sábado, 15 de dezembro de 2012

Os 10 Melhores Livros de Crônicas que Li em 2012

Seguramente, sou a pessoa que mais lê livros de crônicas no Brasil. Embora seja um gênero até certo ponto popular, não imagino que outra pessoa saia garimpando sebos e bibliotecas atrás de cronistas obscuros ou já esquecidos. Também não acho que mais alguém dedique mais de 70% dos livros de literatura para a crônica. Então, quero acreditar que tenho ao menos algum conhecimento de causa. E, com base nele, escolhi os 10 melhores livros de crônica que li este ano, a exemplo do que fiz ano passado. Novamente, quem ganhou foi o Nelson Rodrigues. Como já li todos os livros do Rubem Braga, o nosso cronista mais ilustre só aparecerá eventualmente nestas minhas listas, quando me disponho a relê-lo. Eis o resultado:


10. Inverno em biquíni - Henrique Pongetti. Cronista famoso nos anos 60 e 70, Pongetti escreve textos cultos, nem sempre fáceis, marcados pela elegância no estilo e serenidade no tom, em abordagens pouco tradicionais que, vez ou outra, nos levam ao riso de canto de boca. 

9. Bom dia para nascer - Otto Lara Resende. Com um início difícil, a adaptação ao estilo de Otto ao longo da leitura garante diversão em bons textos sobre assuntos gerais, mas também específicos como etimologia, literatura, política e até mesmo animais. 

8. Melhores crônicas - Ferreira Gullar. Famoso pela poesia, Ferreira Gullar é um nome que merece ser mencionado também entre nossos bons cronistas. Esta coletânea mistura textos marcados pela singeleza, pela crítica social, pelo humor e por algumas experimentações. 

7. Quarta-feira - Eric Nepomuceno. É um livro em que os gêneros se misturam (crônica, conto e ensaio). Mas Eric também esteve sujeito á memória pessoal, e com ela escreveu casos singelos, alguns humorísticos, além de mini-reportagens típicas da crônica.

6. Diário da patetocracia - José Carlos Oliveira. É o testemunho incisivo mas bem-humorado de Carlinhos Oliveira diante da evolução dos acontecimentos políticos e sociais que fizeram de 1968 um dos anos mais marcantes da nossa história recente. 

5. As terras ásperas - Rachel de Queiroz. Na casa dos 80 anos, Rachel de Queiroz escreveu crônicas que em nenhum momento resvalam em saudosismo. São textos maduros e concisos em que se posiciona criticamente sobre questões importantes e contemporâneas. 

4. O caos nosso de cada dia - Carlos Eduardo Novaes. Herdeiro de Stanislaw Ponte Preta, Novaes destila um humor certeiro, mordaz, divertidíssimo, diante dos problemas sociais e urbanos que, quase 40 anos depois, continuam gerando o caos em nossos cidades. 

3. Um cartão de Paris - Rubem Braga. Crônicas da velhice de Braga, cheias das mesmas belezas e desencantos. Relatos episódicos, impressionistas, ou simples recordações, nascidas de livros, dicionários, revistas, e temperados com a ironia tão típica do gênero.  

2. A Semana - Machado de Assis. Mestre do gênero, só não é melhor saboreado pelo tempo, que deixou referências obscuras em seus textos. Comparações, associação de deias, o exagero claro e desnorteador revelam a ironia em seu mais perfeito estado. Um primor. 

1. A cabra vadia - Nelson Rodrigues. Aqui estão algumas das coisas mais divertidas e originais que já se escreveu em português. Entrevistas imaginárias, personagens caricatos e sacadas extraordinárias aplicadas nas suas principais argumentações dos anos 60. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Eu, Nelson Rodrigues e uma cabra vadia


Como se sabe, nada mais falso do que a entrevista verdadeira. O entrevistado só diz o que sente, o que pensa, o que sabe, nas entrevistas inventadas. Inventadas da primeira à última linha e, por isso mesmo, de uma imaculada veracidade.


Era meia-noite, hora convencional, mas altamente sugestiva. Boa hora para matar, para morrer, ou simplesmente para dizer as verdades atrozes. Estávamos num terreno baldio. Eu, Nelson Rodrigues e uma cabra vadia. Há coisas que só se confessa num terreno baldio, à luz de archotes, e na presença de apenas uma cabra vadia. Alhures, uma coruja pia. Nelson foi pontualíssimo. Chegou exatamente quando o sino da matriz dava as doze badaladas. Ele estava ali completando o seu centésimo aniversário. "Sou tão velho como o Antônio Houaiss. Ainda me impressionam os umbigos do biquíni", confessou. Expliquei então o motivo da entrevista: queria que, pela primeira vez, ele comentasse algo sobre o advento da internet e das redes sociais. "Você é estagiário do Jornal do Brasil? Bem, o brasileiro é um internauta nato. Mas vamos logo que às três da madrugada começa a doer minha úlcera. Eu a adulo com pires de leite. Lambe como uma gata", explicou. 

Quis começar então com uma pergunta mais genérica: que tal lhe parecia a internet? "Olha, a internet tem todos os defeitos da vida real, e mais um: é virtual". Lembrei a ele então da possibilidade de interação social que a internet oferece, mas ele logo me interrompeu: "Aí eu faço a mesma pergunta que Sartre fez quando veio ao Brasil: onde estão os negros?". Enquanto eu pensava se isso era ou não uma pergunta retórica, Nelson explicou melhor o seu raciocínio: "Após milênios de passividade abjeta, o idiota descobriu na internet a própria superioridade numérica. O imbecil, que falava baixinho, ergueu a voz. Ele, que apenas fazia filhos, começou a pensar. Pela primeira vez, o idiota é artista plástico, é sociólogo, é cientista, é romancista, é prêmio Nobel, é dramaturgo, é professor, é sacerdote. E sem sair da internet. Os idiotas perderam a modéstia. São os que mais berram", acusou. 


Perguntei se ao menos a internet não poderia contribuir com a consciência política do país, mas Nelson desdenhou dessa possibilidade: "Nenhum perigo ameaça os internautas. Quando falam de política na rede, eles têm rompantes ferozes. Mas a política está fora da internet, e eles não. Há uma sábia distância entre os heróis da internet e a política. Os nossos internautas não têm nenhuma vocação do risco. E possuem a vocação inversa da segurança". Sugeri que talvez houvesse uma certa imaturidade nos comentários na internet, e Nelson logo concordou: "Há por aí nas redes sociais uma promoção da imaturidade como se fosse um sabonete ou um refrigerante. Mas nem se pense que essa idealização da imaturidade começa na internet. Não. Começa em casa".

E o Facebook? Quis saber o que Nelson pensava especificamente sobre essa rede.  "No Facebook são publicadas coisas que não se contam nem ao médium depois de morto. Não há ser mais pungente e, repito, não há ser mais plangente do que aquele que recebe um "curtir". Não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima, e por isso um simples "curtir" já nos gratifica", acredita. 

Suas opiniões sobre o twitter não foram melhores. Nelson não simpatiza com a tentativa de limitar o número de caracteres - diz que isso nos transforma em idiotas do objetividade. "O twitter e o idiota da objetividade são gêmeos e um explica o outro. E o pior é que, pouco a pouco, toda a internet está se transformando em outra idiota da objetividade. Eu me pergunto se, um dia, não seremos nós 200 milhões de tuiteiros? Duzentos milhões de impotentes sem sentimento".

Nem mesmo a possibilidade de se relacionar com personalidades no twitter é vista com bons olhos por Nelson: "Há admirações nobilíssimas, e outras abjetas. No twitter eu só vejo admirações abjetas". O YouTube também não escapou das suas críticas: "Não há lembrança de outra época tão pornográfica como essa. Mas o problema não começa no YouTube. A internet foi chamada de obscena porque pôs no vídeo a nudez coletiva, geral, ululante. Eis o que me pergunto: queriam o quê? Que as câmeras vestissem os nus, calafetassem os umbigos, enfiassem espartilhos nos quadris? Por que ter pudor na internet se não se tem nos bailes funk?", questiona.  

Antes de terminar, quis saber se ele concordava que a internet iria substituir meios de comunicação tradicionais como o jornal impresso, mas Nelson foi enfático: "O jornal vive de mortes e ressurreições. Antes da internet, era a televisão. De vez em quando, vem alguém passar o atestado de óbito do jornal. Mas ele continua. O jornal está vivo, o jornal é um cadáver salubérrimo". Logo depois dessa pergunta tivemos que nos despedir - Nelson começava a sentir a sua úlcera vibrando como uma víbora. Ainda era a madrugada do seu aniversário. Senti um tom de nostalgia e uma certa mágoa quando observou: "Durante anos, os casais Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende não faltaram na minha mesa de aniversariante".


E então partiu, deixando-me a sós com a cabra vadia. Lá estava ela, comendo capim - ou, por outra: comendo a paisagem. No alto, uma lua de sangue e, por fundo, a gargalhada dos sátiros e duendes. 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Depois de barrar coral natalino, MPT investiga denúncias na fábrica do Papai Noel


Depois de ter considerado trabalho infantil a participação de crianças no tradicional coral de Natal do Palácio Avenida, em Curitiba, o Ministério Público do Trabalho investiga denúncias de irregularidades na fábrica de brinquedos do Papai Noel, no Pólo Norte. Segundo o órgão, a participação de figuras mitológicas como os duendes e de animais de grande porte como as renas na fabricação e distribuição de brinquedos representa uma relação de trabalho não permitida pela legislação.

Para o MPT, o fato do Natal acontecer com frequência, repetidas vezes e durante vários anos seguidos, e de não ter como objetivo o benefício dos duendes e renas, e sim de terceiros, que recebem os presentes, é considerado sim uma relação de trabalho. Apesar disso, ainda não houve um consenso sobre qual legislação deve ser aplicada no caso dos duendes. "Chegamos a pensar no Código Florestal. A legislação trabalhista é omissa no que se refere à participação de seres da florestas em atividades de mercado. Mas parece claro que estamos diante de um avanço indevido da exploração econômica sobre comunidades tradicionais", constatou o órgão.

Em relação às renas, o órgão argumenta que os animais são forçados a fazer viagens extremamente desgastantes, dando a volta no mundo inteiro em menos de 24 horas e ainda precisando se equilibrar em cima de telhados. "Temos uma lei de proteção aos animais que impede atividades dolorosas em animais vivos, ainda mais quando houver recursos alternativos. Por que o Papai Noel não usa um jatinho, por exemplo?", questionou um representante do MPT. 

Foram feitas reuniões com representantes da fábrica do Papai Noel para resolver a questão, mas ainda não houve um acordo sobre como vai ser o Natal deste ano, e se de fato ele vai acontecer. De acordo com um dos procuradores do órgão, o Natal só acontecerá se a fábrica cumprir algumas recomendações: "Queremos que a fabricação dos brinquedos seja feita por adolescentes em regime de estágio, e não por duendes. Seria preciso reduzir o número de Natais também. Um a cada três anos seria ideal. E em hipótese alguma deve haver trabalho noturno. Os presentes devem ser entregues na manhã do dia 25".

Procurado pela reportagem, Papai Noel discordou do órgão: "Nunca vi a participação dos duendes e das renas como uma relação de trabalho. A gente sabe que eles têm desejo de participar do Natal", afirmou. Ele lembrou ainda que é diretor do Instituto Santa Claus de Solidariedade, que mantém um programa de apoio e educação que beneficia durante todo o ano duendes socialmente vulneráveis. Papai Noel lembrou ainda que concordou em diminuir o ritmo de trabalho, mas não abre mão dos duendes e das renas. "Mudar para estagiários e um jatinho poderia descaracterizar o Natal da forma como ele foi concebido", concluiu. 

terça-feira, 24 de abril de 2012

O pobre jornalista na Bienal do Livro de Brasília

                                                                   
É sexta-feira, quase 22h30 e o pobre jornalista está voltando para casa. É pobre porque não está carregando sacola alguma. Está saindo de uma Bienal do Livro, mas está de mãos vazias. Acabou de assistir o Fernando Morais falando sobre biografia. Foi o debate menos concorrido da noite, mas foi o que terminou mais tarde. Quando a Bienal já havia silenciado, os grilos tomaram conta do auditório montado em plena Esplanada. E o jornalista sai satisfeito, pois gostou do debate. É o sétimo dia do evento e ele foi em todos até agora. E provavelmente irá nos três restantes. Ele, o poeta Nicolas Behr e um tal de seu Nelson, o sexagenário: foram essas pessoas que, sabidamente, estiveram lá a maior parte do tempo.

*

Encontrei o seu Nelson logo no primeiro dia. Estava na palestra do Zuenir Ventura. E como o Zuenir vive comparando a juventude atual com a de 1968, o seu Nelson fez questão de se declarar sexagenário - sexagenário com orgulho. E funcionário público sem nenhuma mancha na carreira. É um velhinho magrinho, de calças curtas e óculos engraçado. Fez questão de fazer a pergunta no microfone, e não simplesmente escrever, como todo mundo. Todo mundo mesmo, porque até eu fiz uma pergunta. Dizia o Zuenir que de 1968 para cá acabaram as certezas. E como ele dava a entender que falta engajamento na atual juventude, eu quis saber como se escolhe uma causa para engajar sem ter certeza. Esse é o grande drama, disse o Zuenir. Terminou sugerindo o movimento ecológico e social como causas dignas. 

Zuenir Ventura - Foto: Júnior Aragão
Zuenir Ventura, o homem que prolonga 1968. Foto: Junior Aragão. 

Acabei seguindo o Zuenir até a livraria em que deu uma sessão de autógrafos. Mas fui mais pra olhar mesmo. Ver um escritor em ação, observar as coisas que fala e faz. Fiz isso também com o José Rezende Jr. De repente, dei de cara com ele perdido na Bienal. Perdido mesmo, porque procurava alguma coisa. Ele, naturalmente, não sabe quem eu sou. Eu, por outro lado, devia ser o único a conhecê-lo ali. E então passei a segui-lo. De repente, ele abordou uma garota qualquer e perguntou algo que não ouvi. A garota pensou um pouco e apontou algo no lado direito. Zé Rezende agradeceu e foi para lá. Acho que queria saber onde era a praça de alimentação. Encontrou um vendedor de pipoca e ficou parado ali na fila - tinha uma boa fila para comer pipoca.  

Ele, sua mochila de estudante e seu tênis Allstar. Foi também assim que ele chegou para participar de um debate sobre a literatura de Brasília - essa coisa metafísica. Diz ele que o problema não está em publicar um livro, mas em ser lido. Seu segundo livro de contos, premiado pelo Jabuti, não chegou a mil exemplares vendidos. O que fazer pra ter leitores então? "Vira uma celebridade primeiro", ironizou. Foram os mesmos problemas apontados pelo Alcione Araújo, em outro debate. Um romance hoje em dia tem edição de três mil exemplares - e 85% não chega à segunda edição. É desolador. Formamos profissionais que não precisam de literatura. E até quem escreve não está mais precisando ler. O capital, o trabalho, tomam todo nosso tempo, disse.
José Rezende Jr. - Foto: Junior Aragão
Jozé Rezende Jr: "O problema é ser lido". Foto: Junior Aragão.

O Mario Prata também estava nesse debate. Desceu a lenha nas Bienais do Rio de Janeiro e de São Paulo, que cobram ingresso e não pagam cachê. Aqui em Brasília, a entrada era gratuita. Segundo o Mario, não se paga nem o avião do escritor, apenas o táxi do hotel para o evento - que ainda por cima, no caso do Rio, segundo ele, fica na p... que pariu. Foi singular que essa discussão tenha acontecido no mesmo dia em que o Fabrício Carpinejar desistiu de participar da Bienal de Bento Gonçalves, depois que ficou sabendo do cachê do Gabriel o Pensador para o evento - R$ 170 mil, contra R$ 1 mil para os escritores.

Aliás, o Carpinejar também esteve por aqui. Não fez uma palestra, mas uma apresentação performática, que quase apagou o Nicolas Behr, seu companheiro de mesa. Como fugia do senso comum, derrubou o mediador várias vezes. Fez rir, e às vezes passou da conta. Aquele foi um dia de cronistas gaúchos, porque um pouco antes a Martha Medeiros lotou o Café Literário como nenhum outro escritor fez. E toda essa gente não ouviu mais do que costuma ler no que ela escreve - que cada um entenda. Nem se compara a quantidade de gente vendo a Martha com os que viram a boa palestra do Cristóvão Tezza - é verdade que concorria com o Bob Dylan na noite de Brasília, mas nem só a isso se deve a sua baixa assistência.

Tezza também não teve lá muita sorte com o pessoal do cerimonial. Começou sendo chamado de gaúcho. Na hora das perguntas, os papéis eram simplesmente jogados em cima da mesa ao seu lado, e ele que lesse. Não houve nem mesmo um encerramento oficial do evento - quem encerrou foi o próprio Tezza, que também não ouviu os elogios costumeiros desse tipo de evento. Coisa bem diferente do que aconteceu com o Miltom Hatoun, quando os elogios chegaram a passar do aceitável. E Milton fez, talvez, a melhor palestra do evento. Discutiu literatura, mas também arquitetura urbana. E teve a sorte de encontrar um público não apenas interessado, mas capaz de formular perguntas no mesmo nível do que se espera de um escritor. 

Cristovão Tezza - Foto: Junior Aragão
Tezza teve que fazer o próprio cerimonial. Foto: Junior Aragão. 

O ruim foi que não durou muito: pouco mais de uma hora. Bem diferente, por exemplo, do debate sobre história, com o Domingos Meirelles, o Jorge Caldeira e o também performático gaúcho Eduardo Bueno. A conversa chegou a três horas e, embora tivesse bons momentos, saí antes de acabar. Bem diferente das duas noites que debateram biografia, com a presença não apenas do Fernando Morais, mas do Paulo César Araújo, o biógrafo do Roberto Carlos, e outros. Nelas, a impressão que se tinha era que podíamos ficar ali mais umas duas horas. O bendito artigo 20 do Código Civil foi mote para discussões pertinentes e agradáveis.

Foram os biógrafos também aqueles que mais elogiaram a Bienal e o que ela representa para a cidade. Carlos Marcelo, o biógrafo do Renato Russo, elogiou inclusive o local, no meio daquele gramadão vazio e sem graça na Esplanada. A Bienal teve muitos méritos, mas também vários problemas técnicos. Nos primeiros dias, era impossível se localizar no meio dos pavilhões. Chegaram ao ponto de fazer painéis com mapas, mas sem o tradicional "você está aqui". Lá pelo terceiro dia, colocaram placas. Ajudou. O piso também era um problema constante. Estávamos sujeitos aos tropicões, quando não aos buracos, naquele carpete improvisado. E, fora isso, os problemas costumeiros com microfones e áudios. 

Na conversa com Carlos Heitor Cony e Thiago de Mello, esses problemas se somaram a outro, que foi o da manifestação dos professores do Distrito Federal. Era o aniversário de Brasília e a Esplanada estava em polvorosa, com protestos pipocando aqui e ali. E os professores faziam suas manifestações - justas, imagino - logo ao lado do auditório em que Cony e Thiago deveriam falar, praticamente impedindo que nós os ouvíssemos. Tivemos que aproximar nossas cadeiras do palco. E ali, bem pertinho dos escritores, ouvimos os dois - que somavam mais de 170 anos - falarem sobre literatura no tempo da ditadura. Thiago reverenciava Cony, que ali, de sua cadeira de rodas, com uma cara séria e um cérebro hábil, destilou o seu pedaço da história da Brasil. 

Carlos Heitor Cony, Thiago de Mello e Tereza Cruvinel - Foto: Junior Aragão
Cony, Thiago de Mello e a galera amontoada. Foto: Junior Aragão

*

O pobre jornalista se rendeu apenas a alguns gibis da Turma da Mônica Histórica - aquelas edições antigas, com os personagens feitos com desenhos engraçados. Livros mesmo, não comprou. Também não esteve nos eventos mais populares da Bienal - não viu as apresentações musicais e nem as concorridas conversas com o Leonardo Boff, e outras mediadas pelo Paulo Henrique Amorim e pelo Luís Nassif. No último dia, desistiu em cima da hora de ver o Ziraldo - a fila era muito grande. O jornalista, na verdade, estava bem mais interessado nas ideias discutidas nos debates. E voltou para casa cheio delas. Tem muito o que pensar. E acha inclusive que tem muito o que fazer também. Assim ele se despede da Bienal que, particularmente, foi muito boa. 

quinta-feira, 1 de março de 2012

Tristezas à beira-mar

Estive relendo "Um Cartão de Paris", livrinho com algumas das últimas crônicas de Rubem Braga - aquelas que ainda não saturei com minhas leituras. E reli com uma imensa pena de que não se chamasse "Tristezas à beira-mar", e nem que tenha sido escrito por "Um morador de Ipanema", como Braga chegou a fantasiar. São textos feitos por um cronista idoso, bastante atento aos mortos da semana, sempre alguém conhecido, da sua geração. E o escritor que, ainda na casa dos 30 anos, arrumou para si o apelido de "Velho Braga", é talvez ainda mais velho durante essas crônicas, tão cheias estão de desencanto e melancolias, e belezas.

Mas talvez seja só impressão, porque sabemos que estava para morrer. O próprio Braga sabia disso, a ponto de se imaginar transformado em um verbete literário indicando 1990 como ano de seu falecimento, o que de fato ocorreu - e diz ele que viveu bastante, mais que Machado de Assis, muito mais do que Castro Alves. Isso está em "Mecânica da Mulher Quando Distraída", uma bonita crônica em que Braga abusa daquilo que Manuel Bandeira chamou de "puxa-puxa", e que nada mais é do que um tema desencadeando outro, sem nenhum roteiro prévio. Braga passa rapidamente de pescadores para aulas na Faculdade de Direito, partindo daí para mulheres, e conclui falando de literatura. 

E como lia o velho Braga... tudo que lhe chegasse ao alcance. Há por aí alguns teóricos falando que a crônica deve sempre partir de uma notícia. Nesse livro, o tema das crônicas nasce de um dicionário, um livro de psicanálise, outro de provérbios, um de lições dramáticas, bem antigo, uma revista colombiana, relatos de cronistas indianos. E lá estão também relatos episódicos, impressionistas, ou simples recordações, e às vezes até mesmo o seu humor, aquela ironia tão típica do gênero, especialmente em "Creme de Barbear em Espuma". Tudo, no fim das contas, muito bonito, e simples, como fazia sempre há uns 60 anos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Os 10 melhores livros de crônicas que li em 2011

10. Aprendendo a Viver - Clarice Lispector
Ainda que ela mesma discorde, Clarice fez crônicas. E por mais que diga não gostar de falar de si, suas crônicas são tão autobiográficas como as de qualquer outro escritor. 

A sutileza está na inocência e na fragilidade de Clarice - que em todos os seus textos parece ser a mesma menina sofrida da infância no Recife. 

Isso rende cenário vivos. Somos tocados pela sua beleza. 

Mas Clarice não precisa que a tentem colocar no pedestal de um gênero que é feito ao rés-do-chão - e não é demérito publicar em jornal, como sugere a orelha do livro. Clarice não precisa que a tentem deixar mais bonita - em geral, estraga. 


9. Tia Zulmira e Eu - Stanislaw Ponte Preta
Stanislaw é daqueles cronistas que quase não existem mais. Gente que não se preocupa em dar pareceres técnicos sobre a realidade. 

Sua arma é o riso, a piada, a galhofa. Flagrar um instante do absurdo. Criar personagens - ele próprio personagem de si mesmo - e colocá-los para vivenciar situações inusitadas. E só então desvendar um pedaço do mundo real. 

É um livro daqueles que se lê mais pra se divertir do que outra coisa. Mas mal não há em se atentar às críticas insinuadas aqui e ali. 

E na condução da narrativa, um cronista tão ágil e habilidoso com as palavras como só um humorista consegue ser. 


8. Comédias da Vida Pública - Luis Fernando Veríssimo
É o livro em que Veríssimo fala a sério, principalmente nas primeiras crônicas. 

Os textos começam no final dos anos 60 e terminam no meio dos anos 90. Nem sempre é possível entender as referências históricas do cronista, e em vários textos foi necessário um apêndice de contextualização - que nem sempre adiantou. 

Mas à medida em que os anos prosseguem, e os episódios e personagens da vida pública se tornam mais conhecidos, Veríssimo vai também aumentando as doses do humor que o consagrou. 

O resultado final é agradável, com especial destaque para os diálogos envolvendo figuras políticas. 


7. Ungáua! - Ruy Castro
Famoso pelas biografias, Ruy pode tranquilamente ser citado como um dos nossos grandes cronistas vivos. 

Seus textos, menores do que a média, são cheios da ironia que dá sabor ao gênero, quando bem escrito. 

Ruy se mostra atento aos acontecimentos ao seu redor, e particularmente ao noticiário - desde Machado de Assis, a melhor fonte para a crônica. 

Mas também aproveita para dar pitadas do seu conhecimento musical, desfazer alguns equívocos históricos e também falsas impressões sobre o Rio de Janeiro de hoje. 

E tudo isso com firmeza, clareza e muito pouco senso-comum.

6. Vossa Insolência - Olavo Bilac
Quem conhece o Bilac apenas pelo seus poemas parnasianos, provavelmente se surpreenderá com o autor desse livro. 

Nele, Bilac se mostra um cronista altamente combativo, capaz de fazer duras críticas ao Rio de Janeiro, a própria cidade em que morava.

Isso não significa que não gostasse de morar lá, ao contrário: usava os seus textos para defender causas que julgava necessárias para que a cidade pudesse ter uma vida mais digna. 

Chama a atenção a sua percepção social e a sua capacidade de indignação em episódios que também fornecem a possibilidade de comparação com a realidade de hoje.

5. Alguém que já não fui - Artur da Távola
Artur da Távola era um incompreendido, como acontece com todos os que vivem antes do seu tempo. 

Suas crônicas são análises sociológicas, existenciais e comportamentais feitas com uma serenidade e precisão espantosas. 

Consegue flagrar com rara felicidade as pequenas sutilezas das tensões do nosso cotidiano. E ao tentar explicá-las, Artur promove um bom exercício de auto-conhecimento, geralmente concluído de maneira positiva, incitando o leitor a uma nova tomada de posição. 

Não é exatamente um livro fácil, mas as reflexões que promove o tornam particularmente bonito, inspirador e esperançoso.

4. Seja Feliz e Faça os Outros Felizes - Antônio Maria
Antônio Maria só não é mais conhecido entre os melhores do gênero porque morreu cedo. 

Nesse livro, eles nos pega pelo humor, e um humor daqueles que nos deixam desnorteados, de tão certeiro - não é a gargalhada, mas "o humor de canto de boca", como diz a orelha. 

É digna de nota a sua relação com leitores, especialmente os que pediam seus serviços de conselheiro sentimental. 

Maria parece se divertir escrevendo, ao mesmo tempo que esconde suas angústias num mundo de franquezas em que pouca gente tem uma coisa boa a dizer. 

Faz humor poético, confessional, parecendo desejar um tipo de amor que quase não há. 

3. A Menina sem Estrela - Nelson Rodrigues
Nelson Rodrigues é aclamado como teatrólogo, contista e cronista esportivo. Mas as suas memórias, relatadas em forma de crônicas, e iniciadas neste livro, são suficientes para colocá-lo também entre os grandes do gênero de Rubem Braga. 

Nelson é criador de um estilo, marcado pela extrema agilidade da linguagem, por um intenso fluxo de ideias e, naturalmente, pelas frases de efeito. 

E em "A Menina Sem Estrela" enxergamos uma sinceridade incomum nos relatos autobiográficos, com Nelson não hesitando em revelar deslizes morais da sua vida no teatro, por exemplo. 

Em muitos momentos, também é emocionante. 


2. O Luar e a Rainha - Ivan Lessa
Outro cronista atento ao noticiário, Ivan Lessa traz, lá de Londres, um olhar aguçado sobre os episódios internacionais dos anos 2000 a 2004 - ou seja, revemos, em textos tão bem-humorados quanto críticos, o 11 de Setembro e depois a Guerra do Iraque. 

A isso, somam-se os textos em que mergulhamos nos fait divers, nas pesquisas e estatísticas insólitas, das quais Lessa sempre extrai alguma piada e, se formos ver bem a fundo, o questionamento das lógicas da imprensa. 

São textos curtos, mas bastante precisos, com domínio das palavras. 

E que ainda favorecem a troca de impressões entre Brasil e Inglaterra. 


1. O Óbvio Ululante - Nelson Rodrigues. 
Embora seja parte de suas memórias, "O Óbvio Ululante" é o livro de um cronista contemporâneo, bastante interessado nas tendências do Brasil em que vivia - aqui estão vários textos que contribuiriam para sua fama de reacionário. 

Suas crônicas são densamente povoadas. Há citações para todos os lados, e algumas obsessões, como Dom Hélder Câmara e Hélio Pellegrino. 

Seu estilo seco é bastante envolvente e não deixa muito espaço pra indiferença do leitor. Também é um livro divertido, repleto das sacadas que fizeram de Nelson um grande frasista. 

E a rabugice do autor acaba tornando-o até mais simpático. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Os meus sapatos

Essa história de ter mais amigas mulheres do que homens volta e meia me coloca em enrascadas. Não é raro o dia em que entro com elas em lojas de roupas, sapatos ou bolsas - coisas muito necessárias e bonitas, mas que nem por isso chamam muito a minha atenção. Sei que existem homens que gostam e, mais do que isso, que entendem do assunto. Não é o meu caso. De qualquer forma, eu as acompanho, e vou dando palpites aqui e ali, todos muito sinceros, embora sempre embasados no senso comum. Mesmo assim, elas levam em consideração. Opinam. Discutem. Gostam de estar ali e querem falar sobre isso.

Na última vez em que isso aconteceu, eu estava com duas mulheres em uma loja era de sapatos. Elas queriam trocar um presente de amigo oculto. O sapato servia direitinho, mas, se há a possibilidade de trocar por um mais bonito, por que não? E foram lá trocar. Eu, naquele dia, estava especialmente entediado e me afastei, olhando sapatos sem me interessar por eles. Na verdade, nem parece que a sapataria foi uma tradição na minha família. Meu trisavô aprendeu a ser sapateiro em Viena e depois montou uma fábrica e oficina no Brasil. Ensinou tudo ao seu filho, que levou adiante o negócio. E eu, hoje, calço mal, muito mal.

Fui então até a porta da loja. Era um shopping center. Para a minha sorte, logo em frente havia uma livraria. Deixei as duas escolhendo seus sapatos e sorrateiramente parti para lá. Ah, que maravilha! Aquele sim era o meu lugar. Gosto de livros, embora não tenha muitos - são caros pra mim. Mas leio bastante, e me considero capaz de fazer algumas considerações até aceitáveis sobre as minhas leituras. E às vezes, até sobre o que não leio. Numa livraria, ainda que não compre nada, consigo mais informações sobre escritores e as coisas que escrevem. E ainda oriento os empréstimos que depois farei em uma biblioteca.

É o tipo de lugar em que poderia tranquilamente passar algumas boas horas, sem ver o tempo passar. Só que, desta vez, não fiquei muito tempo, pois logo as duas mulheres vieram atrás de mim - parece que na loja não havia o número que uma delas calçava. E quando elas me encontraram diante de uma prateleira, folheando um livro e babando pelos outros, não tive dúvidas e tasquei essa grave sentença, absolutamente verdadeira: "Esses aqui são os meus sapatos". 

Um livro seria provavelmente o que eu pediria em um amigo oculto - e provavelmente seria o único a fazer coisa semelhante. Não quero dizer com isso que eu seja uma pessoa mais bacana apenas porque peço um livro no lugar de um sapato. Acho, inclusive, que eu seria uma pessoa muito mais bacana se, além dos livros, entendesse mais sobre sapatos. Mas também não posso deixar de lamentar que não nos ocupemos de livros com a mesma frequência de um artigo do vestuário.

Em todo caso, amigo leitor, caso venha a me tirar em um amigo oculto nesse final de ano, já sabe o que irá me agradar. Compre um livro. Não qualquer livro, naturalmente. Nada de auto-ajuda. De preferência, evite os best sellers do momento. Se me vier com A Cabana, eu volto lá correndo pra trocar. Não é o meu número. Poesia, eu tenho dificuldade. Direi tudo de uma vez: compre um livro de crônicas. Mas nada de Martha Medeiros, por favor. Nem Clarice. Eu gosto da Clarice, mas não a toda hora. 

Ah, quer saber? Dê-me um vale-presente e estamos entendidos.