terça-feira, 24 de abril de 2012

O pobre jornalista na Bienal do Livro de Brasília

                                                                   
É sexta-feira, quase 22h30 e o pobre jornalista está voltando para casa. É pobre porque não está carregando sacola alguma. Está saindo de uma Bienal do Livro, mas está de mãos vazias. Acabou de assistir o Fernando Morais falando sobre biografia. Foi o debate menos concorrido da noite, mas foi o que terminou mais tarde. Quando a Bienal já havia silenciado, os grilos tomaram conta do auditório montado em plena Esplanada. E o jornalista sai satisfeito, pois gostou do debate. É o sétimo dia do evento e ele foi em todos até agora. E provavelmente irá nos três restantes. Ele, o poeta Nicolas Behr e um tal de seu Nelson, o sexagenário: foram essas pessoas que, sabidamente, estiveram lá a maior parte do tempo.

*

Encontrei o seu Nelson logo no primeiro dia. Estava na palestra do Zuenir Ventura. E como o Zuenir vive comparando a juventude atual com a de 1968, o seu Nelson fez questão de se declarar sexagenário - sexagenário com orgulho. E funcionário público sem nenhuma mancha na carreira. É um velhinho magrinho, de calças curtas e óculos engraçado. Fez questão de fazer a pergunta no microfone, e não simplesmente escrever, como todo mundo. Todo mundo mesmo, porque até eu fiz uma pergunta. Dizia o Zuenir que de 1968 para cá acabaram as certezas. E como ele dava a entender que falta engajamento na atual juventude, eu quis saber como se escolhe uma causa para engajar sem ter certeza. Esse é o grande drama, disse o Zuenir. Terminou sugerindo o movimento ecológico e social como causas dignas. 

Zuenir Ventura - Foto: Júnior Aragão
Zuenir Ventura, o homem que prolonga 1968. Foto: Junior Aragão. 

Acabei seguindo o Zuenir até a livraria em que deu uma sessão de autógrafos. Mas fui mais pra olhar mesmo. Ver um escritor em ação, observar as coisas que fala e faz. Fiz isso também com o José Rezende Jr. De repente, dei de cara com ele perdido na Bienal. Perdido mesmo, porque procurava alguma coisa. Ele, naturalmente, não sabe quem eu sou. Eu, por outro lado, devia ser o único a conhecê-lo ali. E então passei a segui-lo. De repente, ele abordou uma garota qualquer e perguntou algo que não ouvi. A garota pensou um pouco e apontou algo no lado direito. Zé Rezende agradeceu e foi para lá. Acho que queria saber onde era a praça de alimentação. Encontrou um vendedor de pipoca e ficou parado ali na fila - tinha uma boa fila para comer pipoca.  

Ele, sua mochila de estudante e seu tênis Allstar. Foi também assim que ele chegou para participar de um debate sobre a literatura de Brasília - essa coisa metafísica. Diz ele que o problema não está em publicar um livro, mas em ser lido. Seu segundo livro de contos, premiado pelo Jabuti, não chegou a mil exemplares vendidos. O que fazer pra ter leitores então? "Vira uma celebridade primeiro", ironizou. Foram os mesmos problemas apontados pelo Alcione Araújo, em outro debate. Um romance hoje em dia tem edição de três mil exemplares - e 85% não chega à segunda edição. É desolador. Formamos profissionais que não precisam de literatura. E até quem escreve não está mais precisando ler. O capital, o trabalho, tomam todo nosso tempo, disse.
José Rezende Jr. - Foto: Junior Aragão
Jozé Rezende Jr: "O problema é ser lido". Foto: Junior Aragão.

O Mario Prata também estava nesse debate. Desceu a lenha nas Bienais do Rio de Janeiro e de São Paulo, que cobram ingresso e não pagam cachê. Aqui em Brasília, a entrada era gratuita. Segundo o Mario, não se paga nem o avião do escritor, apenas o táxi do hotel para o evento - que ainda por cima, no caso do Rio, segundo ele, fica na p... que pariu. Foi singular que essa discussão tenha acontecido no mesmo dia em que o Fabrício Carpinejar desistiu de participar da Bienal de Bento Gonçalves, depois que ficou sabendo do cachê do Gabriel o Pensador para o evento - R$ 170 mil, contra R$ 1 mil para os escritores.

Aliás, o Carpinejar também esteve por aqui. Não fez uma palestra, mas uma apresentação performática, que quase apagou o Nicolas Behr, seu companheiro de mesa. Como fugia do senso comum, derrubou o mediador várias vezes. Fez rir, e às vezes passou da conta. Aquele foi um dia de cronistas gaúchos, porque um pouco antes a Martha Medeiros lotou o Café Literário como nenhum outro escritor fez. E toda essa gente não ouviu mais do que costuma ler no que ela escreve - que cada um entenda. Nem se compara a quantidade de gente vendo a Martha com os que viram a boa palestra do Cristóvão Tezza - é verdade que concorria com o Bob Dylan na noite de Brasília, mas nem só a isso se deve a sua baixa assistência.

Tezza também não teve lá muita sorte com o pessoal do cerimonial. Começou sendo chamado de gaúcho. Na hora das perguntas, os papéis eram simplesmente jogados em cima da mesa ao seu lado, e ele que lesse. Não houve nem mesmo um encerramento oficial do evento - quem encerrou foi o próprio Tezza, que também não ouviu os elogios costumeiros desse tipo de evento. Coisa bem diferente do que aconteceu com o Miltom Hatoun, quando os elogios chegaram a passar do aceitável. E Milton fez, talvez, a melhor palestra do evento. Discutiu literatura, mas também arquitetura urbana. E teve a sorte de encontrar um público não apenas interessado, mas capaz de formular perguntas no mesmo nível do que se espera de um escritor. 

Cristovão Tezza - Foto: Junior Aragão
Tezza teve que fazer o próprio cerimonial. Foto: Junior Aragão. 

O ruim foi que não durou muito: pouco mais de uma hora. Bem diferente, por exemplo, do debate sobre história, com o Domingos Meirelles, o Jorge Caldeira e o também performático gaúcho Eduardo Bueno. A conversa chegou a três horas e, embora tivesse bons momentos, saí antes de acabar. Bem diferente das duas noites que debateram biografia, com a presença não apenas do Fernando Morais, mas do Paulo César Araújo, o biógrafo do Roberto Carlos, e outros. Nelas, a impressão que se tinha era que podíamos ficar ali mais umas duas horas. O bendito artigo 20 do Código Civil foi mote para discussões pertinentes e agradáveis.

Foram os biógrafos também aqueles que mais elogiaram a Bienal e o que ela representa para a cidade. Carlos Marcelo, o biógrafo do Renato Russo, elogiou inclusive o local, no meio daquele gramadão vazio e sem graça na Esplanada. A Bienal teve muitos méritos, mas também vários problemas técnicos. Nos primeiros dias, era impossível se localizar no meio dos pavilhões. Chegaram ao ponto de fazer painéis com mapas, mas sem o tradicional "você está aqui". Lá pelo terceiro dia, colocaram placas. Ajudou. O piso também era um problema constante. Estávamos sujeitos aos tropicões, quando não aos buracos, naquele carpete improvisado. E, fora isso, os problemas costumeiros com microfones e áudios. 

Na conversa com Carlos Heitor Cony e Thiago de Mello, esses problemas se somaram a outro, que foi o da manifestação dos professores do Distrito Federal. Era o aniversário de Brasília e a Esplanada estava em polvorosa, com protestos pipocando aqui e ali. E os professores faziam suas manifestações - justas, imagino - logo ao lado do auditório em que Cony e Thiago deveriam falar, praticamente impedindo que nós os ouvíssemos. Tivemos que aproximar nossas cadeiras do palco. E ali, bem pertinho dos escritores, ouvimos os dois - que somavam mais de 170 anos - falarem sobre literatura no tempo da ditadura. Thiago reverenciava Cony, que ali, de sua cadeira de rodas, com uma cara séria e um cérebro hábil, destilou o seu pedaço da história da Brasil. 

Carlos Heitor Cony, Thiago de Mello e Tereza Cruvinel - Foto: Junior Aragão
Cony, Thiago de Mello e a galera amontoada. Foto: Junior Aragão

*

O pobre jornalista se rendeu apenas a alguns gibis da Turma da Mônica Histórica - aquelas edições antigas, com os personagens feitos com desenhos engraçados. Livros mesmo, não comprou. Também não esteve nos eventos mais populares da Bienal - não viu as apresentações musicais e nem as concorridas conversas com o Leonardo Boff, e outras mediadas pelo Paulo Henrique Amorim e pelo Luís Nassif. No último dia, desistiu em cima da hora de ver o Ziraldo - a fila era muito grande. O jornalista, na verdade, estava bem mais interessado nas ideias discutidas nos debates. E voltou para casa cheio delas. Tem muito o que pensar. E acha inclusive que tem muito o que fazer também. Assim ele se despede da Bienal que, particularmente, foi muito boa. 

quinta-feira, 1 de março de 2012

Tristezas à beira-mar

Estive relendo "Um Cartão de Paris", livrinho com algumas das últimas crônicas de Rubem Braga - aquelas que ainda não saturei com minhas leituras. E reli com uma imensa pena de que não se chamasse "Tristezas à beira-mar", e nem que tenha sido escrito por "Um morador de Ipanema", como Braga chegou a fantasiar. São textos feitos por um cronista idoso, bastante atento aos mortos da semana, sempre alguém conhecido, da sua geração. E o escritor que, ainda na casa dos 30 anos, arrumou para si o apelido de "Velho Braga", é talvez ainda mais velho durante essas crônicas, tão cheias estão de desencanto e melancolias, e belezas.

Mas talvez seja só impressão, porque sabemos que estava para morrer. O próprio Braga sabia disso, a ponto de se imaginar transformado em um verbete literário indicando 1990 como ano de seu falecimento, o que de fato ocorreu - e diz ele que viveu bastante, mais que Machado de Assis, muito mais do que Castro Alves. Isso está em "Mecânica da Mulher Quando Distraída", uma bonita crônica em que Braga abusa daquilo que Manuel Bandeira chamou de "puxa-puxa", e que nada mais é do que um tema desencadeando outro, sem nenhum roteiro prévio. Braga passa rapidamente de pescadores para aulas na Faculdade de Direito, partindo daí para mulheres, e conclui falando de literatura. 

E como lia o velho Braga... tudo que lhe chegasse ao alcance. Há por aí alguns teóricos falando que a crônica deve sempre partir de uma notícia. Nesse livro, o tema das crônicas nasce de um dicionário, um livro de psicanálise, outro de provérbios, um de lições dramáticas, bem antigo, uma revista colombiana, relatos de cronistas indianos. E lá estão também relatos episódicos, impressionistas, ou simples recordações, e às vezes até mesmo o seu humor, aquela ironia tão típica do gênero, especialmente em "Creme de Barbear em Espuma". Tudo, no fim das contas, muito bonito, e simples, como fazia sempre há uns 60 anos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Os 10 melhores livros de crônicas que li em 2011

10. Aprendendo a Viver - Clarice Lispector
Ainda que ela mesma discorde, Clarice fez crônicas. E por mais que diga não gostar de falar de si, suas crônicas são tão autobiográficas como as de qualquer outro escritor. 

A sutileza está na inocência e na fragilidade de Clarice - que em todos os seus textos parece ser a mesma menina sofrida da infância no Recife. 

Isso rende cenário vivos. Somos tocados pela sua beleza. 

Mas Clarice não precisa que a tentem colocar no pedestal de um gênero que é feito ao rés-do-chão - e não é demérito publicar em jornal, como sugere a orelha do livro. Clarice não precisa que a tentem deixar mais bonita - em geral, estraga. 


9. Tia Zulmira e Eu - Stanislaw Ponte Preta
Stanislaw é daqueles cronistas que quase não existem mais. Gente que não se preocupa em dar pareceres técnicos sobre a realidade. 

Sua arma é o riso, a piada, a galhofa. Flagrar um instante do absurdo. Criar personagens - ele próprio personagem de si mesmo - e colocá-los para vivenciar situações inusitadas. E só então desvendar um pedaço do mundo real. 

É um livro daqueles que se lê mais pra se divertir do que outra coisa. Mas mal não há em se atentar às críticas insinuadas aqui e ali. 

E na condução da narrativa, um cronista tão ágil e habilidoso com as palavras como só um humorista consegue ser. 


8. Comédias da Vida Pública - Luis Fernando Veríssimo
É o livro em que Veríssimo fala a sério, principalmente nas primeiras crônicas. 

Os textos começam no final dos anos 60 e terminam no meio dos anos 90. Nem sempre é possível entender as referências históricas do cronista, e em vários textos foi necessário um apêndice de contextualização - que nem sempre adiantou. 

Mas à medida em que os anos prosseguem, e os episódios e personagens da vida pública se tornam mais conhecidos, Veríssimo vai também aumentando as doses do humor que o consagrou. 

O resultado final é agradável, com especial destaque para os diálogos envolvendo figuras políticas. 


7. Ungáua! - Ruy Castro
Famoso pelas biografias, Ruy pode tranquilamente ser citado como um dos nossos grandes cronistas vivos. 

Seus textos, menores do que a média, são cheios da ironia que dá sabor ao gênero, quando bem escrito. 

Ruy se mostra atento aos acontecimentos ao seu redor, e particularmente ao noticiário - desde Machado de Assis, a melhor fonte para a crônica. 

Mas também aproveita para dar pitadas do seu conhecimento musical, desfazer alguns equívocos históricos e também falsas impressões sobre o Rio de Janeiro de hoje. 

E tudo isso com firmeza, clareza e muito pouco senso-comum.

6. Vossa Insolência - Olavo Bilac
Quem conhece o Bilac apenas pelo seus poemas parnasianos, provavelmente se surpreenderá com o autor desse livro. 

Nele, Bilac se mostra um cronista altamente combativo, capaz de fazer duras críticas ao Rio de Janeiro, a própria cidade em que morava.

Isso não significa que não gostasse de morar lá, ao contrário: usava os seus textos para defender causas que julgava necessárias para que a cidade pudesse ter uma vida mais digna. 

Chama a atenção a sua percepção social e a sua capacidade de indignação em episódios que também fornecem a possibilidade de comparação com a realidade de hoje.

5. Alguém que já não fui - Artur da Távola
Artur da Távola era um incompreendido, como acontece com todos os que vivem antes do seu tempo. 

Suas crônicas são análises sociológicas, existenciais e comportamentais feitas com uma serenidade e precisão espantosas. 

Consegue flagrar com rara felicidade as pequenas sutilezas das tensões do nosso cotidiano. E ao tentar explicá-las, Artur promove um bom exercício de auto-conhecimento, geralmente concluído de maneira positiva, incitando o leitor a uma nova tomada de posição. 

Não é exatamente um livro fácil, mas as reflexões que promove o tornam particularmente bonito, inspirador e esperançoso.

4. Seja Feliz e Faça os Outros Felizes - Antônio Maria
Antônio Maria só não é mais conhecido entre os melhores do gênero porque morreu cedo. 

Nesse livro, eles nos pega pelo humor, e um humor daqueles que nos deixam desnorteados, de tão certeiro - não é a gargalhada, mas "o humor de canto de boca", como diz a orelha. 

É digna de nota a sua relação com leitores, especialmente os que pediam seus serviços de conselheiro sentimental. 

Maria parece se divertir escrevendo, ao mesmo tempo que esconde suas angústias num mundo de franquezas em que pouca gente tem uma coisa boa a dizer. 

Faz humor poético, confessional, parecendo desejar um tipo de amor que quase não há. 

3. A Menina sem Estrela - Nelson Rodrigues
Nelson Rodrigues é aclamado como teatrólogo, contista e cronista esportivo. Mas as suas memórias, relatadas em forma de crônicas, e iniciadas neste livro, são suficientes para colocá-lo também entre os grandes do gênero de Rubem Braga. 

Nelson é criador de um estilo, marcado pela extrema agilidade da linguagem, por um intenso fluxo de ideias e, naturalmente, pelas frases de efeito. 

E em "A Menina Sem Estrela" enxergamos uma sinceridade incomum nos relatos autobiográficos, com Nelson não hesitando em revelar deslizes morais da sua vida no teatro, por exemplo. 

Em muitos momentos, também é emocionante. 


2. O Luar e a Rainha - Ivan Lessa
Outro cronista atento ao noticiário, Ivan Lessa traz, lá de Londres, um olhar aguçado sobre os episódios internacionais dos anos 2000 a 2004 - ou seja, revemos, em textos tão bem-humorados quanto críticos, o 11 de Setembro e depois a Guerra do Iraque. 

A isso, somam-se os textos em que mergulhamos nos fait divers, nas pesquisas e estatísticas insólitas, das quais Lessa sempre extrai alguma piada e, se formos ver bem a fundo, o questionamento das lógicas da imprensa. 

São textos curtos, mas bastante precisos, com domínio das palavras. 

E que ainda favorecem a troca de impressões entre Brasil e Inglaterra. 


1. O Óbvio Ululante - Nelson Rodrigues
Embora seja parte de suas memórias, "O Óbvio Ululante" é o livro de um cronista contemporâneo, bastante interessado nas tendências do Brasil em que vivia - aqui estão vários textos que contribuiriam para sua fama de reacionário. 

Suas crônicas são densamente povoadas. Há citações para todos os lados, e algumas obsessões, como Dom Hélder Câmara e Hélio Pellegrino. 

Seu estilo seco é bastante envolvente e não deixa muito espaço pra indiferença do leitor. Também é um livro divertido, repleto das sacadas que fizeram de Nelson um grande frasista. 

E a rabugice do autor acaba tornando-o até mais simpático. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Os meus sapatos

Essa história de ter mais amigas mulheres do que homens volta e meia me coloca em enrascadas. Não é raro o dia em que entro com elas em lojas de roupas, sapatos ou bolsas - coisas muito necessárias e bonitas, mas que nem por isso chamam muito a minha atenção. Sei que existem homens que gostam e, mais do que isso, que entendem do assunto. Não é o meu caso. De qualquer forma, eu as acompanho, e vou dando palpites aqui e ali, todos muito sinceros, embora sempre embasados no senso comum. Mesmo assim, elas levam em consideração. Opinam. Discutem. Gostam de estar ali e querem falar sobre isso.

Na última vez em que isso aconteceu, eu estava com duas mulheres em uma loja era de sapatos. Elas queriam trocar um presente de amigo oculto. O sapato servia direitinho, mas, se há a possibilidade de trocar por um mais bonito, por que não? E foram lá trocar. Eu, naquele dia, estava especialmente entediado e me afastei, olhando sapatos sem me interessar por eles. Na verdade, nem parece que a sapataria foi uma tradição na minha família. Meu trisavô aprendeu a ser sapateiro em Viena e depois montou uma fábrica e oficina no Brasil. Ensinou tudo ao seu filho, que levou adiante o negócio. E eu, hoje, calço mal, muito mal.

Fui então até a porta da loja. Era um shopping center. Para a minha sorte, logo em frente havia uma livraria. Deixei as duas escolhendo seus sapatos e sorrateiramente parti para lá. Ah, que maravilha! Aquele sim era o meu lugar. Gosto de livros, embora não tenha muitos - são caros pra mim. Mas leio bastante, e me considero capaz de fazer algumas considerações até aceitáveis sobre as minhas leituras. E às vezes, até sobre o que não leio. Numa livraria, ainda que não compre nada, consigo mais informações sobre escritores e as coisas que escrevem. E ainda oriento os empréstimos que depois farei em uma biblioteca.

É o tipo de lugar em que poderia tranquilamente passar algumas boas horas, sem ver o tempo passar. Só que, desta vez, não fiquei muito tempo, pois logo as duas mulheres vieram atrás de mim - parece que na loja não havia o número que uma delas calçava. E quando elas me encontraram diante de uma prateleira, folheando um livro e babando pelos outros, não tive dúvidas e tasquei essa grave sentença, absolutamente verdadeira: "Esses aqui são os meus sapatos". 

Um livro seria provavelmente o que eu pediria em um amigo oculto - e provavelmente seria o único a fazer coisa semelhante. Não quero dizer com isso que eu seja uma pessoa mais bacana apenas porque peço um livro no lugar de um sapato. Acho, inclusive, que eu seria uma pessoa muito mais bacana se, além dos livros, entendesse mais sobre sapatos. Mas também não posso deixar de lamentar que não nos ocupemos de livros com a mesma frequência de um artigo do vestuário.

Em todo caso, amigo leitor, caso venha a me tirar em um amigo oculto nesse final de ano, já sabe o que irá me agradar. Compre um livro. Não qualquer livro, naturalmente. Nada de auto-ajuda. De preferência, evite os best sellers do momento. Se me vier com A Cabana, eu volto lá correndo pra trocar. Não é o meu número. Poesia, eu tenho dificuldade. Direi tudo de uma vez: compre um livro de crônicas. Mas nada de Martha Medeiros, por favor. Nem Clarice. Eu gosto da Clarice, mas não a toda hora. 

Ah, quer saber? Dê-me um vale-presente e estamos entendidos. 

sábado, 10 de dezembro de 2011

Flamengo é puro amor

Vim parar em Brasília, que é, em última análise, uma extensão do Rio de Janeiro. Dela, não herdou apenas a condição de capital do Brasil, mas também a torcida pelos times de futebol. E quando falo time de futebol leia-se, quase sempre, Flamengo. Por isso, imagino que viria bem a calhar nesse final de ano presenteá-los com livros como “Flamengo é puro amor”, de José Lins do Rego, que eu li há pouco, e isso sem ser flamenguista.


Zelins, como também era conhecido, escreveu mais de 1.500 crônicas esportivas entre os anos de 1945 e 1957. Infelizmente, não foram lidas todas elas antes de selecionar quais entrariam para o livro – alegou-se “tempo escasso para edição”. Nas que mereceram uma leitura e foram aprovadas pelos editores, Zelins se mostra um cronista esportivo que, mais do que tudo, defendia os interesses do Flamengo. Em outras palavras, ele não se escondia atrás da imparcialidade, como acontece com tantos cronistas hoje em dia.


Por outro lado, Zelins não praticava o mero colunismo de torcedor, em que o fanatismo impede qualquer tipo de concessão aos méritos dos times rivais. Ao contrário, é possível encontrar crônicas bastante respeitosas em relação ao Vasco e ao Fluminense, inclusive se posicionando criticamente sobre problemas específicos desses clubes. Mas nem por isso Zelins deixava de lado a possibilidade de provocar os amigos que torciam por outros times. É um bom exemplo disso a crônica em que tenta provar à vascaína Rachel de Queiroz que, no fundo, ela tem tudo pra ser flamenguista.


As crônicas são curtíssimas, normalmente três ou quatro parágrafos. Não deve se esperar de Zelins grandes (e chatas) abordagens técnicas e táticas do futebol da época. Ele não era um intelectual do esporte. Era tão do povo quanto o seu Flamengo. E conseguia nessas poucas linhas passar uma visão pessoal bastante atraente sobre os jogos, os personagens e os episódios que presenciou – a crônica, afinal, também é registro histórico.


Zelins não parece ter demorado a perceber que as suas crônicas causavam repercussão muito maior do que os seus romances. Uma palavra mais apaixonada aqui, uma provocação ali, e o cronista poderia ser alvo de vaias e retaliações no estádio – certa vez, chegou inclusive a ser ameaçado de morte por torcedores mais exaltados do Botafogo. Estamos, afinal, falando de futebol. Ou seja, de paixão. E as crônicas de Zelins também são paixão, com todos os exageros e excessos que a acompanham. Elas representam uma faceta importante do autor, e significativa o bastante para não ser esquecida.


É preciso mencionar ainda as notas históricas, feitas por Marcos Rocha para contextualizar as crônicas. Sem dúvida uma iniciativa importante, mas infelizmente estão muito mal localizadas – ao final do livro, obrigando o leitor a procurá-las ao término de cada crônica. E mais do que notas informativas, elas por vezes chegam a ser comentários – inclusive, maiores do que as próprias crônicas. Às vezes dava preguiça procurá-las.


José Lins do Rego entrou para a Academia Brasileira de Letras em 1955. Antes, havia publicado crônica dando a entender que não era possível conciliar o seu Flamengo com os luxos e solenidades da Academia. Quanto tomou posse, Zelins fez um discurso em que simplesmente destruiu todos os méritos do seu antecessor, Ataulfo de Paiva.


Se Zelins tinha restrições à Academia, talvez até ficasse satisfeito ao ver que o seu Flamengo também passou a ser argumento contra ela. Isso porque, na homenagem que recebeu da ABL no começo deste ano, receberam a medalha Machado de Assis os ilustres Ronaldinho Gaúcho e Wanderley Luxemburgo – futebolistas que vieram se somar a todos os demais motivos que colocaram a Academia em total descrédito.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Um assalto

Imagino que em alguns lugares do Brasil as coisas ainda sejam mais tranquilas. Poucos lugares, talvez. Mas ainda não é todo mundo que tem uma história de assalto para contar. E até algum tempo, eu era como o Cristóvão Tezza: jamais havia sido assaltado, a não ser pelas instituições oficiais – o Governo, o Estado. Só que um dia as coisas mudaram. E não foi aqui em Brasília, como se poderia supor. Foi em Curitiba, a mesma Curitiba que até hoje poupou Tezza. Pois a mim não poupou.

Eu estava em uma Feira do Livro no SESC. Já havia ouvido uma palestra com o Moacyr Scliar, outra com o Daniel Piza, e naquela noite fui ver a Marina Colasanti, que eu não conhecia – não sabia nem que era mulher do Affonso Romano de Sant’Anna. Bom. Mas fui ver Marina, e ela falou algumas coisas interessantes sobre a crônica.

Marina Colasanti me deve um celular Sony Ericsson velho
Destacou a importância dos links com o mundo externo, da ironia, da agilidade e da fuga dos lugares-comuns. Disse que gostava da crônica vinculada ao noticiário. Chamou a crônica de gênero a cavalo – um pé em cada estribo. Falou que crônica grande demais prejudica o leitor, e lembrou que há confusão na imprensa entre crônica e colunismo. E disse ainda algumas besteiras, das quais a maior foi que a crônica não é literatura, mas jornalismo bem escrito.

Anotei tudo isso em uma agenda. Quando acabou a conversa, eu fui um dos primeiros a sair de lá. Passava das 21h, e eu queria chegar logo em casa. Meu pensamento era escrever ainda aquela noite um texto sobre a palestra para publicar em meu blog. Comecei então a caminha para pegar o meu ônibus – eu precisava caminhar um bocado, pois iria do Sesc até a Praça Santos Andrade. E mal tinha saído de lá quando vi no outro lado da rua dois rapazes que poderiam muito bem ser suspeitos. A rua estava escura. A canaleta do ônibus biarticulado era logo ao lado. Os rapazes vieram na minha direção e alguma coisa na expressão deles dizia que eles não estavam a fim de discutir literatura.

Tive certeza disso quando eles me alcançaram e um deles apontou uma faca para mim e disse: “Passa o celular”. Imaginei que ele não estava se referindo ao número. Não quis verificar se sua faca estava carregada, e por isso resolvi entregar o celular – e entreguei com uma incrível calma, meio aborrecido, como se estivesse pagando os meus impostos.

Era um modelo antigo e estava sem crédito. Se duvidar, até sem bateria. Para não sair no prejuízo, eles resolveram ainda levar uns R$ 30 que eu trazia comigo. Revistam a minha mochila. Viram lá dentro a minha carteira – vazia, pois meu dinheiro estava no bolso. Feito isso, deixaram o resto pra trás e se despediram, pois vinha chegando gente.

E quem chegava era uma mulher, que também havia assistido a palestra com a Marina Colasanti. Ela reparou que havia algo estranho e então perguntou se eu havia sido assalto. Confirmei e ela então se ofereceu para pagar a minha passagem. Recusei: eu ainda tinha R$ 2 que os assaltantes não conseguiram achar. E continuei caminhando até o ponto.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Rubem Braga nas entrelinhas

Aqui em Brasília não pega a TV Cultura. Foi por isso, e só por isso, que eu não tomei conhecimento da matéria do programa Entrelinhas sobre o Rubem Braga. Foi há duas semanas. E isso quer dizer pouco tempo, considerando que eu achei por mero acaso. A descoberta não poderia ser melhor, pois não são muitas as matérias sobre a crônica, e menos ainda aquelas em que o Rubem fala – foi a primeira vez que o ouvi.


Antes de tudo, preciso dizer que Rubem é o meu autor favorito. Aos 17 anos, eu li “A Borboleta Amarela”, e achei tão diferente de tudo que havia lido, e fiquei tão cheio de amor pela vida, e vinha tão a calhar com minhas melancolias, que logo se tornou o meu autor favorito – e mais: foi o que me fez achar que devia escrever também.

De lá pra cá, li todos os livros e boa parte daquilo que se escreveu a seu respeito. Cheguei até mesmo a fazer a minha monografia de jornalismo sobre ele – ocasião em que tentei livrá-lo de alguns lugares-comuns da crônica. Acho que não tenho amigo a quem não tenha feito propaganda dos seus textos. Sou eu, inclusive, o dono do seu perfil no Twitter.

Foi então com felicidade que assisti a uma matéria tão bem feitinha sobre ele. É verdade que não destaca a importância do jornalismo para a produção dos seus textos. Mas vá lá. Em termos literários, é uma matéria bastante simpática. Diz que o Braga andava “meio sumido das discussões literárias”, o que certamente acontece porque o tipo de texto que fazia não era propriamente literatura – por isso mesmo, não pode ser um gênero menor.

Destaca-se ainda a simplicidade do cronista e a sua habilidade em falar de coisas da natureza e das “tristezas e perturbações da condição do bicho homem”. E o vídeo tem o mérito de trazer o próprio Rubem falando em 1982 sobre a sua infância, classificada como normal – apesar das exaltações em seus textos. “Depois é a que gente vê que foi feliz”, justifica. Tomava banho de rio, roubava fruta, jogava futebol e nas férias de fim de ano ia pra praia. O cronista também lembrava com alguma ironia sobre o seu único livro de poesias: “É um titulo muito original, chama-se Livro de Versos”. Essas são algumas das poucas frases que ouvi até hoje da boca do próprio Braga.

São lembradas exaltações feitas por Manuel Bandeira e Antônio Cândido, e há um trecho de Paulo Autran interpretando “Aula de Inglês”, uma das crônicas mais conhecidas e deliciosas do Braga, que nos deixa o gosto de assistir a versão na íntegra. Ao final da matéria, uma bela interpretação de “Procura-se”, quando o cronista procurava um caderninho azul, “escrito a lápis e tinta e sangue, suor e lágrimas, com setenta por cento de endereços caducos e cancelados e telefones retirados e, portanto, absolutamente necessários e urgentes e irreconstituíveis. Procura-se e talvez não se queira achar”. Linda!

Acho que falta muita leitura crítica ao Braga ainda. Diria, inclusive, que falta muitas leituras não-críticas, como essa do Programa Entrelinhas – que tem o mérito de trazer à memória um escritor que problematizou os gêneros do jornal e da literatura. Mas hoje eu não quero pensar em nenhum problema, em nenhuma teoria. Estou feliz porque se lembraram do Braga. Estou feliz porque achei esse vídeo.

E também porque hoje é sábado, eu acabei de almoçar e meus amigos vão bem.