Essa história de ter mais amigas mulheres do que homens volta e meia me coloca em enrascadas. Não é raro o dia em que entro com elas em lojas de roupas, sapatos ou bolsas - coisas muito necessárias e bonitas, mas que nem por isso chamam muito a minha atenção. Sei que existem homens que gostam e, mais do que isso, que entendem do assunto. Não é o meu caso. De qualquer forma, eu as acompanho, e vou dando palpites aqui e ali, todos muito sinceros, embora sempre embasados no senso comum. Mesmo assim, elas levam em consideração. Opinam. Discutem. Gostam de estar ali e querem falar sobre isso.
Na última vez em que isso aconteceu, eu estava com duas mulheres em uma loja era de sapatos. Elas queriam trocar um presente de amigo oculto. O sapato servia direitinho, mas, se há a possibilidade de trocar por um mais bonito, por que não? E foram lá trocar. Eu, naquele dia, estava especialmente entediado e me afastei, olhando sapatos sem me interessar por eles. Na verdade, nem parece que a sapataria foi uma tradição na minha família. Meu trisavô aprendeu a ser sapateiro em Viena e depois montou uma fábrica e oficina no Brasil. Ensinou tudo ao seu filho, que levou adiante o negócio. E eu, hoje, calço mal, muito mal.
Fui então até a porta da loja. Era um shopping center. Para a minha sorte, logo em frente havia uma livraria. Deixei as duas escolhendo seus sapatos e sorrateiramente parti para lá. Ah, que maravilha! Aquele sim era o meu lugar. Gosto de livros, embora não tenha muitos - são caros pra mim. Mas leio bastante, e me considero capaz de fazer algumas considerações até aceitáveis sobre as minhas leituras. E às vezes, até sobre o que não leio. Numa livraria, ainda que não compre nada, consigo mais informações sobre escritores e as coisas que escrevem. E ainda oriento os empréstimos que depois farei em uma biblioteca.
É o tipo de lugar em que poderia tranquilamente passar algumas boas horas, sem ver o tempo passar. Só que, desta vez, não fiquei muito tempo, pois logo as duas mulheres vieram atrás de mim - parece que na loja não havia o número que uma delas calçava. E quando elas me encontraram diante de uma prateleira, folheando um livro e babando pelos outros, não tive dúvidas e tasquei essa grave sentença, absolutamente verdadeira: "Esses aqui são os meus sapatos".
Um livro seria provavelmente o que eu pediria em um amigo oculto - e provavelmente seria o único a fazer coisa semelhante. Não quero dizer com isso que eu seja uma pessoa mais bacana apenas porque peço um livro no lugar de um sapato. Acho, inclusive, que eu seria uma pessoa muito mais bacana se, além dos livros, entendesse mais sobre sapatos. Mas também não posso deixar de lamentar que não nos ocupemos de livros com a mesma frequência de um artigo do vestuário.
Em todo caso, amigo leitor, caso venha a me tirar em um amigo oculto nesse final de ano, já sabe o que irá me agradar. Compre um livro. Não qualquer livro, naturalmente. Nada de auto-ajuda. De preferência, evite os best sellers do momento. Se me vier com A Cabana, eu volto lá correndo pra trocar. Não é o meu número. Poesia, eu tenho dificuldade. Direi tudo de uma vez: compre um livro de crônicas. Mas nada de Martha Medeiros, por favor. Nem Clarice. Eu gosto da Clarice, mas não a toda hora.
Ah, quer saber? Dê-me um vale-presente e estamos entendidos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário