Aproveitei o Carnaval para passar uns dias em São Bento na casa do
Otto, o Bismarck das Araucárias. Como bom brasileiro, o Otto não
gosta do Carnaval – e é verdade mesmo: a maioria dos brasileiros
não gosta. Mas antes de falar de Carnaval a gente falou sobre a
Praça Getúlio Vargas. Ano passado a gente tentou, em vão, tirar
Getúlio Vargas da praça: fomos impedidos por forças ocultas. Agora
o Otto me avisou que a praça está mais pelada do que a Vênus de
Botticelli. De início não quis acreditar e disse que só me
convenceria se eu pudesse sentir as suas chagas. Pois o Otto me levou
até lá e eu vi com os meus próprios olhos a praça nuinha, nuinha.
A visão me deixou bastante desorientado e com duas ou três voltas
pela praça eu já não sabia mais onde eu estava (achei que estava
virado para a Travessa José Zipperer, mas era a Jorge Lacerda).
Quando Otto me resgatou, eu aproveitei para perguntar se não haviam
cogitado aproveitar a poda da praça para dar a ela um nome mais
condizente, mas ele foi sincero como um cavalheiro do Apocalipse:
ninguém havia pensado nisso. As árvores centenárias se foram, mas
o presidente continua lá – ele não brincava quando disse que saia
da vida para entrar na história. Vão-se as árvores, mas as
adulações são eternas.
É evidente que o filho do Otto não derramou uma mísera lágrima
pelas árvores que precisaram ser cortadas. Otto, o filho do Otto,
nasceu sem passado – não houve jeito de lhe transmitir
características hereditárias. Para ele, uma árvore centenária tem
o mesmo interesse de um calendário do ano passado e deve ter o mesmo
destino. “Plantam-se outras e fim de papo”, disse ele, prático
como uma motosserra.
Esgotado o tema da praça, falamos do Carnaval. Ou melhor, não
falamos do Carnaval. Falamos do Brasil, esse país tropical em que a
má sorte fez Otto nascer. Otto, já disse tantas vezes, é o mais
alemão dos são-bentenses – e não tem certidão de nascimento nem
teste de DNA que prove o contrário. Pois o Otto começou a falar do
Brasil, e a falar mal. Perguntou se eu havia visto o que uma revista
francesa disse sobre o Brasil. A revista havia desancado o Brasil de
tal maneira que a coisa mais lógica a se fazer era o suicídio
coletivo. E o Otto citava, uma a uma, as críticas da revista, e era
coisa de se ver como seus olhos brilhavam de emoção. E então veio
a pergunta fatal: “E você, o que acha?”.
Não sei por que, mas o Otto realmente leva em consideração aquilo
que eu penso. É uma admiração que nasce das minhas pesquisas
históricas. Para ele, isso me torna mais alemão do que o jovem
Werther. Pois eu tive que dizer o seguinte: a revista francesa não
havia dito quase nada daquilo. Otto recuou, incrédulo. Insisti e
perguntei se ele por acaso havia visto a revista. Ele negou, até
porque só fala a língua de Goethe e, meio a contragosto, a de
Machado. Pois eu confessei o seguinte: também não vi. Mas só de
olhar para aquela lista eu já sabia que havia sido feita por um
brasileiro, tão brasileiro quanto a urna eletrônica. E disse mais:
se alguma revista escrevesse tudo aquilo sobre o Brasil, nós
cortaríamos relações com a França. Otto ouviu tudo aquilo
impassível: “Mas que é verdade, isso é...”.
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