa escura para sua amiga. Esta, apenas respondeu: “Tenso, véi!”.

E assim fui chegando a São Paulo, pela segunda vez na vida – estou desconsiderando as conexões de vôos. Há oito anos eu cheguei a São Paulo de ônibus. Já escrevi sobre isso: andei de metrô, caminhei pela Paulista, cruzei a Ipiranga com a São João, vi o Canindé, o antigo Carandiru e preenchi o bilhete de passagem para um velhinho no Tietê – o Terminal, e não o Rio. E era justamente para o Terminal Rodoviário do Tietê que eu iria agora.

Lá eu pegaria um ônibus que me levaria a Taubaté, no Vale do Paraíba. Ainda impressionado por não haver uma ligação direta entre Congonhas e o Tietê, busco um ponto de ônibus na Avenida Washington Luís. Este ponto, imagino, é um dos primeiros contatos dos visitantes com a cidade. Procuro o ponto e não acho. Vejo pessoas paradas sem muita ordem. Não há um abrigo. Não há sequer uma placa indicando o local exato. Decido ficar por ali mesmo. A calçada é apertada. Encosto-me na parede de um comércio. Mal encosto e me pedem uma licencinha, porque estão pintando a parede. Eis a minha recepção na cidade.

Tenho anotado na cabeça o número de um ônibus que devo pegar até uma estação de metrô. O ônibus aparece. Reparo que está escrito realmente o nome de uma estação de metrô no itinerário. Embarco e relaxo. Fico na expectativa de chegar à estação. O tempo vai passando. Começo a achar muito demorado. Mas confio cegamente no itinerário e permaneço dentro. Chego em ruas estranhas. Súbito, o ônibus estaca: é o ponto final. Nem sinal do metrô. Tenho que descer. Estou perdido no meio do nada – até agora não sei onde estive. Nonada. Curiosamente, não fui o único a descobrir que pegou o ônibus errado só no ponto final. Indicam outro ponto para nós. Seguimos para lá. Pego outro ônibus, essa vez escrito bem grandão “Metrô Jabaquara”. Pergunto ao cobrador quanto tempo demora até lá. Ele responde: mais ou menos uma hora. Quase pergunto se isso é no fuso daqui ou no de lá.

Chego, finalmente. Vou comprar um bilhete para o metrô. A fila está enorme. Sou tomado por uma repentina saudade da roça. Começo a questionar a minha decisão de viajar. Murmuro palavras muito duras contra a cidade, e o que menos disse foi que era uma loucura. Compro o bilhete, entro no metrô e enfim chego ao Tietê. São quase quatro horas da tarde e eu ainda não almocei. Decido comer um prato completo, refeição de verdade. Vou a uma lanchonete, passo um tempo escolhendo, e então faço o meu pedido. O atendente explica: refeições, só a partir das cinco horas. Suspiro. E desejo ardentemente que o Vale do Paraíba ainda seja conhecido como os Sertões de Taubaté.  

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Retrato do cronista quando viaja


Vocês deviam ver um cronista se preparando pra viajar. Eu já disse que o turista é um bicho engraçado, mas o cronista é muito mais. Começa que ele compra um caderninho e enche de anotações preliminares, informações, curiosidades e frases sobre os lugares que irá visitar. Quer potencializar as experiências que irá ter e sobre as quais deseja escrever. E então ele começa a idealizar os textos que irá fazer. Até em alguns títulos ele já pensou! Não viu lugar nenhum ainda e já pensa nos títulos! Bicho engraçado, sô. Isso me lembra um personagem do John Fante (acho que é do John Fante. Se não for do John Fante, paciência. Perguntem ao pó). Pois o personagem está se afogando, quase morrendo, e no meio da luta para sobreviver pensa em como irá escrever sobre aquilo. Terríveis, os escritores.

A essa altura vocês já perceberam que o cronista que se prepara para viajar sou eu mesmo. De fato, estarei em férias por alguns dias. Tem uma citação ótima do Henfil sobre férias. Vocês conhecem o Henfil. Lembram da música da Elis? “Meu Brasil, que sonha com a volta do irmão do Henfil”. Era o Betinho, o irmão do Henfil. Pois o Henfil foi viajar para China. E enquanto fazia uma escala na Europa, o Henfil fez a seguinte divagação:

“Agora, suponhamos que um chinês viesse aqui e, pela observação de sua maneira de viver, procurasse interpretar o european way of life. Diria ele quando voltasse pra China: o europeu é escravo do trabalho. Não lhes respeitam vocação ou potencial. Trabalha onde o mercado manda. Recebe uma quantia em dinheiro para comprar uma porção de coisas supérfluas. A parte que economiza ele gasta quando entra... numa fila imensa de carros na tradicional festa ocidental chamada weekend. Todo ano ele participa também de outra festa chamada férias. Fica um mês sem trabalhar e isto lhe causa muita angústia e um vazio enorme. Aí ele procura um cinema ou um teatro onde artistas contratados vivem para ele coisas essenciais como amor, sexo etc”.

Poxa, estou justamente participando da festa ocidental chamada férias – eu diria vacation. Mas tenho os meus direitos, e afinal nem será um mês inteiro, e nem sei ainda se irei a algum cinema ou teatro. Estou pensando em fazer como o Henfil, que nessa ida à China sequer foi ver a Muralha. Turismo alternativo. É outra das graças do cronista.

Tem mais uma coisa também. Essa não acontece só com os cronistas. Véspera de viagem, pelo menos para quem não costuma viajar, dá sempre vontade de encontrar todo mundo, se despedir, ouvir boas recomendações. Um dia eu disse que me sentia um pracinha indo para a Guerra. É mais ou menos assim. Quero me despedir das pessoas, declaro meu amor por todos. E o pessoal me diz pra avisar, mandar mensagem, assim que chegar. Ah, isso faz bem!

Tive vontade de me despedir inclusive daquela moça, caixa de restaurante, por quem cultivo uma suave afeição, e em cujos dedos (eu reparei bem) não há um mísero anel. Mas ela não sabe que vou viajar, nem notará minha falta, e mal perceberá meu retorno. Tudo bem, tudo bem. Mas saiba que nem a sua indiferença foi suficiente para impedir que eu te arrumasse um espacinho nesta crônica que era pra ser só sobre viagem.