segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A corrupção do bem


 Os nobres deputados do Distrito Federal aprovaram na última semana a criação da corrupção do bem. Não podendo tolerar mais os escabrosos desvios de dinheiro público na capital federal, os distritais concordaram que o melhor meio de combatê-los seria proporcionar também ao cidadão comum a possibilidade de se beneficiar com o esquema. Para alcançar tão longânime objetivo, decidiram por unanimidade oferecer um prêmio a quem denunciar casos de corrupção, e que consiste em 10% do dinheiro desviado.

A população de Brasília compreenderá que o dízimo desse dinheiro seja então desviado para o bolso de uma pessoa de bem, alguém que pesou todos os inconvenientes que a sua denúncia poderia trazer, mas por fim foi convencido pelo generoso argumento dos deputados, e observou comovido que ainda vale a pena ser honesto neste país. Também não haverá quem encontre reparo na remota possibilidade do denunciante já ter se envolvido ou se beneficiado em casos semelhantes, de modo que não será nenhuma extravagância cedermos a ela mais uma porcentagem de dinheiro público.

Sabendo que, à força de tão poderoso argumento, fatalmente surgirão muitos cidadãos dispostos a exercer plenamente a sua honestidade, os ilustres deputados, mostrando estarem realmente à frente do seu tempo, trataram de também decidir de que modo ocorrerá a divisão do dízimo em caso de várias pessoas denunciarem o mesmo caso de corrupção. Assim, ficou estabelecido que o primeiro a denunciar terá direito a 70% dos recursos da corrupção já previstos para o combate à corrupção. O segundo e o terceiro a denunciar dividirão os outros 30%, enquanto que o quarto, o quinto e todos os demais terão que se contentar com a sensação de estar fazendo a coisa certa.

Argutos observadores do comportamento humano, os distritais perceberam que o único meio de fazer com que o homem se interesse pelo coletivo é fazê-lo se interessar pelo individual. E o individual normalmente não vê problema algum em ter uma inesperada fonte de recursos financeiros, ainda que sejam 10%, pois em geral desviam-se somas avultadas, e os 10% viram facilmente muito dinheiro, donde se percebe que a Câmara Legislativa do Distrito Federal está ao mesmo tempo acabando com a corrupção e promovendo a inclusão social.

Como devidamente lembrado pelos deputados, em geral as pessoas sentem medo de denunciar casos de corrupção, pois ficam expostas e podem ter a sua segurança ameaçada. Em boa hora veio essa proposta de premiação, pois bem sabemos que com ela já não existe mais o que temer, considerando que normalmente as pessoas com muito dinheiro são também as que mais têm segurança, e a consciência disso se torna um argumento tão decisivo que, quem estava em dúvida, irá correndo denunciar até a própria mãe, se preciso for.

Dito isso, é preciso reconhecer os elevados ideais que norteiam a atividade legislativa no Distrito Federal, cuja iniciativa já começa a ser imitada em cidades como Curitiba, pois também por lá parece haver cabeças iluminadas e interessadas em resolver de uma vez por todas tão nefanda questão como essa da corrupção. Nem que seja preciso comprar meio mundo, esse mal será enfim extirpado do nosso meio.  

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Parabéns, Vovô!

 Uma vez por mês o domingo era na casa da minha avó. No princípio, eu era o único o neto. Muitos outros foram nascendo com o passar dos anos, mas apenas eu vinha de longe. Era quem menos convivia, portanto, com aquele velhinho pacato e simpático que atendia pelo nome de Vovô. Nem por isso deixei de receber a sua influência. Embora não tenha notícia de que Vovô tenha escrito algum texto durante a vida, vejo muito nitidamente que sem a sua sensibilidade também eu nada escreveria. Essa sensibilidade se manifestava de muitas maneiras, nem todas naturais. De vez em quando, por exemplo, Vovô sentia o futuro.

Um dia Tio Bernardo foi visitar a família. Vovô olhou para ele e notou algo diferente. Foi o que bastou. Assim que a visita foi embora, avisou a todos: “Essa foi a última vez que vimos o Tio Bernardo”. E quando a Vó Rosa foi tomar chimarrão na casa da Vó Chica, elas que nunca se deram muito bem, Vovô já sabia: “A Vó Rosa não vai muito longe”. E, de fato, nunca mais vimos Tio Bernardo, e a Vó Rosa também não foi muito longe. Certamente há outras histórias, menos trágicas, mas também espantosas. Tia Nina, que sabia da fama de Vovô, tratou logo de exorcizar: “Deus me livre dele falar alguma coisa sobre mim!”.

Por duas ou três vezes, foi o próprio Vovô quem morreu. Ainda criança eu o visitei no hospital em que morreu pela primeira vez. Mas, como os médicos diziam, ele tinha um coração de leão. E, além disso, havia parado de fumar há muito tempo, depois de receber o ultimato de um médico. Alguns anos depois lembro que o levamos para uma consulta no Hospital de Clínicas de Curitiba, onde eu próprio trabalharia mais tarde. Eu já morava em Curitiba quando Vovô morreu pela penúltima vez. Temíamos o telefonema fatídico, que afinal não veio. Quando voltei a vê-lo Vovô explicou que realmente ia morrer, e inclusive já via o céu e para lá se encaminhava, maravilhado, quando ouviu uma voz falando que aquela ainda não era a hora.

De volta à vida, Vovô continuou o mesmo. Sentava na mesma cadeira da cozinha, ouvindo as conversas da casa, e de vez em quando intervinha com alguma frase espirituosa, meio mal-humorada, mas que nós sabíamos ser puro gracejo e ríamos muito. Não falava muito, e com frequência ficava sozinho assistindo futebol. Talvez não transparecesse, mas sei que sentia o sofrimento dos outros. Até mesmo com lágrimas. Especialmente quando deve ter se dado conta de que não nos veria mais. E dessa vez nenhuma voz fez com que ele voltasse.

A última vez que vi Vovô era Dias dos Pais. Ele faleceria três semanas depois. Era de manhã e nós viemos de longe sem avisar. Conversávamos na cozinha quando Vovô apareceu no corredor. Acabara de se levantar. Olhou para nós com surpresa, sorriu e disse que havia mesmo ouvido umas vozes diferentes, mas não imaginou que fosse a gente. Estava muito bem disposto. Dirigi-me até ele para cumprimentá-lo e dar os parabéns pelo Dia dos Pais. Vovô agradeceu, mas me surpreendeu dando parabéns para mim também. Minha avó alertou que eu não era pai ainda.

- E daí? Merece os parabéns do mesmo jeito.

E então Vovô caminhou até uma sobrinha, já idosa, que também estava como visita.

- Parabéns, Teresinha... Parabéns!

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Celebração das historinhas

Para Eduardo Galeano

As historinhas se ofereciam a Eduardo Galeano e pediam para ser contadas. Eram histórias que haviam acontecido e também que nunca aconteceram, mas que aconteceriam no momento em que fossem contadas. Havia a história do menino que descobriu o mar e disse para o pai “me ajude a olhar”. Também havia a história dos soldados que durante trinta e um anos montaram guarda para um banquinho com tinta fresca. Ou ainda a história do espetáculo de pantomima que teve mais atores do que expectadores. As histórias chegavam de todas as partes da América. Algumas surgiam por ouvir, outras nas paredes, e outras ainda nos sonhos de Helena. E a maioria vinha mesmo é do tanto-sentir. Em comum, as histórias tinham o coração – mesmo as mais fodidas, as histórias de ditadura, ditadores e ditadoriados. E as historinhas não pediam muito, apenas um ou dois parágrafos, às vezes uma ou duas frases. Eram historinhas tão pequenas, mas incendiavam a vida com tamanha vontade que era impossível olhar para elas sem pestanejar, e quando chegou perto delas Eduardo Galeano pegou fogo.  

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Riqueza inconcebível


Santuário Dom Bosco
 A primeira coisa que reparei foi o tamanho do lustre. E também que não havia mais nenhuma outra iluminação em todo o Santuário. Isso tudo, é claro, depois de ser atingido pelos vitrais azuis que simulam um céu estrelado. No altar, um Cristo enorme crucificado. E pelas laterais os rotineiros avisos paroquiais. Um confessionário com paredes de vidro me fez lembrar de outros confessionários, talvez ultrapassados, que eram antes um móvel, feitos de madeira, e com uma cortina que separava a humilhação do pecador e a autoridade do sacerdote. Um cartaz aponta a direção dos souvenirs, escada abaixo. Lembro de outras igrejas e percebo que quase não há imagens. À esquerda do altar, no entanto, uma estátua de dois metros de altura homenageia aquele que leva o nome do lugar, também padroeiro de Brasília.

Dom Bosco tem uma história muito bonita de trabalhos pela juventude, mas também de misteriosos sonhos ou visões proféticas. A um desses sonhos atribui-se, muito forçadamente, a fundação de Brasília. Em 1883, o italiano Dom Bosco foi levado em sonho para a América Latina, onde pôde enxergar a expansão de sua Congregação Salesiana, mas também numerosos metais preciosos, jazidas e petróleo ainda escondidos sob o solo. Entre os paralelos 15 e 20, foi revelado a ele que, depois de escavadas as minas do lugar, apareceria ali a Terra Prometida que jorraria leite e mel, e esta seria de uma riqueza inconcebível. O Paralelo 15 atravessa justamente Brasília, o que não passou despercebido, nos anos 50, aos defensores da mudança da capital do país para o interior de Goiás. Assim foi feito e a profecia passou a ser adotada oficialmente, sem muita contestação, pois ninguém achou mais nada digno de nota acontecendo entre os ditos paralelos.

No entanto, para desmentir a atribuição da profecia à Brasília, bastaria perceber que por aqui não emana leite e mel, a menos que consideremos os casos de corrupção. Acompanhar o cotidiano de um trabalhador de Brasília, geralmente morador de uma distante e sofrida cidade-satélite, seria suficiente para questionar a riqueza inconcebível prevista para a cidade. Chego a pensar que Dom Bosco ouviu mal, e entendeu “riqueza inconcebível” o que era apenas “calor inconcebível”. Mas reconheço que, de fato, é a Terra Prometida por JK.

Na Itália, Dom Bosco se sensibilizou com os jovens sem família, gente que saia do interior e vinha tentar a vida na cidade grande. É o caso de tanta gente em Brasília – é o meu caso. Em outro dos seus sonhos, Dom Bosco via todos os jovens do mundo e recebia a missão de guiá-los por dez colinas. Alguns puderem subir em uma carruagem chamada “Inocência”. Quinhentos, no total. Todos os jovens do mundo, mas apenas quinhentos eram inocentes. Durante o caminho, houve um acidente com a carruagem e o número caiu para 150. Os demais iam a pé, e muitos se perdiam pelo caminho, para angústia de Dom Bosco. Talvez não seja um disparate tão grande associar também esta profecia à capital do país. Não é prova de outra coisa que o Santuário Dom Bosco conte com tão poucos jovens se comparado ao prédio vizinho – a sempre movimentada Academia Dom Bosco.


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Um quarto sem piso

 Recebi uma notícia que me deixou sem chão. O piso do pequeno quarto que há três anos alugo na Asa Sul começou a se desprender e precisava ser trocado. Diz a dona do quarto que provavelmente foram os dois produtos químicos fortíssimos que ela mesma jogou no chão, pensando em facilitar a vida da mulher que deveria limpá-lo. Queria acabar com toda a sujeira. De certa forma deu certo, pois não imagino que esses azulejos voltem a ficar sujos algum dia, especialmente depois que não forem mais usados. Isso foi no fim-de-semana. Meu quarto balançava, e a dona dele, uma senhorinha entre 60 e 70 anos, se consumia em preocupação. Esse quartinho fica aos fundos de sua casa, e ela garantiu que ia me hospedar o tempo que fosse necessário para trocar o piso. Em sua cabeça, ela pensava em dias, semanas até. Disse que entendia a minha chateação. Mas eu estava achando tudo muito divertido.

Dona Lúcia, a senhorinha, mora apenas com o irmão, alguns anos mais novo. De nada lhe adiantou os sete casamentos que teve ao longo da vida. Renderam-lhe duas ou três filhas que não a visitam. Sua única visita é a de um irmão, bem sucedido, que todo final de semana aparece, fica uns quinze minutos, dá alguns conselhos e depois se vai dizendo “aquele abraço”, mas sem nunca abraçar. O irmão mais novo é um personagem curioso, e que raramente sai do seu quarto, onde escuta programas católicos e dorme de luz acesa. Vez ou outra ouço algumas, hã, altercações entre os dois. Mas ele muitas vezes presta atenção no que Dona Lúcia tem a dizer, e Dona Lúcia sempre tem muito a dizer.

Neste fim-de-semana nervoso para Dona Lúcia, ele recomendou que ela fosse à missa. Mas Dona Lúcia não quis ir, pois estava tão nervosa que mal conseguia sair do banheiro. E não bastava eu lhe assegurar que, da minha parte, estava tudo tranquilo. Na segunda-feira sai para o trabalho e, quando voltei, ouvi as novidades. Veio um homem olhar o piso e disse era coisa rápida. Arrancou o piso solto, disse que no outro dia colocaria o piso novo e ao terceiro dia eu estaria de volta. Isso tranquilizou Dona Lúcia. E eu me mudei então para um quartinho de visitas em sua casa, recebendo as boas vindas quase solenes do seu irmão.

Ouvi as boas recomendações da Dona Lúcia, recebi autorização para fazer praticamente tudo dentro de sua casa, e ela então se despediu, recolhendo-se à sua alcova. Como o irmão já estava trancado em seu quarto, assim ficamos os três naquela primeira noite juntos – ou seja, totalmente separados. Pela manhã, tomei banho e café, aprontei-me para o trabalho e não vi nem um nem outro. Que modo engraçado de se morar na mesma casa!

Bem diferente foi a manhã do outro dia, quando encontrei Dona Lúcia acordada e bastante animada. Ela morria de frio e vestia um casaco de esquimó. Achou-me de manga curta. Expliquei que frio só existe no sul. Ela ria. Sentou-se comigo enquanto eu tomava café e, em meio a gargalhadas, reviu todo o drama do piso. Eu mal abria a boca, apenas deixava sua euforia correr solta. Perguntou coisas do meu trabalho. Avisou-me da morte do Gonzaguinha – na verdade, Dominguinhos. Disse que lavaria a louça pra mim. E por todas essas coisas eu senti que me tinha como filho.