sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Os tumultos da paz (Hélio Pellegrino)

Costuma-se confundir paz com imobilismo quietista ou, o que é pior: costuma-se desfigurá-la a ponto de enxergar nela um sinônimo de conformismo submisso, onde a ausência de conflito é valorizada como virtude, e a tibieza celebrada como valor. Na realidade, paz nunca é pasmaceira. Nem turbulência coagulada pela força do arbítrio. Nem muito menos silêncio das tumbas. Ao contrário, paz é tensão criadora, e implica agonia ativa e apaixonada vigília. Não há paz sem contradição e contradição dialéticas. Paz é, portanto, possibilidade de comunicação autêntica, de diálogo, de palavra plena. Nada em si mesmo é completo, acima e além da contingência, do movimento, da transformação. Todas as coisas - mergulhadas no rio heráclito - trazem em si os seus contrário e, nesta medida, nascem, vivem e morrem, para dar lugar a novos nascimentos, novas vidas, novas mortes. É do embate de opostos que surge o desvendamento da verdade, através do ballet célebre: tese, antítese e síntese.

Para que se possa chegar à síntese - ponto de partida para novas contradições, que irão dividi-la - é preciso que a tese e a antítese tenham garantido o seu direito à palavra, ao debate sem medo e sem coação. Não há paz sem liberdade. Não há progresso sem liberdade. Não há nada de verdadeiramente humano sem liberdade. Para que exista paz, é necessário que haja humildade, transparência, paciente busca da justiça. Se quero construir a paz com os outros seres humanos, tenho que saber que não sou nem onipotente, nem perfeito. Paz é virtude coletiva, política, edificada com os outros. Ela implica, portanto, e de maneira radical ao Próximo, escuta atenta, modéstia.

Paz é consentimento profundo na existência do Outro. Só através dele é que chego a ganhar-me, em minha autonomia, identidade e diferença. O mundo me esbarra, limita, resiste - e liberta. O mesmo acontece com a presença intersubjetiva do Outro a meu lado, companheiro com quem divido a tarefa da construção da polis - cidade de todos. A alteridade é constitutiva de mim, enquanto pessoa, da mesma forma que eu, pela minha existência, sou uma dádiva doada ao Outro, para que ele seja.

Ao postular a necessidade de amor ao Próximo, nem por isso me exponho ao mundo de artérias abertas, nem abro mão do investimento narcísico fundamental que constitui a base de minha coesão psíquica. O amor ao Próximo está longe de representar um devaneio beato e piedoso, conto da carochinha para embair crianças, desavisados e inquilinos de sacristia. Trata-se de uma essencial exigência pessoal e política, sem cujo atendimento não nos poremos a serviço, nem de nós mesmos, nem de ninguém. Amar ao próximo como a si mesmo é, por excelência, a regra de ouro, cânon fundador da única prática pela qual poderemos chegar a um pleno amor por nós próprios. Sou o primeiro e mais Próximo de mim, e esta relação de mim para comigo passa, inevitavelmente, pela existência do Outro. Este é o termo terceiro, a referência transcendente por cuja mediação passo a construir a minha auto-estima.

Eis aí o modelo da paz. Minha abertura ao Outro constitui - sem nenhum pieguismo! - um ato de gratidão por ele existir, dando-me a possibilidade  de minha própria existência. Ao defender o direito que tem o Outro de ser, afirmo - e confirmo - o meu direito de existir. O contrário da paz é o ódio ao próximo ou a si mesmo, seja em nome do que for. O ódio me destrói sempre, na medida em que visa a destruir meu irmão, meu vizinho, meu contendor - meu inimigo. O amor aos inimigos não é a utopia de um louco manso chamado de Jesus Cristo. Antes e acima de tudo é um princípio pragmático, vacina contra a raiva que garante minha integridade psíquica e existencial.

O racismo, por exemplo, é o contrário da paz. O anti-comunismo irracional, do fascista cego, também o é. O racista, por covardia, atribui à raça estrangeira todas as nódoas e imperfeições que não suporta em si mesmo. A alvura do racista americano - ou rodesiano - é suja e conspurca a dignidade humana. Por seu intermédio, deixa ele de assumir seus defeitos e mesquinhezas e os projeta, com excremento, na face de crianças inocentes, de mulheres, de velhos ou de quem quer que traga o estigma da cor maldita. O racista, para afirmar-se e estimar-se, tem que destruir o Outro, numa negação assassina. sua auto-estima perversa depende da anulação daquele que encarna a diferença. Quanto mais o odeia - e se odeia, nele -, mais se embriaga de arrogância. Do que irá decorrer que o racista, inevitavelmente, venha a servir ao homicídio, ao genocídio, à guerra, à destruição de si mesmo e dos outros.

No caso do anticomunista irracional, a estrutura do problema é basicamente a mesma. O capitalismo é um intrinsecamente mau, já que implica um injustiça visceral, que lhe constitui o cerne. Por mais que tente embelezar-se , o regime capitalista na exploração do homem pelo homem, e isto gera um modelo de sociedade em que a riqueza e o fastígio de uns poucos se erigem à custa do trabalho e da privação de muitíssimos. Nessas condições, a possibilidade de paz é relativa, e só se construirá na medida em que os vícios e as iniquidades do sistema possam ser dialetizados, discutidos e modificados, num clima de absoluta liberdade política.

Acontece, entretanto, que o regime capitalista, em todos os lugares está longe de reconhecer seus defeitos e imperfeições. Os capitalistas, inflando as bochechas de retórica, costumam autoproclamar-se defensores dacivilização ocidental e cristã, paladinos da liberdade e cavaleiros da mais pura justiça social. Se assim é, o descontentamento popular, os conflitos e a violência, as greves e os embates gerados pela luta de classes hão de ser imputados, não às podridões do regime - que inexistem -, mas à ações deletéria dos grupos subversivos, a serviço e a soldo do comunismo internacional. Há aqui projeção, no sentido psicanalítico do termo, além de negação da dialética e, portanto, do movimento da vida.

Ta modelo sociológico, psicológico e político, tão bem exemplificado através do racismo e do anticomunismo cego, me parece representar, nos dias de hoje, um verdadeiro câncer, capaz de gerar patologia pessoal e social que  venha a empurrar o mundo no rumo da catástrofe e da destruição. O maniqueísmo - racista, anticomunista, religioso, ou de qualquer outro tipo - constitui, por excelência, o pecado contra a vida e contra a paz, a serviço da morte. A paranóia maniqueísta produz a pululação crispada da arrogância, da crueldade enlouquecida, da soberba sem limites. Daí para o apocalipse, é um passo.

Paz, finalmente, é a assunção - mais do que dolorosa, porque crucificadora - de que nós, os humanos, somos carcaças deitas de tempo, marcados pela finitude, que constitui nossa dimensão mais radical. Paz é a possibilidade de nos sabermos sem rancor excessivo, falíveis, finitos, limitados, necessariamente ultrapassáveis. Ela exige, portanto, aceitação - e reverência - do que é novo e dessemelhante, pela consciência que devemos ter de  que jamais possuiremos, a respeito de coisa alguma, a última palavra. Paz é coragem de pôr-se de acordo com a verdade, a justiça, a liberdade. E como a verdade, a justiça e a liberdade implicam a existência dos outros, paz é coragem de con-sentir na existência deles, inferno muitas vezes, escândalo quase sempre, mas porto e destino de tudo o que é humano.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Gratidão (Dino Buzzati)

Um agradecimento por ter feito, especialmente para mim, o mundo tão grande e variado. Por ter feito tantos bilhões de outros homens, na aparência semelhantes a mim, para me fazer companhia e por tê-los espalhado por toda a parte, para que, onde quer que eu vá, não me encontre sozinho. Além disso: por ter feito viver muitos outros bilhões antes do meu nascimento, para que suas aventuras possam distrair-me e fazer-me pensar. E por ter criado tantas terras longínquas onde, se eu tivesse sido explorador, teria podido explorar. E por ter posto no mundo tantos sábios que podem me explicar as infinitas estranhezas deste reino; mesmo deixando sua maior parte ainda envolva em mistério para que, se for atraído, possa eu também descobrir alguma, ou, pelo menos, sonhar com elas nas noites de verão. E, suspensas no céu, miríades de estrelas, das quais percebo apenas uma mínima porção, reservando as outras para o caso de ter sido um astrônomo e tivesse desejado investiga-las. E assim por diante, poderia continuar a enumeração por centenas de páginas.
Pensando no assunto, algumas vezes parece-me até um exagero. Quantas montanhas, mares, cidades, linguagens e músicas, auroras e crepúsculos que nunca verei, de cuja existência nem suspeitarei. Um universo imenso com uma infinita variedade de vidas diversas, uma coisa tão bela e tão grande para mim, pobre ser que nem sabe olhar ao redor de si. Esse tormento de nascimentos, de sofrimentos e de tragédias, perpetuado por milhões de anos com a única finalidade de me comprazer!
Deus, agradeço-te também por teres favorecido tantas dores para que eu possa apreciar o meu pequeno bem. Mais ainda, teres provocado guerras e ódios infernais para que, medindo a perfídia dos homens, não me afeiçoe excessivamente a este mundo. E tê-los feitos inimigos e miseráveis também em relação a mim, para que, reconhecendo-me igual a eles, duvide sempre dos meus méritos, e além disso me considere pobre eu também e abjeto.
Agradeço-te também os inumeráveis medos, desilusões, penosas esperas, doenças, e ter-me, finalmente, evitado a possibilidade de ser feliz, para que a existência me apareça pouco a pouco cada vez mais ingrata; e para que eu aprenda a deixa-la sem excessivas nostalgias.
Maravilhosa solicitude! Tudo foi estudado de maneira – cadeia sem fim de tragédias, de baixezas, de perversidade,, de mortais indiferenças – de maneira que, pouco a pouco, esta casa me agrade um pouco menos. E para que eu comece, ao contrário, a desejar outra, exatamente aquela que talvez me espere.
Este aparato de males, um oceano negro, foi disposto, com magnificência, exclusivamente para mim!, penso, às vezes, perdido. Mas não é um desperdício, se pensarmos em quanto sou pequeno?
Entretanto, vede, não basta (e aqui se encontra a suprema maravilha). Tudo e todos ao meu redor, olhando-me nos olhos, sem nunca deixar prevalecer minha astúcia avidíssima, mostram-me, com seu exemplo, a vaidade das coisas ou me fazem cair para que eu sinta como é áspera a terra; com paciência infinita desfazem, à medida que as tento, as tramas de minha espera. Não basta, vos digo. Cego, cada vez levanto novamente a cabeça, desprezando tanta sabedoria que se espalha no universo.
Cada manhã recomeço, estupidamente me preparo para gozar este palácio misterioso. O coro diário de penas, de soluços e de mortes me ameaça em vão. Não quero compreender. O hóspede, sorrindo, não se cansa de indicar-me a porta, convidando-me a olhar além, para o reino feliz. Mas eu, estúpido, me obstino, permaneço sentado brincando, esperando, distraindo-me com pedrinhas. Obstinado, permaneço parado e estremeço a cada rangido, na solidão do jardim. 

(In: "Naquele exato momento", Editora Nova Fronteira, 1986)

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Otto vai às urnas

Nos últimos dias, muitas pessoas têm me parado na rua para pedir notícias do Otto, o mais alemão dos são-bentenses. Querem saber o que aconteceu com ele depois que eu lhe joguei na cara, à queima-roupa, que alguns dos seus ancestrais eram baianos. De fato, eu próprio cheguei a ficar preocupado, e foi movido por certo sentimento de culpa que tornei a visitá-lo no último fim de semana. Venho aqui, portanto, tranquilizar a todos: Otto, o Bismarck das Araucárias, nunca esteve tão bem – está tão saudável quanto um soldado prussiano.

Entre as coisas que admiro no Otto está a sua capacidade de esquecer tudo o que lhe desagrada. Por um lado, isso me obriga a repetir a cada encontro que os seus antepassados vieram da Boêmia, e não da Alemanha, mas por outro permite que ele passe por cima, com a maior naturalidade, de informações tão duras como essa de que há sangue baiano correndo em suas veias. Quando fiz uma ligeira alusão ao assunto, ele disse que estava tudo bem, afinal, “também houve imigração alemã na Bahia”. Achei melhor não levar a discussão adiante.

Até porque, não se falou em outra coisa além de política (eu sempre escolho as piores épocas para visitá-lo). Otto, em termos de política, é mais conservador que o Celso Roth em termos de futebol. Tem simpatia pela monarquia e, no fundo, concorda com os imigrantes que viam na República uma espécie de anticristo. Não havendo príncipes ou reis, limita-se a votar nos partidos de direita. Ao analisar os resultados do primeiro turno, Otto voltou a defender a separação do sul do Brasil. Já disse aqui uma vez: Otto quer separar o sul do Brasil. Ou melhor, o sul mais São Paulo e o Mato Grosso do Sul – que, além de ser “do Sul”, ainda tem o Pantanal, que é ótimo para pescar, e não agradaria ao Otto ter que atravessar fronteira para chegar lá.

Deixei que falasse, pois havia prometido a mim mesmo que dessa vez não iria me desentender com ele. O problema foi que dali a pouco chegou o Otto, o filho do Otto. Vocês sabem: o filho do Otto é, sobretudo, o anti-Otto. Ao contrário do pai, o filho do Otto se posiciona sempre à esquerda (às vezes se posiciona tão à esquerda que chega a sair do esquadro). Quando viu que falávamos sobre política, quis entrar na discussão, e garanto que ela não foi nem um pouco mais edificante do que aquelas que temos acompanhado pelo Facebook. Procurei não me intrometer, pensando comigo que tudo aquilo não passava de um simples problema de ortografia (para o pai, o importante era a Prússia; para o filho, a Rússia).

Foi quando eles se viraram para mim e, em busca de apoio, perguntaram o que eu achava. Fui sincero como uma pesquisa de boca de urna: eu ainda não tinha uma posição definida sobre essa eleição. Mal terminei de falar isso e pai e filho se voltaram contra mim, cobrando energicamente uma definição, dizendo que eu não podia ficar em cima do muro, que é preciso ser quente ou frio, que eu não posso me eximir, que é o futuro do país que está em jogo e que não é hora para se acovardar. Olhei espantado para aquela dupla, repentinamente unida em um mesmo propósito. E só então me ocorreu o óbvio: para quem briga, pior que pensar diferente é não pensar em brigar.


Leia todas as histórias com Otto, o mais alemão dos são-bentenses: 

1. Otto e a cidadania europeia 










terça-feira, 23 de setembro de 2014

Reflexões em tempos eleitorais

Nenhum argumento convence quem não deseja ser convencido. Não adianta apresentar as suas conclusões a quem ainda não chegou a elas. A única maneira de uma pessoa concordar com você é oferecer meios para que ela - se quiser - chegue sozinha às suas próprias conclusões. Não é outra a lógica das parábolas: uma linguagem figurada, um sentido obscuro que obriga - aqueles que assim desejarem - a refletir a respeito. Sendo bem construída, ela faz com que o ouvinte chegue à mesma conclusão de quem a contou. E, no entanto, se tudo fosse dito abertamente desde o início, onde haveria disposição para aceitá-la?
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Pode até funcionar para grande parte da população, mas, para mim, quem se preocupa mais em desconstruir a imagem do adversário - seja ele quem for - amontoa brasas sobre a sua própria cabeça. 
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Para que um candidato elogie o seu rival, é preciso que ele morra.
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Todos parecem dispostos a provar de forma racional a superioridade das suas escolhas, mas o que parece ser realmente decisivo na escolha de um candidato é a fé que se deposita nele.
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Há propostas de governo tão perfeitas - pelo menos da forma que são apresentadas - que só falta incluírem a ressurreição da carne.
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Todo mundo é a favor de uma nova política, mas eu ainda não vi ninguém prometendo ser uma nova pessoa.
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O desafio: deixar que o outro seja livre para fazer o que eu não concordo. 
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Como nos parecem sensatas as pessoas que concordam conosco!
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Acredite: é possível que uma pessoa inteligente e honesta intelectualmente chegue a conclusões totalmente opostas às suas.
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Quando foi a última vez que você voltou atrás em uma discussão?
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Ainda prefiro alguém que volte atrás a alguém que, com toda a sua coerência e firmeza de propósitos, nos leve ao precipício.
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Tudo será perdoado ao homem - menos que ele tenha alguma dúvida.
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Carreata serve para cantar vitória – mesmo diante da mais flagrante derrota.
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A mim pouco importa que a candidatura de um político ficha suja tenha sido finalmente barrada pela justiça eleitoral: antes, ela já havia sido barrada pelo tribunal mais terrível de todos, que é o da minha consciência.
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Não sei qual é a melhor estratégia para a nossa economia. Não sei se a autonomia do Banco Central é boa ou ruim. Não sei como resolver a questão da segurança pública. Não sei quais propostas de campanha são inviáveis. Não sei o que fazer para conseguir a paz mundial. Mas deixo aqui a minha admiração por todos aqueles que sequer precisam pensar a respeito: em segundos, enxergam todos os ângulos possíveis de uma realidade e sabem exatamente qual é o caminho ideal a seguir. 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Otto vê a goleada da Alemanha

Estive rapidamente em São Bento e aproveitei para assistir ao jogo do Brasil contra a Alemanha na casa do Otto, o mais alemão dos são-bentenses – vejam vocês que ideia a minha! Ora, o Otto nasceu no Brasil por mera contingência. Espiritualmente, é mais alemão do que o classicismo de Weimar. Mas eu estava curioso para ver como ele reagiria a um Brasil e Alemanha. E, além do mais, eu queria mostrar a ele o resultado de algumas pesquisas genealógicas que fiz sobre a sua família. Fui, pois, até a casa dele.
Quem me recebeu foi a Dona Johanna, sua esposa – acho que nunca falei dela, e muito provavelmente porque estava ocupado demais me deliciando com os seus cuques. Disse que o velho Otto havia saído para comprar fogos e não demorava. Convidou-me a entrar e fui cumprimentar o Otto, o filho do Otto. O filho do Otto não gosta de futebol ou de qualquer coisa que não resolva o problema da saúde ou da educação no Brasil. Para o filho do Otto, o brasileiro só deveria se dar ao luxo de uma distração depois que a última criança da última escola da última cidade recebesse uma educação digna. Até lá, deveríamos ostentar pesado luto e só fazer amor para fins de procriação. É claro que ele não iria assistir ao jogo, ainda mais da Alemanha – Otto, o filho do Otto, já fez uma declaração abrindo mão dos seus genes.
Não dei muita conversa para ele e fui falar com Anita, a sua namorada. Anita olhou para mim e foi sincera como um profeta: “A Copa está comprada pelo Brasil”. Gelei por dentro e quis saber: “Mas como? E essa contusão do Neymar?”. Ela então me lançou um olhar de pena diante de tamanha ingenuidade. Lembrei-me ainda das bolas na trave contra o Chile, mas achei melhor não dizer nada. A Copa está comprada! Quem diria! Anita, vocês sabem, é uma caçadora de teorias da conspiração e, pelo que ela diz, o homem nunca foi à lua e o Fred também nunca foi atacante.
Mas eis que chega o nosso homem – Otto, o Bismarck das Araucárias. Recebeu-me com a costumeira cordialidade. Vestia a camisa da Alemanha. A do Schweinsteiger, é claro: “Ele tem o nome mais alemão de todos”, explicou. Ofereceu-me uma cerveja, mas dessa vez eu vim preparado e mostrei-lhe um atestado da minha gastro. E sentamos no sofá à espera do jogo. Bolas, o que foi aquele jogo? Otto exultava a cada gol. 30 minutos de jogo e não tinha mais fogos. Eu estava aborrecido, mas tolerava tudo aquilo. Até resolvi fazer uma piada: disse que desde a Segunda Guerra que os alemães não faziam uma blitzkrieg como aquela – por algum motivo eles não riram.
Só que chegou um momento que Otto passou da conta. Começou a falar que era a vitória da competência sobre a malandragem, que a disciplina havia sepultado o jeitinho brasileiro, que o chopp era muito melhor que a caipirinha, e por aí afora. Não me aguentei e joguei-lhe na cara: “Otto, você nem é alemão. É mais brasileiro do que o spray que o juiz usa. E outra, seus antepassados eram austríacos e lutaram contra a Alemanha”. Ele se assustou, mas eu continuei: “E sabe aquela sua única bisavó brasileira? Descobri que ela tem origens na Bahia. Na B-A-H-I-A”. E então, como o jogo estava perdido, levantei-me, peguei outro cuque, e fui embora.


quinta-feira, 24 de abril de 2014

Avaliações da II Bienal Brasil do Livro e da Leitura

Na condição de quem participou ativamente de todos os 11 dias da II Bienal Brasil do Livro e da Leitura, realizada em Brasília entre os dias 11 e 21 de abril de 2014, coloco abaixo alguns dos meus destaques positivos e negativos sobre o evento. No geral, os debates promovidos pela Bienal foram muito bons, mas a organização deixou muito a desejar em alguns pontos.

DESTAQUES POSITIVOS

- As historinhas contadas por Eduardo Galeano na abertura da Bienal.

- A conclusão da mesa com Xico Sá e Sérgio Rodrigues de que é possível torcer para o Brasil sem entrar em conflito com a sua consciência política. 

- O nível do debate sobre biografia, com participação do Ruy Castro e moderação do Toninho Vaz.

- As moderações de Toninho Vaz, Paulo Rossi, Rosana Jatobá e do curador Luiz Fernando Emediato. 

- A decisão de distribuir ingressos individuais para as palestras, ao contrário da primeira Bienal, em que o acesso era livre. 

- Venício de Lima e Beto Almeida discutindo comunicação e violência. 

- Thiago de Mello puxando aplausos em homenagem a García Márquez. 

- O texto lido por Ignácio de Loyola Brandão com as recomendações da ditadura para os jornalistas da época.

- A surpresa do público que foi ver o Mia Couto e descobriu o Gonçalo M. Tavares. 

- A participação da Ana Paula Maia no debate com novos ficcionistas e sua observação sobre os personagens burgueses da nossa atual literatura. 

- A presença do presidente de Gana no Seminário Krisis. 

- O nível das discussões levantadas pelo americano James Holsten no Seminário Krisis.

- Cristóvão Buarque falando sobre as utopias da modernidade.

- A envolvente conversa de Marçal Aquino sobre adaptações literárias para o cinema. 


DESTAQUES NEGATIVOS

- A programação foi divulgada com míseros sete dias de antecedência. 

- Carlos Heitor Cony e João Ubaldo Ribeiro, anunciados como atrações ainda no começo do ano, estavam fora desta programação. 

- Os 500 ingressos para a homenagem ao Eduardo Galeano se esgotaram em 1h, embora a página no Facebook dissesse que foram em 4h e estivessem previstos incríveis dois dias de distribuição. Cada pessoa tinha direito a dois ingressos. No fim entrou até quem não tinha nenhum. 

- Até algumas horas antes da homenagem ao Galeano ainda não se sabia se haveria ou não um telão para quem não conseguiu entrar. 

- A página da Bienal no Facebook bloqueou os meus comentários depois das minhas críticas à organização desta homenagem. E olhe que era uma Bienal para refletir sobre o período da ditadura. 

- No primeiro dia da Bienal, ainda não estavam prontos os auditórios Jorge Amado e Nelson Rodrigues, embora debates estivessem previstos para eles. Improvisou-se um auditório no Pavilhão D. 

- Todas as três mesas sobre os novos ficcionistas brasileiros foram marcadas para o terrível horário das 11h30 de sábado ou domingo, incluindo aí o dia de Páscoa. A assistência foi reduzida.

- No primeiro domingo estava previsto novo debate com Eduardo Galeano. O ingresso informava não apenas um horário errado para o evento, mas o próprio local. Fui até o Café Literário Jorge Ferreira, como estava escrito, e não encontrei a menor movimentação para esta palestra, que acabou acontecendo no Auditório Nelson Rodrigues.

- O Café Literário Jorge Ferreira, aliás, era um dos locais mais escondidos de toda a Bienal, prejudicando quem participava dos debates naquele local. Também as exposições sobre o Pasquim e as fotografias do tempo da ditadura estavam em locais remotos e perderam em assistência.  

- Alguns moderadores simplesmente sumiram, nas palavras da própria organização, obrigando a improvisações ou a realizar debates sem nenhum moderador, como foi o caso do bate-papo com Mia Couto e Gonçalo M. Tavares. O primeiro, inclusive, declarou-se meio perdido com a situação. Dois debates com os novos ficcionistas brasileiros atrasaram devido ao sumiço de moradores. 

- A não-previsão na programação dos debates que ocorreram no dia 21 de abril, todos realizados com pouquíssima participação do público. 

- Problemas de estrutura: os tapumes de madeira que serviram como piso tinham mais falhas, buracos e desníveis do que lugar seguro para caminhar. Os banheiros não tinham água. Os galões de água mineral ao longo dos pavilhões raramente eram repostos. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Os escritores brasileiros nos livros do exterior

Existe uma ferramenta chamada NGram Viewer que permite montar gráficos com a frequência que um termo é citado ao longo dos anos nos livros cadastrados no Google Books. O serviço está disponível para livros de diversas línguas, mas ainda não o português. Em todo caso, já é possível se divertir um pouquinho com as estatísticas de livros em outras línguas. 

Abaixo, um gráfico com a frequência de citação a alguns escritores brasileiros em livros de diferentes línguas. 


Livros em alemão

Livros em espanhol

Livros em francês

Livros em inglês

Livros em italiano