sexta-feira, 14 de março de 2014

Otto quer separar o Brasil

Perguntaram-me na última semana quem é esse Otto, de quem volta e meia falo por aqui. Admira-me muitíssimo que não o conheçam, muitíssimo. Talvez apenas não estejam atinando o nome com a pessoa. Não creio que exista pessoa em São Bento que nunca o tenha visto, e mais: que nunca tenha conversado com ele. Otto é bastante simpático, expansivo como um italiano. Mas não cometam, jamais, a indelicadeza de chamá-lo de brasileiro – embora tenha nascido no Brasil. Acabei me esquecendo disso na última vez que nos encontramos, e foi o que bastou para que o Otto fizesse um discurso a favor da separação do Brasil – ou melhor, do sul do Brasil. Dizia ele, embebido pelo som das próprias palavras, que, afora as questões econômicas, a separação se justificava também do ponto de vista étnico – ele disse cultural, mas eu entendi étnico.

Bolas, o Otto, como todos sabem, é mais alemão do que os concertos de Brandenburg. Se bem entendi a sua argumentação, ele dizia que a vida civilizada havia começado na região sul ali pela segunda metade do século XIX, quando as primeiras levas de imigrantes começaram a chegar da Europa. Antes disso, só vida selvagem e brucutu – só índio Xokleng e Kaingang. Em uma palavra: bugres. O Brasil mesmo, o Brasil português, o Brasil de Pedro Álvares Cabral, este começava um pouco depois de Adrianópolis, do lado de lá do Vale do Ribeira – já em São Paulo, portanto. De modo que nunca houve a menor relação entre o Brasil de lá e o Brasil de cá, donde se explica a distinção cultural que nos faz ignorar solenemente o Carnaval. Nada mais lógico, portanto, que também a cultura servisse de argumento para a separação do sul.

Isso tudo foi o que eu consegui entender do arrazoado do Otto, que eu ouvi como se fosse um ministro de Estado. Quando chegou a minha vez de falar, dei um longo suspiro, como aqueles da Hortênsia antes de arremessar a bola. Perguntei se o Otto se lembrava de sua bisavó brasileira – e ele disse que vinha tentando esquecer. A verdade é a seguinte: dos oito bisavôs do Otto, sete são alemães e uma é brasileira. E mais ainda: de Campo Alegre. Chegou até lá vinda do Paraná – era mais paranaense que carneiro no buraco. Duas ou três gerações antes sua família vinha de São Paulo, ou seja, do Brasil. Falei de uma vez: o Paraná foi feito por paulistas. Os mesmos paulistas que se espalharam por Minas Gerais, pelo Centro-Oeste e, vejam que coisa, até pelo Rio Grande do Sul. Havia vida no sul bem antes do século XIX e, como se não bastasse, vida brasileira. Até imigrantes já havia, e daqueles que falavam a língua de Camões – Santa Catarina se tornou praticamente uma ilha dos Açores.

Falei, falei, e não sei se o Otto me entendeu. Ao final saiu-se com a solução: “Pois anexemos também São Paulo. O Sul mais São Paulo!”. Achei, no fundo, uma bonita concessão. E a verdade é que não é a única. Não faz muito tempo eu soube de uma proposta de separação que incluía o Sul, São Paulo e ainda o Mato Grosso do Sul. Por aí já se percebe que o movimento separatista ganha cada vez mais adesões, e quem sabe um dia não seremos a maioria – 26 estados mais o Distrito Federal, todos unidos pela separação.  


sexta-feira, 7 de março de 2014

Otto, a praça e a França

 Aproveitei o Carnaval para passar uns dias em São Bento na casa do Otto, o Bismarck das Araucárias. Como bom brasileiro, o Otto não gosta do Carnaval – e é verdade mesmo: a maioria dos brasileiros não gosta. Mas antes de falar de Carnaval a gente falou sobre a Praça Getúlio Vargas. Ano passado a gente tentou, em vão, tirar Getúlio Vargas da praça: fomos impedidos por forças ocultas. Agora o Otto me avisou que a praça está mais pelada do que a Vênus de Botticelli. De início não quis acreditar e disse que só me convenceria se eu pudesse sentir as suas chagas. Pois o Otto me levou até lá e eu vi com os meus próprios olhos a praça nuinha, nuinha. A visão me deixou bastante desorientado e com duas ou três voltas pela praça eu já não sabia mais onde eu estava (achei que estava virado para a Travessa José Zipperer, mas era a Jorge Lacerda).

Quando Otto me resgatou, eu aproveitei para perguntar se não haviam cogitado aproveitar a poda da praça para dar a ela um nome mais condizente, mas ele foi sincero como um cavalheiro do Apocalipse: ninguém havia pensado nisso. As árvores centenárias se foram, mas o presidente continua lá – ele não brincava quando disse que saia da vida para entrar na história. Vão-se as árvores, mas as adulações são eternas.

É evidente que o filho do Otto não derramou uma mísera lágrima pelas árvores que precisaram ser cortadas. Otto, o filho do Otto, nasceu sem passado – não houve jeito de lhe transmitir características hereditárias. Para ele, uma árvore centenária tem o mesmo interesse de um calendário do ano passado e deve ter o mesmo destino. “Plantam-se outras e fim de papo”, disse ele, prático como uma motosserra.

Esgotado o tema da praça, falamos do Carnaval. Ou melhor, não falamos do Carnaval. Falamos do Brasil, esse país tropical em que a má sorte fez Otto nascer. Otto, já disse tantas vezes, é o mais alemão dos são-bentenses – e não tem certidão de nascimento nem teste de DNA que prove o contrário. Pois o Otto começou a falar do Brasil, e a falar mal. Perguntou se eu havia visto o que uma revista francesa disse sobre o Brasil. A revista havia desancado o Brasil de tal maneira que a coisa mais lógica a se fazer era o suicídio coletivo. E o Otto citava, uma a uma, as críticas da revista, e era coisa de se ver como seus olhos brilhavam de emoção. E então veio a pergunta fatal: “E você, o que acha?”.


Não sei por que, mas o Otto realmente leva em consideração aquilo que eu penso. É uma admiração que nasce das minhas pesquisas históricas. Para ele, isso me torna mais alemão do que o jovem Werther. Pois eu tive que dizer o seguinte: a revista francesa não havia dito quase nada daquilo. Otto recuou, incrédulo. Insisti e perguntei se ele por acaso havia visto a revista. Ele negou, até porque só fala a língua de Goethe e, meio a contragosto, a de Machado. Pois eu confessei o seguinte: também não vi. Mas só de olhar para aquela lista eu já sabia que havia sido feita por um brasileiro, tão brasileiro quanto a urna eletrônica. E disse mais: se alguma revista escrevesse tudo aquilo sobre o Brasil, nós cortaríamos relações com a França. Otto ouviu tudo aquilo impassível: “Mas que é verdade, isso é...”.


  

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Otto, a praça e Getúlio Vargas

Há algumas semanas defendi a alteração do nome da Praça Getúlio Vargas para “Jardim do Imigrante”. Aparentemente, agradei a gregos e goianos. Otto, o único alemão nascido em São Bento, foi um dos que mais me felicitaram. Achei exagero apenas quando sugeriu que também mudássemos a Jorge Lacerda para “Slomann”, a Felipe Schmidt para “Guetzow”, a José Zipperer para “Stefanstrasse” e, o que é pior, a Avenida Argolo para “Vebindungsweg”. Educadamente, agradeci as sugestões, mas disse que nesse momento precisávamos de foco – e o foco, evidentemente, era mudar o nome da Praça Getúlio Vargas.

Como era de se esperar, uma voz se ergueu contra a mudança: Otto, o filho do Otto. Para ele, o ideal seria suprimir de todos os documentos, antigos ou atuais, qualquer menção, ainda que indireta, a uma possível colonização feita por imigrantes. E, por mais que não lhe agrade dar à praça o nome de um ditador, ainda preferia isso a ter que reconhecer o seu passado europeu. Compreendamos: Otto renega sua história como o Dalton Trevisan faz com seus primeiros livros.

Mas eis que surgiu Anita, a nossa heroína – eu a apresentei há algum tempo: é a namorada do filho do Otto. Bolas, Anita é mais revolucionária que o bóson de Higgs. É mais chegada a um protesto que pico-pico em calça jeans. E foi justamente por isso que não apenas apoiou a alteração do nome da praça como inclusive quis organizar um protesto justamente no dia de aniversário da cidade. Verdade é que não se limitaria ao nome da praça: seria também contra a corrupção, o aumento da violência, Belo Monte, a guerra na Síria, o programa da Fátima Bernardes, e Deus sabe mais o quê. Enfim, era um protesto, e acabei acolhendo a ideia. O filho do Otto, sem saída, acabou cedendo às razões femininas e também passou para o nosso lado.

Tínhamos um grupo, afinal. E até então não havia aparecido nenhuma oposição. Eu tive o cuidado de ouvir a opinião do próprio Getúlio Vargas, o que só consegui graças à intervenção do Pai Fritz – esse ilustre são-bentense, primeiro pai de santo a usar sotaque alemão para conversar com almas penadas. Devo muitas das minhas descobertas históricas ao Pai Fritz, que já me baixou – literalmente – diversos livros antigos. Pois bem. Pai Fritz ouviu Getúlio Vargas, e descobriu essa coisa espantosa: Getúlio não se lembrava de existir uma cidade chamada São Bento. E quando perguntamos se aceitava abrir mão do nome da praça, disse que pouco se lhe dava, pois não pretendia largar a sua eternidade para visitá-la.


Disso se percebe que estão todos a favor, inclusive o maior interessado. Mas isso é justamente o mais curioso: ninguém é absolutamente contra a ideia, e a maioria é inclusive bastante simpática a ela. E, no entanto, não há até agora uma palha movida para que isso aconteça. Nem mesmo o nosso protesto aconteceu, pois houve aquele terrível temporal na véspera do aniversário, que destruiu na praça árvores contemporâneas ao Getúlio. Anita, que nas horas vagas é caçadora de teorias da conspiração, não deixou de ver nisso uma artimanha de forças ocultas, com o covarde objetivo de garantir que aquele que saiu da vida nunca mais saia da nossa história. 





segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A corrupção do bem


 Os nobres deputados do Distrito Federal aprovaram na última semana a criação da corrupção do bem. Não podendo tolerar mais os escabrosos desvios de dinheiro público na capital federal, os distritais concordaram que o melhor meio de combatê-los seria proporcionar também ao cidadão comum a possibilidade de se beneficiar com o esquema. Para alcançar tão longânime objetivo, decidiram por unanimidade oferecer um prêmio a quem denunciar casos de corrupção, e que consiste em 10% do dinheiro desviado.

A população de Brasília compreenderá que o dízimo desse dinheiro seja então desviado para o bolso de uma pessoa de bem, alguém que pesou todos os inconvenientes que a sua denúncia poderia trazer, mas por fim foi convencido pelo generoso argumento dos deputados, e observou comovido que ainda vale a pena ser honesto neste país. Também não haverá quem encontre reparo na remota possibilidade do denunciante já ter se envolvido ou se beneficiado em casos semelhantes, de modo que não será nenhuma extravagância cedermos a ela mais uma porcentagem de dinheiro público.

Sabendo que, à força de tão poderoso argumento, fatalmente surgirão muitos cidadãos dispostos a exercer plenamente a sua honestidade, os ilustres deputados, mostrando estarem realmente à frente do seu tempo, trataram de também decidir de que modo ocorrerá a divisão do dízimo em caso de várias pessoas denunciarem o mesmo caso de corrupção. Assim, ficou estabelecido que o primeiro a denunciar terá direito a 70% dos recursos da corrupção já previstos para o combate à corrupção. O segundo e o terceiro a denunciar dividirão os outros 30%, enquanto que o quarto, o quinto e todos os demais terão que se contentar com a sensação de estar fazendo a coisa certa.

Argutos observadores do comportamento humano, os distritais perceberam que o único meio de fazer com que o homem se interesse pelo coletivo é fazê-lo se interessar pelo individual. E o individual normalmente não vê problema algum em ter uma inesperada fonte de recursos financeiros, ainda que sejam 10%, pois em geral desviam-se somas avultadas, e os 10% viram facilmente muito dinheiro, donde se percebe que a Câmara Legislativa do Distrito Federal está ao mesmo tempo acabando com a corrupção e promovendo a inclusão social.

Como devidamente lembrado pelos deputados, em geral as pessoas sentem medo de denunciar casos de corrupção, pois ficam expostas e podem ter a sua segurança ameaçada. Em boa hora veio essa proposta de premiação, pois bem sabemos que com ela já não existe mais o que temer, considerando que normalmente as pessoas com muito dinheiro são também as que mais têm segurança, e a consciência disso se torna um argumento tão decisivo que, quem estava em dúvida, irá correndo denunciar até a própria mãe, se preciso for.

Dito isso, é preciso reconhecer os elevados ideais que norteiam a atividade legislativa no Distrito Federal, cuja iniciativa já começa a ser imitada em cidades como Curitiba, pois também por lá parece haver cabeças iluminadas e interessadas em resolver de uma vez por todas tão nefanda questão como essa da corrupção. Nem que seja preciso comprar meio mundo, esse mal será enfim extirpado do nosso meio.  

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Parabéns, Vovô!

 Uma vez por mês o domingo era na casa da minha avó. No princípio, eu era o único o neto. Muitos outros foram nascendo com o passar dos anos, mas apenas eu vinha de longe. Era quem menos convivia, portanto, com aquele velhinho pacato e simpático que atendia pelo nome de Vovô. Nem por isso deixei de receber a sua influência. Embora não tenha notícia de que Vovô tenha escrito algum texto durante a vida, vejo muito nitidamente que sem a sua sensibilidade também eu nada escreveria. Essa sensibilidade se manifestava de muitas maneiras, nem todas naturais. De vez em quando, por exemplo, Vovô sentia o futuro.

Um dia Tio Bernardo foi visitar a família. Vovô olhou para ele e notou algo diferente. Foi o que bastou. Assim que a visita foi embora, avisou a todos: “Essa foi a última vez que vimos o Tio Bernardo”. E quando a Vó Rosa foi tomar chimarrão na casa da Vó Chica, elas que nunca se deram muito bem, Vovô já sabia: “A Vó Rosa não vai muito longe”. E, de fato, nunca mais vimos Tio Bernardo, e a Vó Rosa também não foi muito longe. Certamente há outras histórias, menos trágicas, mas também espantosas. Tia Nina, que sabia da fama de Vovô, tratou logo de exorcizar: “Deus me livre dele falar alguma coisa sobre mim!”.

Por duas ou três vezes, foi o próprio Vovô quem morreu. Ainda criança eu o visitei no hospital em que morreu pela primeira vez. Mas, como os médicos diziam, ele tinha um coração de leão. E, além disso, havia parado de fumar há muito tempo, depois de receber o ultimato de um médico. Alguns anos depois lembro que o levamos para uma consulta no Hospital de Clínicas de Curitiba, onde eu próprio trabalharia mais tarde. Eu já morava em Curitiba quando Vovô morreu pela penúltima vez. Temíamos o telefonema fatídico, que afinal não veio. Quando voltei a vê-lo Vovô explicou que realmente ia morrer, e inclusive já via o céu e para lá se encaminhava, maravilhado, quando ouviu uma voz falando que aquela ainda não era a hora.

De volta à vida, Vovô continuou o mesmo. Sentava na mesma cadeira da cozinha, ouvindo as conversas da casa, e de vez em quando intervinha com alguma frase espirituosa, meio mal-humorada, mas que nós sabíamos ser puro gracejo e ríamos muito. Não falava muito, e com frequência ficava sozinho assistindo futebol. Talvez não transparecesse, mas sei que sentia o sofrimento dos outros. Até mesmo com lágrimas. Especialmente quando deve ter se dado conta de que não nos veria mais. E dessa vez nenhuma voz fez com que ele voltasse.

A última vez que vi Vovô era Dias dos Pais. Ele faleceria três semanas depois. Era de manhã e nós viemos de longe sem avisar. Conversávamos na cozinha quando Vovô apareceu no corredor. Acabara de se levantar. Olhou para nós com surpresa, sorriu e disse que havia mesmo ouvido umas vozes diferentes, mas não imaginou que fosse a gente. Estava muito bem disposto. Dirigi-me até ele para cumprimentá-lo e dar os parabéns pelo Dia dos Pais. Vovô agradeceu, mas me surpreendeu dando parabéns para mim também. Minha avó alertou que eu não era pai ainda.

- E daí? Merece os parabéns do mesmo jeito.

E então Vovô caminhou até uma sobrinha, já idosa, que também estava como visita.

- Parabéns, Teresinha... Parabéns!

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Celebração das historinhas

Para Eduardo Galeano

As historinhas se ofereciam a Eduardo Galeano e pediam para ser contadas. Eram histórias que haviam acontecido e também que nunca aconteceram, mas que aconteceriam no momento em que fossem contadas. Havia a história do menino que descobriu o mar e disse para o pai “me ajude a olhar”. Também havia a história dos soldados que durante trinta e um anos montaram guarda para um banquinho com tinta fresca. Ou ainda a história do espetáculo de pantomima que teve mais atores do que expectadores. As histórias chegavam de todas as partes da América. Algumas surgiam por ouvir, outras nas paredes, e outras ainda nos sonhos de Helena. E a maioria vinha mesmo é do tanto-sentir. Em comum, as histórias tinham o coração – mesmo as mais fodidas, as histórias de ditadura, ditadores e ditadoriados. E as historinhas não pediam muito, apenas um ou dois parágrafos, às vezes uma ou duas frases. Eram historinhas tão pequenas, mas incendiavam a vida com tamanha vontade que era impossível olhar para elas sem pestanejar, e quando chegou perto delas Eduardo Galeano pegou fogo.  

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Riqueza inconcebível


Santuário Dom Bosco
 A primeira coisa que reparei foi o tamanho do lustre. E também que não havia mais nenhuma outra iluminação em todo o Santuário. Isso tudo, é claro, depois de ser atingido pelos vitrais azuis que simulam um céu estrelado. No altar, um Cristo enorme crucificado. E pelas laterais os rotineiros avisos paroquiais. Um confessionário com paredes de vidro me fez lembrar de outros confessionários, talvez ultrapassados, que eram antes um móvel, feitos de madeira, e com uma cortina que separava a humilhação do pecador e a autoridade do sacerdote. Um cartaz aponta a direção dos souvenirs, escada abaixo. Lembro de outras igrejas e percebo que quase não há imagens. À esquerda do altar, no entanto, uma estátua de dois metros de altura homenageia aquele que leva o nome do lugar, também padroeiro de Brasília.

Dom Bosco tem uma história muito bonita de trabalhos pela juventude, mas também de misteriosos sonhos ou visões proféticas. A um desses sonhos atribui-se, muito forçadamente, a fundação de Brasília. Em 1883, o italiano Dom Bosco foi levado em sonho para a América Latina, onde pôde enxergar a expansão de sua Congregação Salesiana, mas também numerosos metais preciosos, jazidas e petróleo ainda escondidos sob o solo. Entre os paralelos 15 e 20, foi revelado a ele que, depois de escavadas as minas do lugar, apareceria ali a Terra Prometida que jorraria leite e mel, e esta seria de uma riqueza inconcebível. O Paralelo 15 atravessa justamente Brasília, o que não passou despercebido, nos anos 50, aos defensores da mudança da capital do país para o interior de Goiás. Assim foi feito e a profecia passou a ser adotada oficialmente, sem muita contestação, pois ninguém achou mais nada digno de nota acontecendo entre os ditos paralelos.

No entanto, para desmentir a atribuição da profecia à Brasília, bastaria perceber que por aqui não emana leite e mel, a menos que consideremos os casos de corrupção. Acompanhar o cotidiano de um trabalhador de Brasília, geralmente morador de uma distante e sofrida cidade-satélite, seria suficiente para questionar a riqueza inconcebível prevista para a cidade. Chego a pensar que Dom Bosco ouviu mal, e entendeu “riqueza inconcebível” o que era apenas “calor inconcebível”. Mas reconheço que, de fato, é a Terra Prometida por JK.

Na Itália, Dom Bosco se sensibilizou com os jovens sem família, gente que saia do interior e vinha tentar a vida na cidade grande. É o caso de tanta gente em Brasília – é o meu caso. Em outro dos seus sonhos, Dom Bosco via todos os jovens do mundo e recebia a missão de guiá-los por dez colinas. Alguns puderem subir em uma carruagem chamada “Inocência”. Quinhentos, no total. Todos os jovens do mundo, mas apenas quinhentos eram inocentes. Durante o caminho, houve um acidente com a carruagem e o número caiu para 150. Os demais iam a pé, e muitos se perdiam pelo caminho, para angústia de Dom Bosco. Talvez não seja um disparate tão grande associar também esta profecia à capital do país. Não é prova de outra coisa que o Santuário Dom Bosco conte com tão poucos jovens se comparado ao prédio vizinho – a sempre movimentada Academia Dom Bosco.