quinta-feira, 31 de março de 2016

Para pessoas de opinião (Artur da Távola)

 Você me dirá que uma das coisas que mais preza é sua opinião. Prezar a própria opinião é considerado virtude. “- Fulano? É uma pessoa de opinião”. E realmente é preciso força e decisão para “ter opinião”. Não é fácil.

Você me dirá, ainda, do que é capaz de fazer para defender a própria opinião. Ter opinião é tão importante que há até um direito dos mais sagrados, o direito à opinião, ultimamente, aliás, bastante afetados, pois vivemos tempos de ampliação do delito de opinião. Ter opinião, em vez de ser considerado um estágio preliminar da convicção, passa a ser ameaçador.

Mas sem contrariar a força com que você defende as próprias opiniões e, sobretudo, defendendo o seu inalienável direito de tê-las, eu lhe proporei pensar sobre se a opinião é uma instância realmente profunda ou se ela é, tão-somente, uma das primeiras reações que se tem diante das coisas.

Será a opinião uma reação profunda ou superficial? Ouso afirmar que, via de regra, ela é das mais superficiais.

Opinião é quase sempre uma reação e expressa um sentimento, um julgamento. Ao reagir a algo, o sentimento realiza uma espécie de sínteses do que e de como somos. Esta síntese aparece na forma pela qual reagimos a algo. A primeira reação é reveladora do sentimento com que julgamos a vida, o mundo, as pessoas. Quase sempre a opinião surge neste etapa inicial, nesse segundo patamar, nessa instância superficial do nosso ser com a qual julgamos as coisas tão logo se nos apresentam. Somos um repositório de primeiras impressões!

Pode-se, efetivamente, garantir que as nossas opiniões são, realmente, fruto de uma meditação mais profunda? Ou de um conhecimento sedimentado? Positivamente não. Quem responder sinceramente vai concluir que tem muito mais opiniões do que coisas que sabe ou conhece. Em relação àquelas poucas coisas que realmente conhecemos ou sabemos a fundo é que se torna difícil ter opinião, pois qualquer conhecimento profundo de algo, não leva á opinião: leva à análise, à convicção, à dúvida ou à evidência e nenhuma dessas quatro instâncias tem a ver com a opinião.

Quem (se) reparar com cuidado verificará o quanto é levado a opinar, vale dizer, reagir, sentir, julgar, diante dos variados temas. Somos um aluvião de opiniões. Defendemo-nos de analisar, tendo opinião: preservamo-nos do perigoso e trabalhoso mister de pensar, tendo logo uma opinião.

É mais fácil ter opinião do que dúvida, porque ter opiniões sempre traz adeptos e dividendos pessoais de prestígio, respeitabilidade, aura de coragem ou heroísmo.

As opiniões são uma espécie de fabricação em série de idéias sempre iguais, saídas em série do modelo pelo qual vemos o mundo, e que nos faz enfocar a realidade segundo um eterno subjetivismo. Por isso nossa opinião quase nunca é o reflexo das variadas componentes do real. Ela é um eco a repetir a nossa experiência anterior, diante de cada caso novo que surge. A opinião é uma forma de se defender da complexidade do real, logo, uma forma de impedir a criatividade do homem.

Na origem latina, opinar tem um sentido ambíguo. É muito mais “conjecturar” do que “afirmar”. A palavra chega a ter, nos seus vários sentidos, o de “disfarçar”. Creio que a origem do termo é mito mais fiel ao seu significado do que a tradução que hoje se lhe dá.

Opinião não significa saber nem conhecer. Opinar significa ter uma opinião a respeito de algo, isto é, uma impressão sujeita a retificações, a correções, a mudanças permanentes. O sentido essencial de opinar é conjecturar, ou seja, supor uma realidade para poder discuti-la e assim melhor conhecê-la.

E, no entanto, nos ofendemos se contrariam a nossa opinião; vivemos em busca do respeito à “nossa opinião”. E, mais grave e freqüente, vivemos a sofrer por causa da opinião ou de opiniões dos outros.

Basta vivenciar dentro, profundamente, que a opinião de uma pessoa é o resultado das manifestações (reações) mais superficiais e fáceis do seu espírito, para que a gente deixe de dar tanta importância ao que dizem de nós e machuca, faz brigar, odiar, matar e até guerrear.

A opinião é: uma instância superficial; um exercício de dúvida e de conhecimento disfarçado em certeza ou afirmação; uma conjetura em forma de assertiva. É mais a expressão de um sentimento do que a conciliação deste com o conhecimento e com a verdade. A partir do momento em que sabemos de tudo isso, obrigatoriamente temos que deixar de dar tanta importância à opinião alheia e à própria. É preciso sempre submetê-la ao crivo da permanência, do tempo, da análise, do conhecimento, da vivência, da experimentação dela em situações diferentes, em estados de espírito diversos, para só então, considerá-la significativa, válida e profunda.

Mas qual de nós está disposto a aceitar que a própria opinião, embora válida e respeitável, é uma forma superficial de manifestação?

Quem está disposto a se dar ao brutal trabalho de atribuir à opinião a sua verdadeira função, que é nobilíssima: a de ser trânsito, passagem, via para a Convicção, para a Análise, para a Dúvida e para a Evidência que são os quatro elementos que compõem a verdade?


Esta é a minha opinião...

quinta-feira, 5 de março de 2015

Otto e a maldição de Nóe

Ou eu muito me engano ou na semana passada eu comecei a contar as minhas desventuras por ocasião da última visita que fiz ao Otto – o Bismarck das Araucárias. De fato, não posso dizer que essa visita tenha sido das mais agradáveis, apesar dos doces que comi e dos outros mais que a dona Johanna fez questão que eu levasse para casa. A questão foi, vocês devem lembrar, que eu apresentei uma foto da futura senhora Fendrich e o Otto pareceu não gostar do fato de ela ser morena, quase negra. Disso resultou uma discussão em que o Otto chegou a invocar até mesmo “a maldição que Noé jogou em cima desses povos”. Tomado de cólera, eu apenas consegui dizer “Mentes! Mentes”. Assim terminamos na semana passada.

O primeiro pensamento que me veio à mente, logo depois daquele que me dizia para quebrar a cara do Otto, foi o de surpresa ao constatar que Otto tentava citar um episódio bíblico. Ora, todo são-bentense sabe que o Otto vai à igreja todo domingo, precisando ou não. É católico, sobretudo porque o seu pai fora católico, e antes dele o seu avô, e também o pai do seu avô. Se todos os homens da família fossem mórmons, Otto seria mórmon sem tirar nem por – até deixaria de beber cerveja. Mas calhou que a tradição na família fosse a de ser católico, e só por isso é que Otto é católico – nunca soube que lesse a Bíblia, e por isso o meu espanto.

Como eu não sou de todo ignorante nessas questões, eu sabia que essa história de maldição aos negros é mentira – apesar do que andou dizendo por aí o Marco Feliciano. E, depois de me acalmar, foi o que tentei mostrar ao Otto, pegando emprestada uma Bíblia muito bonita, embora um tanto empoeirada, que o Otto deixa de adereço em uma mesinha. Vamos resumir a história: Noé plantou uma vinha, bebeu do vinho e ficou bêbado, tão bêbado que chegou a ficar pelado. Um dos filhos de Noé, chamado Cam, viu o pai nesse estado e, em vez de cobri-lo, foi contar a seus irmãos. Estes sim, foram lá e cobriram a nudez do pai. Quando voltou a si, Noé ficou sabendo da história e jogou uma maldição, não sobre Cam, mas sobre o filho deste, chamado Canaã. Deu a entender que seus descendentes seriam oprimidos por outras nações.

Bolas, os filhos de Cam foram para a África, mas não Canaã. Os descendentes de Canaã foram para um lugar conhecido, vejam só que coisa, como Canaã – ali na região de Israel.  Anos mais tarde eles seriam exatamente expulsos pelos israelitas, cumprindo ali a tal da maldição. Mas claro, ao longo da história sempre foi bastante conveniente associar essa maldição aos negros, pois isso justificaria que continuássemos os explorando – legitimados pela palavra do Senhor! Tentei explicar tudo isso ao Otto, mas tenho certeza que ele não acreditou em coisa alguma – é sempre muito difícil usar a razão para convencer quem já se convenceu sem ela.

Devolvi a Bíblia à sua mesinha, não sem antes sugerir ao Otto que pare de achar que Deus é o sujeito que diz amém aos seus pensamentos. Otto pareceu arrependido por ter entrado em assunto tão espinhoso e, como para fazer as pazes, disse que ia me pagar uma rodada de iogurte. Não sei por que, mas acho que aos poucos o Otto vai me entendendo.

Leia todas as histórias com Otto, o mais alemão dos são-bentenses: 

1. Otto e a cidadania europeia 












sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Otto e a futura senhora Fendrich

Todo Carnaval eu viajo para o sul, o que é uma maneira de escapar das folias, e em nenhum lugar eu me sentiria mais seguro contra elas do que na casa do Otto, o mais alemão dos são-bentenses.  Otto, naturalmente, não comemora o Carnaval – diz que é uma sem-vergonheira só, e que é por causa disso que o país não vai para frente. Embora considere impossível que um homem alcance a verdadeira felicidade sem fazer uso de cerveja, Otto chegou até mesmo a lamentar quando a televisão mostrou a imagem de jovens caindo pelo chão em festas de rua. Eu não queria comprar briga, e por isso nada falei sobre algumas cenas que vi na Oktoberfest.

A verdade é que eu estava de bom humor. Havia chegado exatamente na hora do café e me empanturrava com os deliciosos cuques oferecidos pela dona Johanna, a mulher do Otto. Papo vai, papo vem, e a dona Johanna me pergunta se eu não penso em me casar. Quase toda vez que eu visito a casa do Otto ela me pergunta isso. Estou convencido de que, para ela, a minha vida é um perfeito fracasso se eu não estiver casado. O próprio Otto concorda com ela, e mais de uma vez me mostrou a conveniência de levar meus genes germânicos a uma nova geração.

Nas outras vezes, eu tive que dar uma resposta evasiva, pois eu realmente não havia pensado em me casar. Mas dessa vez eu tinha uma boa nova, e a anunciei como se fosse uma promessa de vida eterna: “Estou namorando”. O que se passou então foi algo indizível, ficaram os dois tão comovidos com a novidade que nem repararam quando peguei o último cuque de banana. Felicíssimos, começaram a me fazer perguntas sobre quem era a escolhida. Otto queria saber “de que família” ela era. Não pude reprimir um sorriso maroto quando respondi que era “da tradicional família Silva”. Otto recuou, espantado. Ainda conseguiu balbuciar: “Não é alemã”? Fui sincero como um teste de gravidez: era brasileira, tão brasileira quanto um índio botocudo.

Enquanto ele se recuperava, dona Johanna perguntou se por acaso eu não tinha uma foto da moça. Por acaso eu tinha. Tirei-a da carteira e mostrei a ela, que não poupou elogios à “futura senhora Fendrich”. Otto, no entanto, quando viu a foto, não pôde reprimir uma expressão de desagrado. Suspeitei que isso pudesse ter a ver também com a cor da senhora Fendrich – de fato, ela é morena, quase negra. Normalmente sou bastante tranquilo com o Otto, mas aquela suspeita me indignou, e então, como o apóstolo Paulo, eu lhe resisti na face: perguntei o que ele achava de um homem branco namorar uma mulher negra. Otto ficou bastante embaraçado e por um momento não soube o que responder. Como eu insistisse, começou uma confusa explicação sobre os motivos para que esses relacionamentos fossem evitados, chegando a invocar até mesmo “a maldição que Noé jogou em cima desses povos”. Neste momento eu o interrompi e, com os olhos rútilos e os lábios trêmulos, só consegui dizer: “Mentes! Mentes!”

Otto se assustou com a minha reação, e dona Johanna veio se acercar de mim pedindo que eu tivesse calma e não prestasse atenção ao marido. E se eu termino aqui agora, com esse grau de dramaticidade, é apenas para garantir a audiência da coluna na semana que vem. Tschüss!



Leia todas as histórias com Otto, o mais alemão dos são-bentenses: 

1. Otto e a cidadania europeia 











sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Os tumultos da paz (Hélio Pellegrino)

Costuma-se confundir paz com imobilismo quietista ou, o que é pior: costuma-se desfigurá-la a ponto de enxergar nela um sinônimo de conformismo submisso, onde a ausência de conflito é valorizada como virtude, e a tibieza celebrada como valor. Na realidade, paz nunca é pasmaceira. Nem turbulência coagulada pela força do arbítrio. Nem muito menos silêncio das tumbas. Ao contrário, paz é tensão criadora, e implica agonia ativa e apaixonada vigília. Não há paz sem contradição e contradição dialéticas. Paz é, portanto, possibilidade de comunicação autêntica, de diálogo, de palavra plena. Nada em si mesmo é completo, acima e além da contingência, do movimento, da transformação. Todas as coisas - mergulhadas no rio heráclito - trazem em si os seus contrário e, nesta medida, nascem, vivem e morrem, para dar lugar a novos nascimentos, novas vidas, novas mortes. É do embate de opostos que surge o desvendamento da verdade, através do ballet célebre: tese, antítese e síntese.

Para que se possa chegar à síntese - ponto de partida para novas contradições, que irão dividi-la - é preciso que a tese e a antítese tenham garantido o seu direito à palavra, ao debate sem medo e sem coação. Não há paz sem liberdade. Não há progresso sem liberdade. Não há nada de verdadeiramente humano sem liberdade. Para que exista paz, é necessário que haja humildade, transparência, paciente busca da justiça. Se quero construir a paz com os outros seres humanos, tenho que saber que não sou nem onipotente, nem perfeito. Paz é virtude coletiva, política, edificada com os outros. Ela implica, portanto, e de maneira radical ao Próximo, escuta atenta, modéstia.

Paz é consentimento profundo na existência do Outro. Só através dele é que chego a ganhar-me, em minha autonomia, identidade e diferença. O mundo me esbarra, limita, resiste - e liberta. O mesmo acontece com a presença intersubjetiva do Outro a meu lado, companheiro com quem divido a tarefa da construção da polis - cidade de todos. A alteridade é constitutiva de mim, enquanto pessoa, da mesma forma que eu, pela minha existência, sou uma dádiva doada ao Outro, para que ele seja.

Ao postular a necessidade de amor ao Próximo, nem por isso me exponho ao mundo de artérias abertas, nem abro mão do investimento narcísico fundamental que constitui a base de minha coesão psíquica. O amor ao Próximo está longe de representar um devaneio beato e piedoso, conto da carochinha para embair crianças, desavisados e inquilinos de sacristia. Trata-se de uma essencial exigência pessoal e política, sem cujo atendimento não nos poremos a serviço, nem de nós mesmos, nem de ninguém. Amar ao próximo como a si mesmo é, por excelência, a regra de ouro, cânon fundador da única prática pela qual poderemos chegar a um pleno amor por nós próprios. Sou o primeiro e mais Próximo de mim, e esta relação de mim para comigo passa, inevitavelmente, pela existência do Outro. Este é o termo terceiro, a referência transcendente por cuja mediação passo a construir a minha auto-estima.

Eis aí o modelo da paz. Minha abertura ao Outro constitui - sem nenhum pieguismo! - um ato de gratidão por ele existir, dando-me a possibilidade  de minha própria existência. Ao defender o direito que tem o Outro de ser, afirmo - e confirmo - o meu direito de existir. O contrário da paz é o ódio ao próximo ou a si mesmo, seja em nome do que for. O ódio me destrói sempre, na medida em que visa a destruir meu irmão, meu vizinho, meu contendor - meu inimigo. O amor aos inimigos não é a utopia de um louco manso chamado de Jesus Cristo. Antes e acima de tudo é um princípio pragmático, vacina contra a raiva que garante minha integridade psíquica e existencial.

O racismo, por exemplo, é o contrário da paz. O anti-comunismo irracional, do fascista cego, também o é. O racista, por covardia, atribui à raça estrangeira todas as nódoas e imperfeições que não suporta em si mesmo. A alvura do racista americano - ou rodesiano - é suja e conspurca a dignidade humana. Por seu intermédio, deixa ele de assumir seus defeitos e mesquinhezas e os projeta, com excremento, na face de crianças inocentes, de mulheres, de velhos ou de quem quer que traga o estigma da cor maldita. O racista, para afirmar-se e estimar-se, tem que destruir o Outro, numa negação assassina. sua auto-estima perversa depende da anulação daquele que encarna a diferença. Quanto mais o odeia - e se odeia, nele -, mais se embriaga de arrogância. Do que irá decorrer que o racista, inevitavelmente, venha a servir ao homicídio, ao genocídio, à guerra, à destruição de si mesmo e dos outros.

No caso do anticomunista irracional, a estrutura do problema é basicamente a mesma. O capitalismo é um intrinsecamente mau, já que implica um injustiça visceral, que lhe constitui o cerne. Por mais que tente embelezar-se , o regime capitalista na exploração do homem pelo homem, e isto gera um modelo de sociedade em que a riqueza e o fastígio de uns poucos se erigem à custa do trabalho e da privação de muitíssimos. Nessas condições, a possibilidade de paz é relativa, e só se construirá na medida em que os vícios e as iniquidades do sistema possam ser dialetizados, discutidos e modificados, num clima de absoluta liberdade política.

Acontece, entretanto, que o regime capitalista, em todos os lugares está longe de reconhecer seus defeitos e imperfeições. Os capitalistas, inflando as bochechas de retórica, costumam autoproclamar-se defensores dacivilização ocidental e cristã, paladinos da liberdade e cavaleiros da mais pura justiça social. Se assim é, o descontentamento popular, os conflitos e a violência, as greves e os embates gerados pela luta de classes hão de ser imputados, não às podridões do regime - que inexistem -, mas à ações deletéria dos grupos subversivos, a serviço e a soldo do comunismo internacional. Há aqui projeção, no sentido psicanalítico do termo, além de negação da dialética e, portanto, do movimento da vida.

Ta modelo sociológico, psicológico e político, tão bem exemplificado através do racismo e do anticomunismo cego, me parece representar, nos dias de hoje, um verdadeiro câncer, capaz de gerar patologia pessoal e social que  venha a empurrar o mundo no rumo da catástrofe e da destruição. O maniqueísmo - racista, anticomunista, religioso, ou de qualquer outro tipo - constitui, por excelência, o pecado contra a vida e contra a paz, a serviço da morte. A paranóia maniqueísta produz a pululação crispada da arrogância, da crueldade enlouquecida, da soberba sem limites. Daí para o apocalipse, é um passo.

Paz, finalmente, é a assunção - mais do que dolorosa, porque crucificadora - de que nós, os humanos, somos carcaças deitas de tempo, marcados pela finitude, que constitui nossa dimensão mais radical. Paz é a possibilidade de nos sabermos sem rancor excessivo, falíveis, finitos, limitados, necessariamente ultrapassáveis. Ela exige, portanto, aceitação - e reverência - do que é novo e dessemelhante, pela consciência que devemos ter de  que jamais possuiremos, a respeito de coisa alguma, a última palavra. Paz é coragem de pôr-se de acordo com a verdade, a justiça, a liberdade. E como a verdade, a justiça e a liberdade implicam a existência dos outros, paz é coragem de con-sentir na existência deles, inferno muitas vezes, escândalo quase sempre, mas porto e destino de tudo o que é humano.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Gratidão (Dino Buzzati)

Um agradecimento por ter feito, especialmente para mim, o mundo tão grande e variado. Por ter feito tantos bilhões de outros homens, na aparência semelhantes a mim, para me fazer companhia e por tê-los espalhado por toda a parte, para que, onde quer que eu vá, não me encontre sozinho. Além disso: por ter feito viver muitos outros bilhões antes do meu nascimento, para que suas aventuras possam distrair-me e fazer-me pensar. E por ter criado tantas terras longínquas onde, se eu tivesse sido explorador, teria podido explorar. E por ter posto no mundo tantos sábios que podem me explicar as infinitas estranhezas deste reino; mesmo deixando sua maior parte ainda envolva em mistério para que, se for atraído, possa eu também descobrir alguma, ou, pelo menos, sonhar com elas nas noites de verão. E, suspensas no céu, miríades de estrelas, das quais percebo apenas uma mínima porção, reservando as outras para o caso de ter sido um astrônomo e tivesse desejado investiga-las. E assim por diante, poderia continuar a enumeração por centenas de páginas.
Pensando no assunto, algumas vezes parece-me até um exagero. Quantas montanhas, mares, cidades, linguagens e músicas, auroras e crepúsculos que nunca verei, de cuja existência nem suspeitarei. Um universo imenso com uma infinita variedade de vidas diversas, uma coisa tão bela e tão grande para mim, pobre ser que nem sabe olhar ao redor de si. Esse tormento de nascimentos, de sofrimentos e de tragédias, perpetuado por milhões de anos com a única finalidade de me comprazer!
Deus, agradeço-te também por teres favorecido tantas dores para que eu possa apreciar o meu pequeno bem. Mais ainda, teres provocado guerras e ódios infernais para que, medindo a perfídia dos homens, não me afeiçoe excessivamente a este mundo. E tê-los feitos inimigos e miseráveis também em relação a mim, para que, reconhecendo-me igual a eles, duvide sempre dos meus méritos, e além disso me considere pobre eu também e abjeto.
Agradeço-te também os inumeráveis medos, desilusões, penosas esperas, doenças, e ter-me, finalmente, evitado a possibilidade de ser feliz, para que a existência me apareça pouco a pouco cada vez mais ingrata; e para que eu aprenda a deixa-la sem excessivas nostalgias.
Maravilhosa solicitude! Tudo foi estudado de maneira – cadeia sem fim de tragédias, de baixezas, de perversidade,, de mortais indiferenças – de maneira que, pouco a pouco, esta casa me agrade um pouco menos. E para que eu comece, ao contrário, a desejar outra, exatamente aquela que talvez me espere.
Este aparato de males, um oceano negro, foi disposto, com magnificência, exclusivamente para mim!, penso, às vezes, perdido. Mas não é um desperdício, se pensarmos em quanto sou pequeno?
Entretanto, vede, não basta (e aqui se encontra a suprema maravilha). Tudo e todos ao meu redor, olhando-me nos olhos, sem nunca deixar prevalecer minha astúcia avidíssima, mostram-me, com seu exemplo, a vaidade das coisas ou me fazem cair para que eu sinta como é áspera a terra; com paciência infinita desfazem, à medida que as tento, as tramas de minha espera. Não basta, vos digo. Cego, cada vez levanto novamente a cabeça, desprezando tanta sabedoria que se espalha no universo.
Cada manhã recomeço, estupidamente me preparo para gozar este palácio misterioso. O coro diário de penas, de soluços e de mortes me ameaça em vão. Não quero compreender. O hóspede, sorrindo, não se cansa de indicar-me a porta, convidando-me a olhar além, para o reino feliz. Mas eu, estúpido, me obstino, permaneço sentado brincando, esperando, distraindo-me com pedrinhas. Obstinado, permaneço parado e estremeço a cada rangido, na solidão do jardim. 

(In: "Naquele exato momento", Editora Nova Fronteira, 1986)

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Otto vai às urnas

Nos últimos dias, muitas pessoas têm me parado na rua para pedir notícias do Otto, o mais alemão dos são-bentenses. Querem saber o que aconteceu com ele depois que eu lhe joguei na cara, à queima-roupa, que alguns dos seus ancestrais eram baianos. De fato, eu próprio cheguei a ficar preocupado, e foi movido por certo sentimento de culpa que tornei a visitá-lo no último fim de semana. Venho aqui, portanto, tranquilizar a todos: Otto, o Bismarck das Araucárias, nunca esteve tão bem – está tão saudável quanto um soldado prussiano.

Entre as coisas que admiro no Otto está a sua capacidade de esquecer tudo o que lhe desagrada. Por um lado, isso me obriga a repetir a cada encontro que os seus antepassados vieram da Boêmia, e não da Alemanha, mas por outro permite que ele passe por cima, com a maior naturalidade, de informações tão duras como essa de que há sangue baiano correndo em suas veias. Quando fiz uma ligeira alusão ao assunto, ele disse que estava tudo bem, afinal, “também houve imigração alemã na Bahia”. Achei melhor não levar a discussão adiante.

Até porque, não se falou em outra coisa além de política (eu sempre escolho as piores épocas para visitá-lo). Otto, em termos de política, é mais conservador que o Celso Roth em termos de futebol. Tem simpatia pela monarquia e, no fundo, concorda com os imigrantes que viam na República uma espécie de anticristo. Não havendo príncipes ou reis, limita-se a votar nos partidos de direita. Ao analisar os resultados do primeiro turno, Otto voltou a defender a separação do sul do Brasil. Já disse aqui uma vez: Otto quer separar o sul do Brasil. Ou melhor, o sul mais São Paulo e o Mato Grosso do Sul – que, além de ser “do Sul”, ainda tem o Pantanal, que é ótimo para pescar, e não agradaria ao Otto ter que atravessar fronteira para chegar lá.

Deixei que falasse, pois havia prometido a mim mesmo que dessa vez não iria me desentender com ele. O problema foi que dali a pouco chegou o Otto, o filho do Otto. Vocês sabem: o filho do Otto é, sobretudo, o anti-Otto. Ao contrário do pai, o filho do Otto se posiciona sempre à esquerda (às vezes se posiciona tão à esquerda que chega a sair do esquadro). Quando viu que falávamos sobre política, quis entrar na discussão, e garanto que ela não foi nem um pouco mais edificante do que aquelas que temos acompanhado pelo Facebook. Procurei não me intrometer, pensando comigo que tudo aquilo não passava de um simples problema de ortografia (para o pai, o importante era a Prússia; para o filho, a Rússia).

Foi quando eles se viraram para mim e, em busca de apoio, perguntaram o que eu achava. Fui sincero como uma pesquisa de boca de urna: eu ainda não tinha uma posição definida sobre essa eleição. Mal terminei de falar isso e pai e filho se voltaram contra mim, cobrando energicamente uma definição, dizendo que eu não podia ficar em cima do muro, que é preciso ser quente ou frio, que eu não posso me eximir, que é o futuro do país que está em jogo e que não é hora para se acovardar. Olhei espantado para aquela dupla, repentinamente unida em um mesmo propósito. E só então me ocorreu o óbvio: para quem briga, pior que pensar diferente é não pensar em brigar.


Leia todas as histórias com Otto, o mais alemão dos são-bentenses: 

1. Otto e a cidadania europeia 










terça-feira, 23 de setembro de 2014

Reflexões em tempos eleitorais

Nenhum argumento convence quem não deseja ser convencido. Não adianta apresentar as suas conclusões a quem ainda não chegou a elas. A única maneira de uma pessoa concordar com você é oferecer meios para que ela - se quiser - chegue sozinha às suas próprias conclusões. Não é outra a lógica das parábolas: uma linguagem figurada, um sentido obscuro que obriga - aqueles que assim desejarem - a refletir a respeito. Sendo bem construída, ela faz com que o ouvinte chegue à mesma conclusão de quem a contou. E, no entanto, se tudo fosse dito abertamente desde o início, onde haveria disposição para aceitá-la?
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Pode até funcionar para grande parte da população, mas, para mim, quem se preocupa mais em desconstruir a imagem do adversário - seja ele quem for - amontoa brasas sobre a sua própria cabeça. 
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Para que um candidato elogie o seu rival, é preciso que ele morra.
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Todos parecem dispostos a provar de forma racional a superioridade das suas escolhas, mas o que parece ser realmente decisivo na escolha de um candidato é a fé que se deposita nele.
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Há propostas de governo tão perfeitas - pelo menos da forma que são apresentadas - que só falta incluírem a ressurreição da carne.
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Todo mundo é a favor de uma nova política, mas eu ainda não vi ninguém prometendo ser uma nova pessoa.
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O desafio: deixar que o outro seja livre para fazer o que eu não concordo. 
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Como nos parecem sensatas as pessoas que concordam conosco!
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Acredite: é possível que uma pessoa inteligente e honesta intelectualmente chegue a conclusões totalmente opostas às suas.
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Quando foi a última vez que você voltou atrás em uma discussão?
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Ainda prefiro alguém que volte atrás a alguém que, com toda a sua coerência e firmeza de propósitos, nos leve ao precipício.
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Tudo será perdoado ao homem - menos que ele tenha alguma dúvida.
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Carreata serve para cantar vitória – mesmo diante da mais flagrante derrota.
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A mim pouco importa que a candidatura de um político ficha suja tenha sido finalmente barrada pela justiça eleitoral: antes, ela já havia sido barrada pelo tribunal mais terrível de todos, que é o da minha consciência.
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Não sei qual é a melhor estratégia para a nossa economia. Não sei se a autonomia do Banco Central é boa ou ruim. Não sei como resolver a questão da segurança pública. Não sei quais propostas de campanha são inviáveis. Não sei o que fazer para conseguir a paz mundial. Mas deixo aqui a minha admiração por todos aqueles que sequer precisam pensar a respeito: em segundos, enxergam todos os ângulos possíveis de uma realidade e sabem exatamente qual é o caminho ideal a seguir.