sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Os 10 melhores livros de crônicas que li em 2011

10. Aprendendo a Viver - Clarice Lispector
Ainda que ela mesma discorde, Clarice fez crônicas. E por mais que diga não gostar de falar de si, suas crônicas são tão autobiográficas como as de qualquer outro escritor. 

A sutileza está na inocência e na fragilidade de Clarice - que em todos os seus textos parece ser a mesma menina sofrida da infância no Recife. 

Isso rende cenário vivos. Somos tocados pela sua beleza. 

Mas Clarice não precisa que a tentem colocar no pedestal de um gênero que é feito ao rés-do-chão - e não é demérito publicar em jornal, como sugere a orelha do livro. Clarice não precisa que a tentem deixar mais bonita - em geral, estraga. 


9. Tia Zulmira e Eu - Stanislaw Ponte Preta
Stanislaw é daqueles cronistas que quase não existem mais. Gente que não se preocupa em dar pareceres técnicos sobre a realidade. 

Sua arma é o riso, a piada, a galhofa. Flagrar um instante do absurdo. Criar personagens - ele próprio personagem de si mesmo - e colocá-los para vivenciar situações inusitadas. E só então desvendar um pedaço do mundo real. 

É um livro daqueles que se lê mais pra se divertir do que outra coisa. Mas mal não há em se atentar às críticas insinuadas aqui e ali. 

E na condução da narrativa, um cronista tão ágil e habilidoso com as palavras como só um humorista consegue ser. 


8. Comédias da Vida Pública - Luis Fernando Veríssimo
É o livro em que Veríssimo fala a sério, principalmente nas primeiras crônicas. 

Os textos começam no final dos anos 60 e terminam no meio dos anos 90. Nem sempre é possível entender as referências históricas do cronista, e em vários textos foi necessário um apêndice de contextualização - que nem sempre adiantou. 

Mas à medida em que os anos prosseguem, e os episódios e personagens da vida pública se tornam mais conhecidos, Veríssimo vai também aumentando as doses do humor que o consagrou. 

O resultado final é agradável, com especial destaque para os diálogos envolvendo figuras políticas. 


7. Ungáua! - Ruy Castro
Famoso pelas biografias, Ruy pode tranquilamente ser citado como um dos nossos grandes cronistas vivos. 

Seus textos, menores do que a média, são cheios da ironia que dá sabor ao gênero, quando bem escrito. 

Ruy se mostra atento aos acontecimentos ao seu redor, e particularmente ao noticiário - desde Machado de Assis, a melhor fonte para a crônica. 

Mas também aproveita para dar pitadas do seu conhecimento musical, desfazer alguns equívocos históricos e também falsas impressões sobre o Rio de Janeiro de hoje. 

E tudo isso com firmeza, clareza e muito pouco senso-comum.

6. Vossa Insolência - Olavo Bilac
Quem conhece o Bilac apenas pelo seus poemas parnasianos, provavelmente se surpreenderá com o autor desse livro. 

Nele, Bilac se mostra um cronista altamente combativo, capaz de fazer duras críticas ao Rio de Janeiro, a própria cidade em que morava.

Isso não significa que não gostasse de morar lá, ao contrário: usava os seus textos para defender causas que julgava necessárias para que a cidade pudesse ter uma vida mais digna. 

Chama a atenção a sua percepção social e a sua capacidade de indignação em episódios que também fornecem a possibilidade de comparação com a realidade de hoje.

5. Alguém que já não fui - Artur da Távola
Artur da Távola era um incompreendido, como acontece com todos os que vivem antes do seu tempo. 

Suas crônicas são análises sociológicas, existenciais e comportamentais feitas com uma serenidade e precisão espantosas. 

Consegue flagrar com rara felicidade as pequenas sutilezas das tensões do nosso cotidiano. E ao tentar explicá-las, Artur promove um bom exercício de auto-conhecimento, geralmente concluído de maneira positiva, incitando o leitor a uma nova tomada de posição. 

Não é exatamente um livro fácil, mas as reflexões que promove o tornam particularmente bonito, inspirador e esperançoso.

4. Seja Feliz e Faça os Outros Felizes - Antônio Maria
Antônio Maria só não é mais conhecido entre os melhores do gênero porque morreu cedo. 

Nesse livro, eles nos pega pelo humor, e um humor daqueles que nos deixam desnorteados, de tão certeiro - não é a gargalhada, mas "o humor de canto de boca", como diz a orelha. 

É digna de nota a sua relação com leitores, especialmente os que pediam seus serviços de conselheiro sentimental. 

Maria parece se divertir escrevendo, ao mesmo tempo que esconde suas angústias num mundo de franquezas em que pouca gente tem uma coisa boa a dizer. 

Faz humor poético, confessional, parecendo desejar um tipo de amor que quase não há. 

3. A Menina sem Estrela - Nelson Rodrigues
Nelson Rodrigues é aclamado como teatrólogo, contista e cronista esportivo. Mas as suas memórias, relatadas em forma de crônicas, e iniciadas neste livro, são suficientes para colocá-lo também entre os grandes do gênero de Rubem Braga. 

Nelson é criador de um estilo, marcado pela extrema agilidade da linguagem, por um intenso fluxo de ideias e, naturalmente, pelas frases de efeito. 

E em "A Menina Sem Estrela" enxergamos uma sinceridade incomum nos relatos autobiográficos, com Nelson não hesitando em revelar deslizes morais da sua vida no teatro, por exemplo. 

Em muitos momentos, também é emocionante. 


2. O Luar e a Rainha - Ivan Lessa
Outro cronista atento ao noticiário, Ivan Lessa traz, lá de Londres, um olhar aguçado sobre os episódios internacionais dos anos 2000 a 2004 - ou seja, revemos, em textos tão bem-humorados quanto críticos, o 11 de Setembro e depois a Guerra do Iraque. 

A isso, somam-se os textos em que mergulhamos nos fait divers, nas pesquisas e estatísticas insólitas, das quais Lessa sempre extrai alguma piada e, se formos ver bem a fundo, o questionamento das lógicas da imprensa. 

São textos curtos, mas bastante precisos, com domínio das palavras. 

E que ainda favorecem a troca de impressões entre Brasil e Inglaterra. 


1. O Óbvio Ululante - Nelson Rodrigues
Embora seja parte de suas memórias, "O Óbvio Ululante" é o livro de um cronista contemporâneo, bastante interessado nas tendências do Brasil em que vivia - aqui estão vários textos que contribuiriam para sua fama de reacionário. 

Suas crônicas são densamente povoadas. Há citações para todos os lados, e algumas obsessões, como Dom Hélder Câmara e Hélio Pellegrino. 

Seu estilo seco é bastante envolvente e não deixa muito espaço pra indiferença do leitor. Também é um livro divertido, repleto das sacadas que fizeram de Nelson um grande frasista. 

E a rabugice do autor acaba tornando-o até mais simpático. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Os meus sapatos

Essa história de ter mais amigas mulheres do que homens volta e meia me coloca em enrascadas. Não é raro o dia em que entro com elas em lojas de roupas, sapatos ou bolsas - coisas muito necessárias e bonitas, mas que nem por isso chamam muito a minha atenção. Sei que existem homens que gostam e, mais do que isso, que entendem do assunto. Não é o meu caso. De qualquer forma, eu as acompanho, e vou dando palpites aqui e ali, todos muito sinceros, embora sempre embasados no senso comum. Mesmo assim, elas levam em consideração. Opinam. Discutem. Gostam de estar ali e querem falar sobre isso.

Na última vez em que isso aconteceu, eu estava com duas mulheres em uma loja era de sapatos. Elas queriam trocar um presente de amigo oculto. O sapato servia direitinho, mas, se há a possibilidade de trocar por um mais bonito, por que não? E foram lá trocar. Eu, naquele dia, estava especialmente entediado e me afastei, olhando sapatos sem me interessar por eles. Na verdade, nem parece que a sapataria foi uma tradição na minha família. Meu trisavô aprendeu a ser sapateiro em Viena e depois montou uma fábrica e oficina no Brasil. Ensinou tudo ao seu filho, que levou adiante o negócio. E eu, hoje, calço mal, muito mal.

Fui então até a porta da loja. Era um shopping center. Para a minha sorte, logo em frente havia uma livraria. Deixei as duas escolhendo seus sapatos e sorrateiramente parti para lá. Ah, que maravilha! Aquele sim era o meu lugar. Gosto de livros, embora não tenha muitos - são caros pra mim. Mas leio bastante, e me considero capaz de fazer algumas considerações até aceitáveis sobre as minhas leituras. E às vezes, até sobre o que não leio. Numa livraria, ainda que não compre nada, consigo mais informações sobre escritores e as coisas que escrevem. E ainda oriento os empréstimos que depois farei em uma biblioteca.

É o tipo de lugar em que poderia tranquilamente passar algumas boas horas, sem ver o tempo passar. Só que, desta vez, não fiquei muito tempo, pois logo as duas mulheres vieram atrás de mim - parece que na loja não havia o número que uma delas calçava. E quando elas me encontraram diante de uma prateleira, folheando um livro e babando pelos outros, não tive dúvidas e tasquei essa grave sentença, absolutamente verdadeira: "Esses aqui são os meus sapatos". 

Um livro seria provavelmente o que eu pediria em um amigo oculto - e provavelmente seria o único a fazer coisa semelhante. Não quero dizer com isso que eu seja uma pessoa mais bacana apenas porque peço um livro no lugar de um sapato. Acho, inclusive, que eu seria uma pessoa muito mais bacana se, além dos livros, entendesse mais sobre sapatos. Mas também não posso deixar de lamentar que não nos ocupemos de livros com a mesma frequência de um artigo do vestuário.

Em todo caso, amigo leitor, caso venha a me tirar em um amigo oculto nesse final de ano, já sabe o que irá me agradar. Compre um livro. Não qualquer livro, naturalmente. Nada de auto-ajuda. De preferência, evite os best sellers do momento. Se me vier com A Cabana, eu volto lá correndo pra trocar. Não é o meu número. Poesia, eu tenho dificuldade. Direi tudo de uma vez: compre um livro de crônicas. Mas nada de Martha Medeiros, por favor. Nem Clarice. Eu gosto da Clarice, mas não a toda hora. 

Ah, quer saber? Dê-me um vale-presente e estamos entendidos. 

sábado, 10 de dezembro de 2011

Flamengo é puro amor

Vim parar em Brasília, que é, em última análise, uma extensão do Rio de Janeiro. Dela, não herdou apenas a condição de capital do Brasil, mas também a torcida pelos times de futebol. E quando falo time de futebol leia-se, quase sempre, Flamengo. Por isso, imagino que viria bem a calhar nesse final de ano presenteá-los com livros como “Flamengo é puro amor”, de José Lins do Rego, que eu li há pouco, e isso sem ser flamenguista.


Zelins, como também era conhecido, escreveu mais de 1.500 crônicas esportivas entre os anos de 1945 e 1957. Infelizmente, não foram lidas todas elas antes de selecionar quais entrariam para o livro – alegou-se “tempo escasso para edição”. Nas que mereceram uma leitura e foram aprovadas pelos editores, Zelins se mostra um cronista esportivo que, mais do que tudo, defendia os interesses do Flamengo. Em outras palavras, ele não se escondia atrás da imparcialidade, como acontece com tantos cronistas hoje em dia.


Por outro lado, Zelins não praticava o mero colunismo de torcedor, em que o fanatismo impede qualquer tipo de concessão aos méritos dos times rivais. Ao contrário, é possível encontrar crônicas bastante respeitosas em relação ao Vasco e ao Fluminense, inclusive se posicionando criticamente sobre problemas específicos desses clubes. Mas nem por isso Zelins deixava de lado a possibilidade de provocar os amigos que torciam por outros times. É um bom exemplo disso a crônica em que tenta provar à vascaína Rachel de Queiroz que, no fundo, ela tem tudo pra ser flamenguista.


As crônicas são curtíssimas, normalmente três ou quatro parágrafos. Não deve se esperar de Zelins grandes (e chatas) abordagens técnicas e táticas do futebol da época. Ele não era um intelectual do esporte. Era tão do povo quanto o seu Flamengo. E conseguia nessas poucas linhas passar uma visão pessoal bastante atraente sobre os jogos, os personagens e os episódios que presenciou – a crônica, afinal, também é registro histórico.


Zelins não parece ter demorado a perceber que as suas crônicas causavam repercussão muito maior do que os seus romances. Uma palavra mais apaixonada aqui, uma provocação ali, e o cronista poderia ser alvo de vaias e retaliações no estádio – certa vez, chegou inclusive a ser ameaçado de morte por torcedores mais exaltados do Botafogo. Estamos, afinal, falando de futebol. Ou seja, de paixão. E as crônicas de Zelins também são paixão, com todos os exageros e excessos que a acompanham. Elas representam uma faceta importante do autor, e significativa o bastante para não ser esquecida.


É preciso mencionar ainda as notas históricas, feitas por Marcos Rocha para contextualizar as crônicas. Sem dúvida uma iniciativa importante, mas infelizmente estão muito mal localizadas – ao final do livro, obrigando o leitor a procurá-las ao término de cada crônica. E mais do que notas informativas, elas por vezes chegam a ser comentários – inclusive, maiores do que as próprias crônicas. Às vezes dava preguiça procurá-las.


José Lins do Rego entrou para a Academia Brasileira de Letras em 1955. Antes, havia publicado crônica dando a entender que não era possível conciliar o seu Flamengo com os luxos e solenidades da Academia. Quanto tomou posse, Zelins fez um discurso em que simplesmente destruiu todos os méritos do seu antecessor, Ataulfo de Paiva.


Se Zelins tinha restrições à Academia, talvez até ficasse satisfeito ao ver que o seu Flamengo também passou a ser argumento contra ela. Isso porque, na homenagem que recebeu da ABL no começo deste ano, receberam a medalha Machado de Assis os ilustres Ronaldinho Gaúcho e Wanderley Luxemburgo – futebolistas que vieram se somar a todos os demais motivos que colocaram a Academia em total descrédito.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Um assalto

Imagino que em alguns lugares do Brasil as coisas ainda sejam mais tranquilas. Poucos lugares, talvez. Mas ainda não é todo mundo que tem uma história de assalto para contar. E até algum tempo, eu era como o Cristóvão Tezza: jamais havia sido assaltado, a não ser pelas instituições oficiais – o Governo, o Estado. Só que um dia as coisas mudaram. E não foi aqui em Brasília, como se poderia supor. Foi em Curitiba, a mesma Curitiba que até hoje poupou Tezza. Pois a mim não poupou.

Eu estava em uma Feira do Livro no SESC. Já havia ouvido uma palestra com o Moacyr Scliar, outra com o Daniel Piza, e naquela noite fui ver a Marina Colasanti, que eu não conhecia – não sabia nem que era mulher do Affonso Romano de Sant’Anna. Bom. Mas fui ver Marina, e ela falou algumas coisas interessantes sobre a crônica.

Marina Colasanti me deve um celular Sony Ericsson velho
Destacou a importância dos links com o mundo externo, da ironia, da agilidade e da fuga dos lugares-comuns. Disse que gostava da crônica vinculada ao noticiário. Chamou a crônica de gênero a cavalo – um pé em cada estribo. Falou que crônica grande demais prejudica o leitor, e lembrou que há confusão na imprensa entre crônica e colunismo. E disse ainda algumas besteiras, das quais a maior foi que a crônica não é literatura, mas jornalismo bem escrito.

Anotei tudo isso em uma agenda. Quando acabou a conversa, eu fui um dos primeiros a sair de lá. Passava das 21h, e eu queria chegar logo em casa. Meu pensamento era escrever ainda aquela noite um texto sobre a palestra para publicar em meu blog. Comecei então a caminha para pegar o meu ônibus – eu precisava caminhar um bocado, pois iria do Sesc até a Praça Santos Andrade. E mal tinha saído de lá quando vi no outro lado da rua dois rapazes que poderiam muito bem ser suspeitos. A rua estava escura. A canaleta do ônibus biarticulado era logo ao lado. Os rapazes vieram na minha direção e alguma coisa na expressão deles dizia que eles não estavam a fim de discutir literatura.

Tive certeza disso quando eles me alcançaram e um deles apontou uma faca para mim e disse: “Passa o celular”. Imaginei que ele não estava se referindo ao número. Não quis verificar se sua faca estava carregada, e por isso resolvi entregar o celular – e entreguei com uma incrível calma, meio aborrecido, como se estivesse pagando os meus impostos.

Era um modelo antigo e estava sem crédito. Se duvidar, até sem bateria. Para não sair no prejuízo, eles resolveram ainda levar uns R$ 30 que eu trazia comigo. Revistam a minha mochila. Viram lá dentro a minha carteira – vazia, pois meu dinheiro estava no bolso. Feito isso, deixaram o resto pra trás e se despediram, pois vinha chegando gente.

E quem chegava era uma mulher, que também havia assistido a palestra com a Marina Colasanti. Ela reparou que havia algo estranho e então perguntou se eu havia sido assalto. Confirmei e ela então se ofereceu para pagar a minha passagem. Recusei: eu ainda tinha R$ 2 que os assaltantes não conseguiram achar. E continuei caminhando até o ponto.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Rubem Braga nas entrelinhas

Aqui em Brasília não pega a TV Cultura. Foi por isso, e só por isso, que eu não tomei conhecimento da matéria do programa Entrelinhas sobre o Rubem Braga. Foi há duas semanas. E isso quer dizer pouco tempo, considerando que eu achei por mero acaso. A descoberta não poderia ser melhor, pois não são muitas as matérias sobre a crônica, e menos ainda aquelas em que o Rubem fala – foi a primeira vez que o ouvi.


Antes de tudo, preciso dizer que Rubem é o meu autor favorito. Aos 17 anos, eu li “A Borboleta Amarela”, e achei tão diferente de tudo que havia lido, e fiquei tão cheio de amor pela vida, e vinha tão a calhar com minhas melancolias, que logo se tornou o meu autor favorito – e mais: foi o que me fez achar que devia escrever também.

De lá pra cá, li todos os livros e boa parte daquilo que se escreveu a seu respeito. Cheguei até mesmo a fazer a minha monografia de jornalismo sobre ele – ocasião em que tentei livrá-lo de alguns lugares-comuns da crônica. Acho que não tenho amigo a quem não tenha feito propaganda dos seus textos. Sou eu, inclusive, o dono do seu perfil no Twitter.

Foi então com felicidade que assisti a uma matéria tão bem feitinha sobre ele. É verdade que não destaca a importância do jornalismo para a produção dos seus textos. Mas vá lá. Em termos literários, é uma matéria bastante simpática. Diz que o Braga andava “meio sumido das discussões literárias”, o que certamente acontece porque o tipo de texto que fazia não era propriamente literatura – por isso mesmo, não pode ser um gênero menor.

Destaca-se ainda a simplicidade do cronista e a sua habilidade em falar de coisas da natureza e das “tristezas e perturbações da condição do bicho homem”. E o vídeo tem o mérito de trazer o próprio Rubem falando em 1982 sobre a sua infância, classificada como normal – apesar das exaltações em seus textos. “Depois é a que gente vê que foi feliz”, justifica. Tomava banho de rio, roubava fruta, jogava futebol e nas férias de fim de ano ia pra praia. O cronista também lembrava com alguma ironia sobre o seu único livro de poesias: “É um titulo muito original, chama-se Livro de Versos”. Essas são algumas das poucas frases que ouvi até hoje da boca do próprio Braga.

São lembradas exaltações feitas por Manuel Bandeira e Antônio Cândido, e há um trecho de Paulo Autran interpretando “Aula de Inglês”, uma das crônicas mais conhecidas e deliciosas do Braga, que nos deixa o gosto de assistir a versão na íntegra. Ao final da matéria, uma bela interpretação de “Procura-se”, quando o cronista procurava um caderninho azul, “escrito a lápis e tinta e sangue, suor e lágrimas, com setenta por cento de endereços caducos e cancelados e telefones retirados e, portanto, absolutamente necessários e urgentes e irreconstituíveis. Procura-se e talvez não se queira achar”. Linda!

Acho que falta muita leitura crítica ao Braga ainda. Diria, inclusive, que falta muitas leituras não-críticas, como essa do Programa Entrelinhas – que tem o mérito de trazer à memória um escritor que problematizou os gêneros do jornal e da literatura. Mas hoje eu não quero pensar em nenhum problema, em nenhuma teoria. Estou feliz porque se lembraram do Braga. Estou feliz porque achei esse vídeo.

E também porque hoje é sábado, eu acabei de almoçar e meus amigos vão bem.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A simpatia é uma zebra

Há aqui em Brasília alguns micro-ônibus (ou seria microônibus? ou microhônibus?) que são popularmente conhecidos como zebrinhas. E chamam-se assim porque são vermelhos com listras brancas – eu sei que as zebras não têm essas cores, mas a semelhança está nas listras. E como são pequenos, levam ainda o diminutivo no nome.

Zebrinhas. Há ainda outras particularidades: não existem cobradores nas zebrinhas. Até porque, não haveria espaço para eles. Quem recebe o dinheiro da passagem é o próprio motorista – que frequentemente se vê obrigado a dar o troco enquanto dirige.

Em seguida, podemos passar pela catraca e nos acomodar. É nessa hora que, mais de uma vez, percebi pessoas olhando intrigadas para o final do ônibus. Isso porque perceberam que não existe outra porta. A única porta de uma zebrinha é a de entrada.

Na hora de sair, é preciso passar pela catraca novamente, agora para o outro lado. É comum que as pessoas estejam querendo sair justamente no momento em que outras estão querendo entrar. Mas até que, de um jeito ou de outro, elas conseguem se entender.

Algumas pessoas sequer chegam a passar para o lado de lá da catraca. Percebem que não há mais lugares vagos e ficam por lá mesmo, na parte da frente do ônibus. O motorista deixa, desde que virem a catraca – é preciso registrar que fizeram a viagem.

Não é apenas no nome e no tamanho que a zebrinha é simpática: as pessoas também se tornam mais acessíveis dentro dela. Isso fica claro no momento de descer do ônibus, quando boa parte delas – muita gente mesmo – decide agradecer ao motorista. Alguns vão ainda mais além e desejam a ele um ótimo dia de trabalho.

E isso é feito por pessoas que, afinal, pagaram para receber aquilo que o motorista está oferecendo. Não é nada mais do que o seu serviço. Ainda assim, as pessoas sentem vontade de agradecer e dizer alguma coisa simpática ao motorista. E dizem.

Por vezes, o passageiro nem puxa a cordinha. Vai logo passando de novo a catraca e fica ao lado do motorista. “È nesse mesmo?”, pergunta, querendo saber em qual parada irá descer. A pessoa confirma, agradece, e o motorista diz retribuiu com outra simpatia.
 
Está claro que não é isso que acontece nos outros ônibus – aqueles com tamanho normal, com cobrador e com mais de uma porta. Na verdade, não é o que acontece na maior parte dos lugares: a simpatia, quando acontece, é sempre inesperada. É sempre uma zebra.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Do verbo carpinejar

Houve o dia em que algum crítico literário, provavelmente pensando em Rubem Braga, disse que a crônica era a poesia do cotidiano. Alguém foi mais além e reparou que havia semelhanças entre ela e o poema em prosa. Fabrício Carpinejar parece ter concordado com tudo isso, pois não deixa de ser poeta no meio das suas crônicas. Lendo Canalha!, que ganhou até Jabuti, percebo que boa parte de suas frases, e principalmente de suas conclusões, poderiam muito bem ser versos - têm estrutura, dimensão estética e exageros suficientes para isso.

E ainda por cima têm o amor como o tema mais frequente. Carpinejar é um conselheiro sentimental, mas sem a mesma graça e humor de um Antônio Maria. Sua sinceridade não deixa muito espaço para a ironia - ingrediente tão valorizado na crônica como a poesia. Mas eis o seu mérito: ele não teme parecer infantil, sensível, romântico e sentimental - é homem, tem cérebro masculino e não esta interessado em propagar a sua virilidade. Nem por isso ele a deixa: apenas tem coragem de mostrar que também pode e gosta de se emocionar.

Há momentos em que parece um Artur da Távola de revista adolescente - pontuando, aqui e ali, verdades e sutilezas dos nossos relacionamentos, mas preferindo largamente falar sobre os romances, a vida a dois, o cotidiano de um casal. Isso, depois de um certo tempo, cansa - a mim, pelo menos. Não hesitei em pular algumas frases e parágrafos. É possível que o problema esteja comigo (não vivo hoje uma vida a dois). Mas talvez não seja apenas por isso que eu enxerguei links mais ou menos forçados no começo de algumas crônicas: episódios que estão lá apenas para introduzir uma discussão sobre relacionamento.

Às vezes lembra um Paulo Mendes Campos fazendo suas experiências formais. É um jeito literário de fazer crônica. Carpinejar vem de uma geração que já não precisa mais trabalhar em jornal para escrever seus textos. Pode mandar seus textos de casa. Não vive a redação, o ambiente do jornal. Ou seja: está naturalmente mais inclinado a fazer literatura do que jornalismo. Mas deste último, herda a realidade - não há ficção - e a velha missão de colocar em evidência coisas do dia-a-dia que passariam despercebidas sem a ação do cronista - a tampinha do leite, o guarda-sol, unhas, meias brancas, pantufas.

Carpinejar em outro momento
É curioso que Luis Fernando Veríssimo esteja lançando obras com 41 crônicas, enquanto que livros como Canalha! contam com o triplo disso. Talvez aconteça o mesmo que Xico Sá diz, na orelha do livro, acontecer com os feios: ao invés de vencer por nocaute, tentam a vitória por pontos. Quem sabe Carpinejar não esteja fazendo calhamaços de crônicas apenas para vencer por pontos? O raio é que quase consegue. A partir da página 200, mais ou menos, ou as suas crônicas ficam melhores, e os episódios do casal mais singelos, as reflexões mais profundas, ou - bem possível - a gente se acostumou com o cronista.

Outro dia eu reparei que os meus cronistas favoritos que ainda escrevem já passaram dos 60 anos - e vários deles passaram dos 70. Carpinejar ainda está na casa dos 30. Não sei como continuará escrevendo, e também não sei como continuarei lendo o que escreve. Mas por enquanto não será ele o nome da nova geração que abraçarei como o futuro do gênero. Seu estilo provavelmente representa uma tendência na crônica, só que ela ainda não me conquistou. Carpinejar tem muitos fãs, e também tenho um certo receio de que façam com ele o mesmo que fazem com Clarice e Caio Fernando Abreu.

Não pude deixar de reparar também: é possível alguém escrever um livro chamado Canalha! sem citar Nelson Rodrigues.

sábado, 26 de novembro de 2011

Era cego e não enxergava nada

Vinha vindo o cego, dando bengaladas a torto e a direito. Eu, que não tinha muito a fazer, fiquei observando. Costumo me interessar por eles. Entre todas as coisas que afetam um cego, a que mais me comove é o fato de não enxergarem nada. Estávamos na Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, aquela em que o governador Agnelo se faz de cego e ainda não dignou a consertar as escadas rolantes. Bom. Eu tinha tempo livre e - já disse - fiquei observando o cego.

Era mas ou menos jovem. Uns trinta anos, talvez. E nem por isso era menos cego. Vestia uma camisa amarela que, caso enxergasse, talvez não vestisse. Mas eu dizia que ele vinha vindo, dando bengaladas. Desde o começo, percebi que a sua trajetória não era normal. Ele não seguia o mesmo fluxo das pessoas que diariamente se atropelam na Rodoviária. Ao contrário, caminhava na direção da pista em que os ônibus, também eles, se atropelam diariamente.


Na verdade, o cego vestia amarelo.
Mas verde fosse, e não perceberia nada.
De repente, sua bengala alcançou a vaga de estacionamento de um ônibus. Percebeu que nela o chão era mais baixo e então parou. Olhou para um lado (Perdão! Quis dizer que ele se virou para um lado), como se procurasse saber onde estava. Virou-se também para o outro. E achou que não estava ainda no lugar certo. Voltou então a caminhar, se aproximando pouco a pouco da pista onde os ônibus passavam - e ele certamente estava escutando o barulho que faziam.

Mas por um momento, eu desconfiei dos outros sentidos daquele cego. E se fosse surdo também? E se, embora ouvindo, fosse distraído o bastante para entrar no meio dos ônibus? E se - meu Deus! - ele acabasse sendo atropelado, ali, na minha frente? Imaginei que eu era o único na Rodoviária a perceber os seus movimentos. Se acontecesse alguma tragédia, eu seria o único a me sentir culpado - afinal, eu era o único que estava em condições de intervir.

E eu ainda hesitava entre intervir ou confiar nos sentidos do cego, quando um homem - um jovem, devo dizer que era um jovem - se aproximou e perguntou a ele se por acaso precisava de alguma ajuda. Na ocasião, o cego já havia dado meia volta e estava retornando - ele jamais iria descer para o meio da pista. Disse então alguma coisa ao ouvido do jovem, e que eu não ouvi. Ele então agarrou o seu braço desajeitadamente ao do cego e foram os dois caminhando.

Só o soltou quando foi pedir informação sobre a parada do ônibus que o nosso amigo cego queria tomar. Em seguida, voltou a agarrá-lo e caminharam até a parada, que ficava logo ao lado - o cego, afinal, não estava muito longe dela. Uma vez chegando lá, o jovem soltou o cego, que deve ter agradecido, e então voltou para a namorada, que o aguardava em outra parada, e voltou a comer tranquilamente o seu sanduíche, que não havia largado durante todo o episódio.


Cego não viu a quantidade de gordura
trans nos pastéis da Rodoviária
Eu me distraí olhando outra coisa, e depois eu percebi que também o cego estava comendo alguma coisa, talvez um pastel. Não imagino que ele tenha saído do seu posto e procurado uma lanchonete - isso seria tornar vã a ajuda do jovem. Atrás dele na fila de ônibus estavam duas mulheres, que também faziam os seus lanches, e imagino que sejam elas a explicação do pastel que o cego comia, com satisfação.


E mais não tenho a contar, pois mais não aconteceu até ele subir ao ônibus. Fiquei apenas com a impressão de que, de vez em quando, ainda é possível esperar gestos gratuitos das pessoas. E senti vergonha por não ter sido eu o jovem a carregar o cego até a sua parada - o outro agiu justamente no momento da minha hesitação. Convenhamos: é preciso fazer alguma coisa a mais do que apenas ficar observando e depois escrever crônicas.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Escrito com a força do pensamento

Eram três ou quatro homens e vestiam ternos, então achei por bem dar crédito ao que falavam. Faziam parte daquele seleto grupo de pessoas capaz de dizer que alguma coisa “causou espécie”. Certamente há alguma piada a ser feita sobre essa expressão – provavelmente envolvendo Darwin – mas não serei eu a fazê-la, porque senão corro o risco de perder alguma parte importante da conversa. E os homens falavam sobre tecnologia. Um deles parece que tinha um tablet, e o assunto geral era sobre como estava mais fácil a vida de quem, como eles, precisava digitar coisas.

Clonagem é um método que
também causa espécie
Foi então que um deles informou que já estavam sendo feitos estudos para que em breve possamos escrever sem cansar os nossos dedos: apenas pela força do pensamento. Bastará olhar para uma tela, nos concentrar, e logo veremos escrito nela tudo o que pensamos. “Será uma revolução educacional”, disse um deles. Nada sei, nada sei. Apenas sei que, se isso tudo for verdade, precisarei me adaptar. Isso porque eu costumo pensar muita coisa. Arrisco dizer que não faço outra coisa desde que me levanto. E me habituei de tal maneira a esse vício que, se fosse conectado a algum aparelho assim, eu fatalmente acabaria pensando coisa que não devia e embaralhando tudo. Isso porque não consigo pensar uma coisa de cada vez – prova disso são as vinte janelas abertas no meu computador.

Mas apesar de achar que não me daria bem, eu resolvi fazer um teste, até para treinar um pouco e não fazer feio quando essa tecnologia chegar. O que vai se ler agora é a história do Chapeuzinho Vermelho escrita com a força do pensamento. Vamos a ela.

Chapeuzinho Vermelho no
pensamento daltônico
Chapeuzinho Vermelho era uma menina que, bem, usava um chapéu vermelho. E provavelmente pequeno. Delícia esse biscoito de queijo. Ela atravessava a floresta para entregar uma cesta de pães para a sua avó doente. Vou pegar mais um. O caminho da floresta se dividia. Tenho que carregar meu celular. E mudar de canal. Novela ou Ratinho? Terrível. O caminho da floresta se dividia em dois. Um era longo e seguro, o outro era curto e perigoso. Ratinho mesmo. A menina toma o caminho curto e é vista por um lobo. Ele sugere que Chapeuzinho vá pelo outro caminho. Parece quinta, mas é quarta ainda. Amanhã tenho que. Ela segue a orientação do lobo e volta trás. Mas enquanto isso, o lobo chega pelo. E o Aldo Rebelo, que pode ser ministro? É o fim da rosca. Nem vi o jornal hoje. Mas enquanto isso, o lobo chega pelo caminho curto à casa da avó. E a devora completamente. Sacanagem. Que droga, Ratinho, desde ontem que você promete revelar o terrível segredo desse homem. E a devora completamente. Orlando Silva citou Neruda. O lobo se vestiu com as roupas da avó e aguardou Chapeuzinho. Quando ela. Coceira boba essa. Quando ela chega, notou que a avó estava estranha. Mas também, só faltava não notar. Parou a chuva. Meu, que meleca eu fiz agora? Botei sem querer aquele bagulho que monitora a formatação do Word. Agora tudo que escrevo sai em vermelho. Pelamor. Copiar tudo e passar pra outro arquivo. E falou para ele: “Por que esses olhos tão grandes?”. Não contou? Não contou o segredo hoje também? Tomá banho, Ratinho. Isso é típico de. E o lobo respondeu “É pra te ver melhor”. Quer saber, enjoei dessa crônica. Vou é aproveitar enquanto não existe tecnologia nenhuma. E viveram felizes para sempre. Fim. 

Mas o Aldo Rebelo é dose, hein.

Brasília, 27/10/2011

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Minha entrevista com Aldo Rebelo

- Boa tarde, ministro Rabelo.
- Rebelo.
- ...
- Rabelo é o outro.
- Ministro, por que escolheram justamente o senhor para a pasta do Esporte?
- Bem, começa que eu sou palmeirense.
- Já está em atrito com o governo.
- Mas eu não tenho que mudar minha posição pessoal. E em todo caso, sigo o governo.
- Falávamos dos motivos para a sua escolha.
- Para mim, futebol e política andam juntos. Eu até escrevi "O Jogo Vermelho". 
- Não li. É um manifesto comunista?
- Fala sobre um Palmeiras e Corinthians que arrecadou dinheiro para o Partido Comunista.
- Pra quê?
- Queriam financiar algumas campanhas políticas.
- A Veja sabe disso?
- ...
- Quais serão suas prioridades nos preparativos para a Copa do Mundo?
- O campo.
- O campo?
- A sociedade não pode virar as costas para o campo. Nossa música vem do campo, nossa culinária vem do campo. E a nossa agricultura, naturalmente.
- Entendi. O futebol vem do campo também.
- Sem campo ninguém joga bola. 
- E o que pretende fazer pela qualidade do campo nessa Copa?
- Bem, eu acho que não devemos proibir o cultivo neles.
- Cultivo no campo?
- Como é que vamos proibir a agricultura em várzea? É algo que existe no mundo inteiro. 
- Os campos serão de várzea?
- Há 2 mil anos se planta arroz em várzeas da China e da Índia. Nunca reclamaram, e continuam plantando até hoje.
- Mas eles não jogavam futebol nessa época.
- Temos que ter cuidados, mas você não pode proibir o uso dessas áreas.
- Não dá pra fazer isso em outro tipo de várzea?
- Se o conceito de várzea mudar, todos os produtores passarão à ilegalidade. 
- Bom. Mas o senhor deve saber que a Fifa não permite isso.
- As regras do futebol são muito rigorosas. Deixa que o Ministério Público cuida disso.
- Mas o senhor tem certeza de que isso não vai atrapalhar as partidas?
- O que está em jogo não é apenas futebol. Estamos falando de como o Brasil dispõe do seu solo. Não podemos deixá-lo na mão dos interesses de grandes países que virão jogar aqui. 
- E quanto aos convênios com as ONGs? Foi isso que derrubou o Orlando Silva.
- As ONGs agem a favor de interesses estrangeiros. Querem ditar regras aqui no Brasil.
- E o que elas querem?
- Impedir o nosso sucesso no campo.
- Argentinos, talvez?
- Americanos e europeus. Foram elas que quebraram o campo africano.
- Na última Copa? 
- Não podemos deixar que façam o mesmo aqui. 
- Pra terminar, ministro, o que pretende fazer com os estádios após a Copa?
- Quem preservou, terá benefícios. Quem não preservou mas já estava construindo no tempo em que eu não era ministro, será anistiado. 
- Entendi. Obrigado, ministro. Digo, ainda é ministro, não?

Lendo Lessa

Leio Lessa em Londres. Ivan Lessa, cronista da BBC Brasil. Ando lendo muito cronista, gente que eu nunca havia lido. E Ivan Lessa foi uma das boas surpresas que tive nesses últimos meses. Arrisco citá-lo entre os nossos grandes cronistas vivos - ao lado de gente aclamada como o Veríssimo (não pare de escrever, Veríssimo!), e outros menos, como o Ruy Castro, o Affonso Romano, o Humberto Werneck, o David Coimbra, e provavelmente outros que eu me esqueci agora, ou que ainda não li.

Autor seria um dos principais
candidatos do Partido dos Cronistas
Antes de mais nada, é preciso dizer que Lessa escreve pra internet - ou Anete, como ele chama. Isso é curioso, muito curioso. Outro dia, eu entrevistei por e-mail o Affonso Romano e ele cogitou justamente isso: "Vai ver que a crônica, no Brasil sobretudo, pode desgarrar-se do jornal". É claro que estamos falando de cronistas profissionais - para nós, os mortais, ela nunca precisou do jornal. Mas é interessante como a a crônica para internet, ou a crônica publicada em blogs, continua influenciada pela imprensa.

Isso se vê tanto na escolha temática quanto no estilo. Vejamos o caso de Lessa. O tema de suas crônicas surge, parece-me que sempre, do noticiário. Em "O Luar e a Rainha" revemos notícias que pipocaram na imprensa internacional entre 2000 e 2004 - ou seja, revemos os atentados do 11 de Setembro e passamos pela Guerra do Iraque, para ficar nas notícias mais importantes.

Lessa não é o homem
que carrega o casaco
Em meio a isso, mergulhamos nos fait divers, nas pesquisas e estatísticas absurdas e nos episódios insólitos - pois eles também acontecem em Londres. E deles Lessa extrai textos divertidos que só aos mais desavisados pareceriam superficiais. Está lá o questionamento da imprensa, suas escolhas, seus métodos e suas lógicas - e especialmente na "imprensa impressa", não na Anete.

Seus textos não são muito longos - ou, antes: são curtos mesmo. Eu viro a página e a crônica acaba na outra. Não poderia ser maior do que isso, já que originalmente são publicadas em um sítio - como o do Pica Pau Amarelo, lembra Lessa. Isso facilita a fluência, mas não seria nada sem o estilo do autor: há concisão, domínio das palavras, leveza e, não menos importante, visão crítica.

Somado a isso, temos a visão de um brasileiro que há uns 30 anos não volta ao Brasil. Está lá, em Londres, mas tão estrangeiro como antes - seus amigos, amigos mesmo, são outros brasileiros. E nos oferece a visão que só alguém de fora pode dar de nós mesmos - e, naturalmente, corrige (ou não) a nossa visão do mundo britânico, suas realezas e seus escândalos.

Se nada disso o convenceu a ler Ivan Lessa ainda, eu poderia citar alguma pesquisa, alguma coisa que os cientistas estão falando, que 87% dos leitores que leram o livro pela manhã, tomando café, numa quarta-feira de novembro, consideram o livro ótimo, bom, ou regular, e que 78% dos que acompanham seus textos na Anete conseguiram ler até o final sem mudar de sítio.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Luis Fernando x Veríssimo

E eis que o dia mal havia começado, e ainda por cima um dia de chuva, quando fui avisado de que o Veríssimo estava querendo parar de escrever. Fui ver então do que se tratava e li a matéria que o Estadão fez com ele. E lá estava, já no título da matéria: "Luis Fernando Veríssimo pensa em parar de escrever". A notícia, como se vê, era bombástica. Digna de capa do jornal. E embaixo desse  título tão dramático, estava a seguinte gravata (ou, talvez, bravata): "Aos 75 anos, o escritor diminui o ritmo e diz que está mais para depressivo do que para bem-humorado".

Sem ler a matéria, eu chegaria às seguintes conclusões: Veríssimo está velho, muito velho, talvez doente, certamente cansado, não está mais em condições de escrever o que quer que seja. E mais: anda depressivo e cabisbaixo, não sai de casa, talvez passe o dia deitado na cama, quase não tem vontade de comer, e tudo isso provavelmente porque sabe que não consegue mais escrever. Mas como eu sou um pouco desconfiado de jornalistas (exatamente por ser um deles) eu resolvi ler o texto da matéria, e não demorei a perceber que, em grande medida, havia um dedo do editor para que o assunto chamasse a atenção.


Ombros caídos indicariam
desânimo com a literatura
Pra começo de conversa, uma boa notícia: Veríssimo não está sofrendo de depressão. O que ele disse - e o bom é que o próprio jornal expõe suas contradições - é que o humor dos seus textos está mais para depressivo do que para bem-humorado. Veríssimo diz que não tem vocação para fazer rir, e sim técnica para fazer textos divertidos. Acho verdadeiro. Anton Tchékhov já havia observado um dia que as pessoas melancólicas costumam escrever textos engraçados. Não sei a quantas andas a melancolia do Veríssimo, mas sei que ele é introvertido o bastante para devolvê-la transformada em ironia e auto-ironia - ou humor.

A jornalista diz então que esse lado depressivo não aparece nas suas crônicas, mas diz isso provavelmente por não ser uma pessoa depressiva - é claro que as piadas fazem rir, mas elas costumam esconder pequenas angústias do cotidiano. E então fala sobre a diminuição do ritmo de produção das crônicas de Veríssimo, para em seguida fazer o terrível anúncio: ele pensa em se aposentar. É então o próprio Veríssimo que diz: "Penso em parar de escrever. O problema é que o dinheiro que ganho com os direitos autorais dos livros não é o suficiente para garantir minhas contas".

Não devemos subestimar a capacidade de um jornalista em entender errado o que dizem seus entrevistados, mas vamos admitir que as aspas e o contexto da frase fossem tais e quais aparecem na matéria. Muito bem. Veríssimo cogita parar de escrever. E diz que só não para porque precisa se sustentar - uma vítima do capitalismo, afinal. Estamos falando do escritor que mais vende livros no Brasil. Pois ele, justamente ele, diz que não consegue se manter com aquilo que já escreveu. Precisa continuar produzindo crônicas para que os jornais lhe garantam a sobrevivência. Ou seja, ser escritor é pior que ser jornalista.

Outro dia andaram brigando o Zezé di Camargo com o Luciano. Ameaçaram terminar a carreira. Ninguém aceitou. Choveram pedidos para que a dupla continuasse. E os dois se acertaram e continuam cantando juntos. A ameaça do Veríssimo certamente não terá o mesmo apelo popular, mas conseguiu chegar aos Trending Topics, por exemplo. E deve render mais manifestações nas redes sociais, e novas entrevistas do autor, para esclarecer o episódio. Tudo que podemos esperar é que o Luís Fernando se acerte definitivamente com o Veríssimo - e, de preferência, sem precisar de Rivotril nenhum.