terça-feira, 11 de novembro de 2014

Gratidão (Dino Buzzati)

Um agradecimento por ter feito, especialmente para mim, o mundo tão grande e variado. Por ter feito tantos bilhões de outros homens, na aparência semelhantes a mim, para me fazer companhia e por tê-los espalhado por toda a parte, para que, onde quer que eu vá, não me encontre sozinho. Além disso: por ter feito viver muitos outros bilhões antes do meu nascimento, para que suas aventuras possam distrair-me e fazer-me pensar. E por ter criado tantas terras longínquas onde, se eu tivesse sido explorador, teria podido explorar. E por ter posto no mundo tantos sábios que podem me explicar as infinitas estranhezas deste reino; mesmo deixando sua maior parte ainda envolva em mistério para que, se for atraído, possa eu também descobrir alguma, ou, pelo menos, sonhar com elas nas noites de verão. E, suspensas no céu, miríades de estrelas, das quais percebo apenas uma mínima porção, reservando as outras para o caso de ter sido um astrônomo e tivesse desejado investiga-las. E assim por diante, poderia continuar a enumeração por centenas de páginas.
Pensando no assunto, algumas vezes parece-me até um exagero. Quantas montanhas, mares, cidades, linguagens e músicas, auroras e crepúsculos que nunca verei, de cuja existência nem suspeitarei. Um universo imenso com uma infinita variedade de vidas diversas, uma coisa tão bela e tão grande para mim, pobre ser que nem sabe olhar ao redor de si. Esse tormento de nascimentos, de sofrimentos e de tragédias, perpetuado por milhões de anos com a única finalidade de me comprazer!
Deus, agradeço-te também por teres favorecido tantas dores para que eu possa apreciar o meu pequeno bem. Mais ainda, teres provocado guerras e ódios infernais para que, medindo a perfídia dos homens, não me afeiçoe excessivamente a este mundo. E tê-los feitos inimigos e miseráveis também em relação a mim, para que, reconhecendo-me igual a eles, duvide sempre dos meus méritos, e além disso me considere pobre eu também e abjeto.
Agradeço-te também os inumeráveis medos, desilusões, penosas esperas, doenças, e ter-me, finalmente, evitado a possibilidade de ser feliz, para que a existência me apareça pouco a pouco cada vez mais ingrata; e para que eu aprenda a deixa-la sem excessivas nostalgias.
Maravilhosa solicitude! Tudo foi estudado de maneira – cadeia sem fim de tragédias, de baixezas, de perversidade,, de mortais indiferenças – de maneira que, pouco a pouco, esta casa me agrade um pouco menos. E para que eu comece, ao contrário, a desejar outra, exatamente aquela que talvez me espere.
Este aparato de males, um oceano negro, foi disposto, com magnificência, exclusivamente para mim!, penso, às vezes, perdido. Mas não é um desperdício, se pensarmos em quanto sou pequeno?
Entretanto, vede, não basta (e aqui se encontra a suprema maravilha). Tudo e todos ao meu redor, olhando-me nos olhos, sem nunca deixar prevalecer minha astúcia avidíssima, mostram-me, com seu exemplo, a vaidade das coisas ou me fazem cair para que eu sinta como é áspera a terra; com paciência infinita desfazem, à medida que as tento, as tramas de minha espera. Não basta, vos digo. Cego, cada vez levanto novamente a cabeça, desprezando tanta sabedoria que se espalha no universo.
Cada manhã recomeço, estupidamente me preparo para gozar este palácio misterioso. O coro diário de penas, de soluços e de mortes me ameaça em vão. Não quero compreender. O hóspede, sorrindo, não se cansa de indicar-me a porta, convidando-me a olhar além, para o reino feliz. Mas eu, estúpido, me obstino, permaneço sentado brincando, esperando, distraindo-me com pedrinhas. Obstinado, permaneço parado e estremeço a cada rangido, na solidão do jardim. 

(In: "Naquele exato momento", Editora Nova Fronteira, 1986)

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