sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Um quarto sem piso

 Recebi uma notícia que me deixou sem chão. O piso do pequeno quarto que há três anos alugo na Asa Sul começou a se desprender e precisava ser trocado. Diz a dona do quarto que provavelmente foram os dois produtos químicos fortíssimos que ela mesma jogou no chão, pensando em facilitar a vida da mulher que deveria limpá-lo. Queria acabar com toda a sujeira. De certa forma deu certo, pois não imagino que esses azulejos voltem a ficar sujos algum dia, especialmente depois que não forem mais usados. Isso foi no fim-de-semana. Meu quarto balançava, e a dona dele, uma senhorinha entre 60 e 70 anos, se consumia em preocupação. Esse quartinho fica aos fundos de sua casa, e ela garantiu que ia me hospedar o tempo que fosse necessário para trocar o piso. Em sua cabeça, ela pensava em dias, semanas até. Disse que entendia a minha chateação. Mas eu estava achando tudo muito divertido.

Dona Lúcia, a senhorinha, mora apenas com o irmão, alguns anos mais novo. De nada lhe adiantou os sete casamentos que teve ao longo da vida. Renderam-lhe duas ou três filhas que não a visitam. Sua única visita é a de um irmão, bem sucedido, que todo final de semana aparece, fica uns quinze minutos, dá alguns conselhos e depois se vai dizendo “aquele abraço”, mas sem nunca abraçar. O irmão mais novo é um personagem curioso, e que raramente sai do seu quarto, onde escuta programas católicos e dorme de luz acesa. Vez ou outra ouço algumas, hã, altercações entre os dois. Mas ele muitas vezes presta atenção no que Dona Lúcia tem a dizer, e Dona Lúcia sempre tem muito a dizer.

Neste fim-de-semana nervoso para Dona Lúcia, ele recomendou que ela fosse à missa. Mas Dona Lúcia não quis ir, pois estava tão nervosa que mal conseguia sair do banheiro. E não bastava eu lhe assegurar que, da minha parte, estava tudo tranquilo. Na segunda-feira sai para o trabalho e, quando voltei, ouvi as novidades. Veio um homem olhar o piso e disse era coisa rápida. Arrancou o piso solto, disse que no outro dia colocaria o piso novo e ao terceiro dia eu estaria de volta. Isso tranquilizou Dona Lúcia. E eu me mudei então para um quartinho de visitas em sua casa, recebendo as boas vindas quase solenes do seu irmão.

Ouvi as boas recomendações da Dona Lúcia, recebi autorização para fazer praticamente tudo dentro de sua casa, e ela então se despediu, recolhendo-se à sua alcova. Como o irmão já estava trancado em seu quarto, assim ficamos os três naquela primeira noite juntos – ou seja, totalmente separados. Pela manhã, tomei banho e café, aprontei-me para o trabalho e não vi nem um nem outro. Que modo engraçado de se morar na mesma casa!

Bem diferente foi a manhã do outro dia, quando encontrei Dona Lúcia acordada e bastante animada. Ela morria de frio e vestia um casaco de esquimó. Achou-me de manga curta. Expliquei que frio só existe no sul. Ela ria. Sentou-se comigo enquanto eu tomava café e, em meio a gargalhadas, reviu todo o drama do piso. Eu mal abria a boca, apenas deixava sua euforia correr solta. Perguntou coisas do meu trabalho. Avisou-me da morte do Gonzaguinha – na verdade, Dominguinhos. Disse que lavaria a louça pra mim. E por todas essas coisas eu senti que me tinha como filho.  

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Pauliceia acompanhada

(leia sorrindo) 

 A pior forma de solidão é a companhia de um paulista. Essa maldade não é minha, mas do Nelson Rodrigues, que sabia como ninguém dar ares de verdade eterna aos seus gracejos. E eu pensava com graça nessa frase depois de ter tido um dia cheio de companhias – e todas eram paulistas. Na véspera mesmo, ao invés de fazer turismo em São Paulo, eu havia passado a tarde inteira jogando conversa fora com uma paulista em uma banca de jornal. E ainda estaríamos lá, se não anoitecesse e a banca não tivesse que fechar. De lá ainda fui convidado para tomar generosa sopa na casa desta que é a mais ensolarada das paulistas. Há poucas pessoas capazes de fazer a mim, que quase não falo, conversar por horas seguidas.

Durante esses dias, estive bem hospedado na casa de uma família mineira, mas nem por isso menos paulista. Lá mora uma moça bastante simpática cujo nome significa esperança, mas que ainda não viu nada de especial nisso. Há dez anos compartilhamos melancolias que nela não aparecem à primeira vista. Tampouco apareceram enquanto estive lá. E ela me acompanhou até a Avenida Paulista, onde havia outras tantas companhias para encontrar.

Era gente que eu nunca havia visto na vida. Mas com eles eu havia partilhado nos últimos anos a maior parte das minhas leituras e dos meus palpites sobre literatura. Acreditem: somos uma comunidade do Orkut. Ainda existe Orkut. Expulsamos todas as pessoas de lá e agora temos uma rede social só para nós. Somos poucos, é verdade. Mas com que paixão debatemos livros e escritores! E ali estávamos alguns de nós, na Casa das Rosas, para tomar um café e descobrir quem exatamente existe atrás da tela do computador. Em mim descobriram uma voz que dizem ser de locutor. Nada sei. Eu descobri mais uma porção de pessoas para passar algumas boas horas em São Paulo.

Esta também foi a primeira vez na história da literatura que um escritor tomou conhecimento do seu próprio livro justamente no momento em que um leitor lhe pedia para autografá-lo. Assinei então a minha humilde coletânea de crônicas “Brasília quando perto”, que eu havia lançado sem ter visto o livro pronto. E ficamos todos conversando coisas que antigamente apenas escrevíamos. De repente, houve uma alusão à violência nas ruas em São Paulo. Só então me ocorreu o óbvio, ou seja, existe violência nas ruas em São Paulo. Lembrei que à noite eu estaria na Rua Augusta. São Paulo está cheia de pessoas para se encontrar!

Estive ainda em duas livrarias na Paulista, nas quais apliquei o meu método particular de avaliação, ou seja, o número de livros do Rubem Braga à venda – ambas reprovaram. Tudo isso devidamente acompanhado por gente que folheia livro como quem prova sapato. E assim chegamos à Augusta, onde me aguardavam 42,8% dos escritores do blog Vida a Sete Chaves. São três cronistas que um dia eu juntei no blog porque não queria ser cronista sozinho. E eu os juntei porque gostei do que escreviam, não por serem tão animados e divertidos como os encontrei. Cronista é um bicho muito bacana!

Pois é. Eu falo pouco e estava rouco no fim da noite. Que barbaridade. Disso tudo só posso concluir que, ao menos para mim, a pior forma de solidão é a ausência de um paulista!

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Lira paulistana


(Leia ouvindo) 


 E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um outono invencível. Vestindo agasalhos e melancolias, eu caminhava sozinho pelas ruas de uma São Paulo quase provinciana. Sou um homem livre em meio à multidão que trabalha, geralmente naquilo que não ama. E, por ser assim, também sou um homem cheio de dúvidas, que não sabe para qual parte da cidade levar as suas angústias. Mas tenho muito rostos, e por isso caminho com naturalidade – passo facilmente por paulista. A única coisa capaz de me trair são os cruzamentos: sempre olho para o lado errado antes de atravessar a rua. No mais, sou também um quatrocentão, mais velho que os tantos prédios históricos por onde passo, e digno da mesma indiferença na bagunça das calçadas.

Ah, a Estação da Luz! Tanta poesia, tanta agressão. Antigamente até Nossa Senhora era da Luz. Hoje não haveria espaço para ela nos vagões da CPTM. Os trens chegam, já sem nenhum romantismo, as portas abrem e as pessoas disparam ensandecidas – reforço: disparam ensandecidas. E neste tenro gesto vos contemplo. Somos milhões, e para não nos esmagarmos e nem pisarmos uns nos outros, pedem apenas que deixemos a esquerda livre quando usamos as escadas rolantes. Feito isso, estamos livres para ter a pressa que desejarmos. Mas eu sou atraído pelas melodias de um pianista de Hamelin – inacreditável respiro no meio da afobação, bem-encaixado adereço num ambiente em que a própria visão de onde se está já não causa a menor comoção.

Volto às ruas e tenho a nítida impressão de que todo mundo está perdido. Estão todos querendo chegar a algum lugar que não sabem onde fica. Frustro a todos que me pedem informação. Tenho sempre engatilhado o irrefutável argumento de não ser daqui. Quase o usei para dispensar uma garota que me oferecia canetas e chaveiros para ajudar não sei qual causa. Achei caro e não comprei. Mas tive pena da garota, que no meio da praça pouco movimentada arrumava coragem para abordar aqueles que mais tinham cara de cristãos – e eles não compravam. Continuei meu caminho, somando essa às outras tristezas que carregava comigo.

Estou agora na Consolação, geograficamente falando. Também aqui, como em todo lugar, há um pedaço do meu passado. O velho Giese, homem lá do sul, um dia morou no distrito da Consolação. Isso no tempo em que o velho Giese não era velho. O que veio fazer aqui, velho Giese? Ou, pior: o que eu estou fazendo aqui? Tenho andado muito, e nem sempre soube para onde estava indo. Mas continuo andando, porque ficar é impossível. Aproveito para entrar na igreja local e ouvir um pouco do silêncio paulista. Vejo almofadas no espaço em que os fiéis se ajoelham, o que deve ser uma consolação muito grande.

Percebo com satisfação que a sombra em São Paulo é inevitável – os prédios a garantem. O sol está pálido, dentro e fora de mim. Nebulosidade variável, com possibilidade de chuva no decorrer do período. Garoa, sai dos meus olhos! Deixe-me ver as coisas como elas são! Pego um jornal e me dou conta que coisas continuaram acontecendo no mundo, apesar de eu estar viajando. Procuro um banco para sentar – estou cansado de tentar não me importar. Sentado, espero o primeiro pedinte, que já se aproxima.  

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Pierina e pouco mais

 Como já é bastante comum que eu folheie algum livro e, sem querer, logo me depare com alguma citação ao Rubem Braga, não estranhei que justamente nos dias em que estive em São Paulo, vindo de Taubaté, houvesse uma exposição sobre ele no Museu da Língua Portuguesa. É uma lei de atração que provavelmente apenas a mecânica quântica consegue explicar. Ou ela ou o fato de que na última década li, reli e treli todos os seus livros, pesquisei e esmiucei todas as características de suas crônicas, transformei-o em frias tabelas e estatísticas na minha monografia, troquei informações com outros leitores e pesquisadores, vim parar em Brasília por conta disso, criei um blog sobre crônica que leva o seu nome, cheguei a dar entrevista sobre ele, adotei a crônica como meu gênero de leitura favorito e, como se não bastasse, ainda me animei a escrever por causa dele.

Não era, portanto, um desconhecido que fui encontrar no museu. E por isso também não esperava encontrar muita novidade. Pra mim já era bom ver o Braga sendo visto – pelo menos no ano do seu centenário. E lá estava o Braga repórter, escritor, editor, diplomata, cachoeirense, amante das artes, homem da TV e, sobretudo, combatente da FEB. Digo isso porque foi grande o destaque dado à participação de Braga na Segunda Guerra. As salas foram revestidas com capas de jornais da época. Abaixo das manchetes, a crônica que o Braga mandava direto do front na Itália. Também havia uma sala cheia de telefones antigos. Cada um dava uma notícia ou tocava uma música desse tempo. Seria bom se com isso também o “Crônicas da Guerra na Itália” pudesse ser mais conhecido. É um livro diferente do Braga, e ao mesmo tempo um dos mais bonitos.

Pude ler também a sua primeira crônica publicada em jornal – a parnasiana “A Lágrima”, que nem de longe lembra os melhores momentos do Braga. A redação que fez na quarta série, no entanto, chamada “A Batalha das Flores”, já deixava antever muita coisa que viria a fazer parte do seu estilo como escritor. Há ainda entrevistas, fotos, documentos, rascunhos, e outras coisas mais que deixam a gente feliz por vê-lo homenageado.

Tudo isso exposto aqui em São Paulo, onde o Braga se sentiria bem. Ele dizia que Congonhas já havia entrado para a sua geografia. Nesta soberba cidade os seus nervos estalaram, entre emoções e solidões, como vergas de metal do velho viaduto. Dentro dele vibravam, como parte de sua vida, as agitações da ânsia multifária e triste de São Paulo. Era também homem de coração fácil, que logo se afeiçoava a locais, erguia um palco para suas emoções e colocava discretas placas de mármore comemorativas – tudo isso ele escreveu.


E há também Pierina, a amada que vez ou outra aparecia em sua crônica no Diário de São Paulo em 1934. Pierina existiu e se chamava Pierina. Com ela Braga se correspondia por meio de sinais e gestos da janela do seu prédio para a janela do sobrado dela. Às vezes lhe jogava flores ou frutas, sem acertar o alvo. Nunca chegaram a se encontrar, e logo o Braga se mudou de São Paulo. Mas, naquele tempo, o que amava o Braga? Pierina e pouco mais. Pierina e a vida, duas coisas que se confundem hoje, e amanhã mais se confundirão na morte.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Na terra da velhinha de Taubaté


 Sendo turista, posso conhecer os museus que os próprios moradores da cidade nunca tiveram ocasião para conhecer, pois estão todos preocupados demais vivendo. Sei como é: moro em Brasília há três anos e, ao contrário dos turistas, ainda não conheci o Museu JK, e só na companhia de outros visitantes é que conheci o Palácio da Alvorada. Assim, não foi de se estranhar que poucos soubessem da localização e até mesmo da existência do bonito e completinho Museu Histórico Professor Paulo Florençano, em Taubaté. Ele está localizado na Avenida Thomé Portes Del Rey. Taubaté tem cerca de 300 mil habitantes, mas imagino que eu, estrangeiro, seja o único por lá capaz de citar Thomé Portes Del Rey entre os seus antepassados. Thomé fez parte dos homens que partiram para a região das Minas Gerais em busca de ouro. Alcançou o Rio das Mortes, perto da cidade que, por sua causa, é chamada São João Del Rey. Acabou morto pelos seus escravos. Com ele também andou Domingos Soares, cujo neto João um dia, sem razão conhecida, largou Taubaté e foi para Curitiba, contribuindo assim para que o cronista aqui não nascesse no Vale do Paraíba, mas na região das araucárias.

Mas isso são apenas histórias. Outra delas diz que Dom Pedro I dormiu em Taubaté. É sabido que uma das mais nobres funções dos imperadores é a de dormir nas cidades por onde passam. Assim fez Dom Pedro por uma única noite, em agosto de 1822. Logo se vê que, modéstia à parte, eu estou em vantagem, pois, somando minhas duas passagens por Taubaté, já cheguei a sete noites dormidas na cidade. É verdade que, depois de sair daqui, eu não dei nenhum grito às margens do Ipiranga, nem proclamei independência alguma. Assim é a vida.

Falava eu dos museus. Existe em Taubaté um Museu da História Natural, pertinho do Museu Histórico. Por história natural entenda-se coisas de milhões de anos atrás, de troncos de árvores a dinossauros. As datas são realmente de embasbacar. Há algumas réplicas em tamanho natural dos curiosos animais que em um dia bem distante habitaram a Terra. Descubro inclusive um dinossauro do Vale do Paraíba. Esse, mais recente, viveu há 23 milhões de anos. E eu me achando grande coisa por descobrir antepassados dos anos 1700. Não, eu pesquiso dinossauros mais recentes.

Ainda estava nesse maravilhamento quando apareceu um repórter da TV Vanguarda, a Rede Globo local, e perguntou se não podia fazer umas imagens minhas enquanto eu olhava a exposição. Eu autorizei, até porque ainda era cedo e não havia mais ninguém no museu. Mas eu conheço os jornalistas, e sabia que, depois das imagens, viria a inevitável entrevista. Falei então um tanto atabalhoadamente sobre o que acabara de ver. Foi o dia em que saí na Globo.


E mais não sei. Essas foram coisas que vivi enquanto estive nos Sertões de Taubaté, explorados pelo Capitão Jacques Félix e habitados anteriormente pelos índios guaianás. Já não se fala mais em ouro, mas principalmente em trânsito – há sempre alguma rua cuja mão deveria ser mudada, ou não, para facilitar a vida dos 180 mil veículos locais. E, mesmo sem ter bebido a água da Bica do Bugre, dou por cumprido o vaticínio de que quem assim fizer voltará um dia a Taubaté.  

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Reinações do 9 de Julho

 

As más línguas irão dizer que vim para o estado de São Paulo apenas para ter outro feriado. De fato, esta é a primeira vez que comemoro o 9 de Julho. Comemorar, naturalmente, é maneira de dizer, pois, além de não entender exatamente o que se comemora, eu estou de férias e de qualquer jeito não iria trabalhar. Até então, eu tinha para mim apenas que o 9 de julho foi o dia em que se relatou pela primeira vez o uso do guardanapo (é verdade). Mas sinto-me aliviado ao descobrir que o próprio Mário de Andrade, para quem até as nuvens eram paulistas (essa maldade é do Braga), confessou que muitos dos que participavam ou defendiam a Revolução Constitucionalista em 1932 não sabiam o que era Constituição.

Sei mais ou menos o que é uma Constituição, mas já não consigo entender muito bem as motivações de cada lado àquela época. Ainda estou em Taubaté, e por aqui a Revolução de 1932 também teve os seus reflexos. Foram 6 os homens da cidade que tombaram na batalha. Quem estava à frente das ações em Taubaté eram figuras públicas ligadas ao governo ou à elite local. Há quem diga que a população da cidade nem ligou para a Revolução, pois não houve registro de manifestações populares lamentando a derrota. Não posso confirmar. Mas presumo que, em nossos tempos, também grande parte da cidade não esteja ligando para a Revolução, preferindo passar o dia de forma menos cívica. Em todo caso, a data continua bem lembrada como nome de uma de suas principais avenidas, e sendo inclusive repetida em uma pacata rua do distrito de Quiririm, no interior do município.

Taubaté, vocês sabem, é a terra do Monteiro Lobato, que naqueles acontecimentos de 1932 defendeu a separação de São Paulo do resto do Brasil – Lobato via apenas dois caminhos para o estado: a hegemonia nacional ou a separação. Bem se vê que aconteceu o primeiro. Mas Taubaté também é a terra do Mazzaropi, e sobre esse não se sabe que tenha algum dia dado uma opinião sobre a Revolução de 1932 que tenha sido levada em conta. Ele mesmo dizia que o seu sucesso se explicava por falar a língua do povo. Mas naquele ano de revolta, Mazzaropi era apenas um rapazote que trabalhava como pintor de cenários e ator de peças que distraiam os homens que faziam a guerra.

Aproveitamos o dia para visitar o seu museu, tão escondido que a própria atendente se espanta que tenha sido encontrado. Ela também pergunta se nós chegamos a fazer figuração em algum filme do Mazzaropi. Mas nós somos caipiras de verdade, e não figurantes. E passamos a caminhar em meio aos cartazes e as histórias de todos os filmes do Mazzaropi, que saiam praticamente todo ano, cada um feito com a renda do anterior, e com incríveis superações diante das limitações da época – algo típico dos gênios apaixonados. Leio as sinopses e me simpatizo com as discussões provocadas. Penso nos filmes de Hollywood, e penso especialmente naquilo que não se pensa.

Saímos de lá e vamos para São José dos Campos. O feriado está em toda parte. Esqueço o Mazzaropi, esqueço a guerra de 1932. Temos o nosso próprio jeito de fazer filme, e temos as guerras do nosso tempo. Da sala de cinema, vejo o mundo se transformar em zumbis na A Guerra Mundial Z.  

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Morte e vida taubateana

 


O inesquecível Josef Studenick, pioneiro industrial no Vale do Paraíba, e assim qualificado no busto que recebeu em sua homenagem, está, quem diria, sendo esquecido. Studenick está bem cercadinho em frente ao Convento Santa Clara, em Taubaté, mas já tem o seu rosto coberto pelos galhos das árvores ao redor. Um dia estará tão esquecido quanto a Rua do Meio – rua em que meus ancestrais de Taubaté moraram, nos inesquecíveis anos 1700.

Na Rua do Meio, minha não-sei-quanto-avó Catharina Garcia de Unhatte tinha “dois lanços de casa de taipa de pilão cobertas de telha”. Custo a acreditar que tenha existido algo assim na Rua do Meio ou em qualquer outro lugar de Taubaté. É preciso um esforço sobre-humano para tentar visualizar a cidade da maneira que o francês Pallière registrou em um mapa de 1821. E, não fossem as bonitas maquetes que existem no Museu Histórico, jamais teríamos ideia de que as coisas um dia foram bem diferente do que são hoje.

Eram cinco as ruas, de modo que uma delas ficava ao meio. Mas a Rua do Meio virou depois Rua do Comércio e hoje se chama Duque de Caxias – embora devesse se chamar Rua das Noivas, tantas são as lojas destinadas a elas. Não sei em que parte dela morou Catharina, mas sei onde ela está morando agora. Seu corpo foi amortalhado no Convento Santa Clara, que já existia em Taubaté há um bom tempo. Tento entrar no Convento, mas as portas estão fechadas. Ao seu lado está o cemitério da Venerável Ordem Terceira, e eu, turista estranho, resolvo dar uma caminhada por ele.

Logo de cara, encontro Félix Gusard, outro homem importante na vida econômica de Taubaté. Não me detenho, e começo a ler algumas lápides, dando preferência para aquelas cuja arquitetura era mais destacada. E foi assim que encontrei a sepultura de Olga Guedes Tavares, percebendo de imediato que se tratava de uma espécie de Maria Bueno de Taubaté. Tenho a impressão de que toda cidade possui uma jovem morta na flor da idade e que desde então passou a ser venerada como santa. Assim foi com Olga Guedes Tavares, e no pequeno altar que se levantou em seu túmulo consigo ver cópias de orações, algumas feitas à mão, e que devem ter o mesmo texto há várias gerações, pois vejo referência até aos avós da menina.

Ao sair, retomo o caminho pela Rua do Meio e percebo que ela irá dar bem em frente à igreja de São Francisco das Chagas de Taubaté, a mais antiga da cidade. Quase chegando, descubro a Rua Bispo Rodovalho, que não é o fundador da Sara Nossa Terra, mas um antigo frade franciscano – o maior orador sacro da ordem franciscana no Brasil. Entro na igreja, observo as muitas imagens, os vários ventiladores, e por fim sento. Vários cidadãos de Taubaté entram e – acho curioso – começam uma peregrinação pelas imagens da igreja, parando, tocando e orando em todas elas. Simpatizo-me com um homem em especial e, na minha fé diversa, faço uma rápida oração para que não sofra tanto quanto demonstra.

Penso confusamente em escrever alguma coisa sobre a fé. Saio da igreja e sou absorvido pelo barulho do sábado de manhã, engolido pela multidão que caminha com pressa e sacolas – completamente alheia ao tempo em que será esquecida.