terça-feira, 11 de novembro de 2014

Gratidão (Dino Buzzati)

Um agradecimento por ter feito, especialmente para mim, o mundo tão grande e variado. Por ter feito tantos bilhões de outros homens, na aparência semelhantes a mim, para me fazer companhia e por tê-los espalhado por toda a parte, para que, onde quer que eu vá, não me encontre sozinho. Além disso: por ter feito viver muitos outros bilhões antes do meu nascimento, para que suas aventuras possam distrair-me e fazer-me pensar. E por ter criado tantas terras longínquas onde, se eu tivesse sido explorador, teria podido explorar. E por ter posto no mundo tantos sábios que podem me explicar as infinitas estranhezas deste reino; mesmo deixando sua maior parte ainda envolva em mistério para que, se for atraído, possa eu também descobrir alguma, ou, pelo menos, sonhar com elas nas noites de verão. E, suspensas no céu, miríades de estrelas, das quais percebo apenas uma mínima porção, reservando as outras para o caso de ter sido um astrônomo e tivesse desejado investiga-las. E assim por diante, poderia continuar a enumeração por centenas de páginas.
Pensando no assunto, algumas vezes parece-me até um exagero. Quantas montanhas, mares, cidades, linguagens e músicas, auroras e crepúsculos que nunca verei, de cuja existência nem suspeitarei. Um universo imenso com uma infinita variedade de vidas diversas, uma coisa tão bela e tão grande para mim, pobre ser que nem sabe olhar ao redor de si. Esse tormento de nascimentos, de sofrimentos e de tragédias, perpetuado por milhões de anos com a única finalidade de me comprazer!
Deus, agradeço-te também por teres favorecido tantas dores para que eu possa apreciar o meu pequeno bem. Mais ainda, teres provocado guerras e ódios infernais para que, medindo a perfídia dos homens, não me afeiçoe excessivamente a este mundo. E tê-los feitos inimigos e miseráveis também em relação a mim, para que, reconhecendo-me igual a eles, duvide sempre dos meus méritos, e além disso me considere pobre eu também e abjeto.
Agradeço-te também os inumeráveis medos, desilusões, penosas esperas, doenças, e ter-me, finalmente, evitado a possibilidade de ser feliz, para que a existência me apareça pouco a pouco cada vez mais ingrata; e para que eu aprenda a deixa-la sem excessivas nostalgias.
Maravilhosa solicitude! Tudo foi estudado de maneira – cadeia sem fim de tragédias, de baixezas, de perversidade,, de mortais indiferenças – de maneira que, pouco a pouco, esta casa me agrade um pouco menos. E para que eu comece, ao contrário, a desejar outra, exatamente aquela que talvez me espere.
Este aparato de males, um oceano negro, foi disposto, com magnificência, exclusivamente para mim!, penso, às vezes, perdido. Mas não é um desperdício, se pensarmos em quanto sou pequeno?
Entretanto, vede, não basta (e aqui se encontra a suprema maravilha). Tudo e todos ao meu redor, olhando-me nos olhos, sem nunca deixar prevalecer minha astúcia avidíssima, mostram-me, com seu exemplo, a vaidade das coisas ou me fazem cair para que eu sinta como é áspera a terra; com paciência infinita desfazem, à medida que as tento, as tramas de minha espera. Não basta, vos digo. Cego, cada vez levanto novamente a cabeça, desprezando tanta sabedoria que se espalha no universo.
Cada manhã recomeço, estupidamente me preparo para gozar este palácio misterioso. O coro diário de penas, de soluços e de mortes me ameaça em vão. Não quero compreender. O hóspede, sorrindo, não se cansa de indicar-me a porta, convidando-me a olhar além, para o reino feliz. Mas eu, estúpido, me obstino, permaneço sentado brincando, esperando, distraindo-me com pedrinhas. Obstinado, permaneço parado e estremeço a cada rangido, na solidão do jardim. 

(In: "Naquele exato momento", Editora Nova Fronteira, 1986)

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Otto vai às urnas

Nos últimos dias, muitas pessoas têm me parado na rua para pedir notícias do Otto, o mais alemão dos são-bentenses. Querem saber o que aconteceu com ele depois que eu lhe joguei na cara, à queima-roupa, que alguns dos seus ancestrais eram baianos. De fato, eu próprio cheguei a ficar preocupado, e foi movido por certo sentimento de culpa que tornei a visitá-lo no último fim de semana. Venho aqui, portanto, tranquilizar a todos: Otto, o Bismarck das Araucárias, nunca esteve tão bem – está tão saudável quanto um soldado prussiano.

Entre as coisas que admiro no Otto está a sua capacidade de esquecer tudo o que lhe desagrada. Por um lado, isso me obriga a repetir a cada encontro que os seus antepassados vieram da Boêmia, e não da Alemanha, mas por outro permite que ele passe por cima, com a maior naturalidade, de informações tão duras como essa de que há sangue baiano correndo em suas veias. Quando fiz uma ligeira alusão ao assunto, ele disse que estava tudo bem, afinal, “também houve imigração alemã na Bahia”. Achei melhor não levar a discussão adiante.

Até porque, não se falou em outra coisa além de política (eu sempre escolho as piores épocas para visitá-lo). Otto, em termos de política, é mais conservador que o Celso Roth em termos de futebol. Tem simpatia pela monarquia e, no fundo, concorda com os imigrantes que viam na República uma espécie de anticristo. Não havendo príncipes ou reis, limita-se a votar nos partidos de direita. Ao analisar os resultados do primeiro turno, Otto voltou a defender a separação do sul do Brasil. Já disse aqui uma vez: Otto quer separar o sul do Brasil. Ou melhor, o sul mais São Paulo e o Mato Grosso do Sul – que, além de ser “do Sul”, ainda tem o Pantanal, que é ótimo para pescar, e não agradaria ao Otto ter que atravessar fronteira para chegar lá.

Deixei que falasse, pois havia prometido a mim mesmo que dessa vez não iria me desentender com ele. O problema foi que dali a pouco chegou o Otto, o filho do Otto. Vocês sabem: o filho do Otto é, sobretudo, o anti-Otto. Ao contrário do pai, o filho do Otto se posiciona sempre à esquerda (às vezes se posiciona tão à esquerda que chega a sair do esquadro). Quando viu que falávamos sobre política, quis entrar na discussão, e garanto que ela não foi nem um pouco mais edificante do que aquelas que temos acompanhado pelo Facebook. Procurei não me intrometer, pensando comigo que tudo aquilo não passava de um simples problema de ortografia (para o pai, o importante era a Prússia; para o filho, a Rússia).

Foi quando eles se viraram para mim e, em busca de apoio, perguntaram o que eu achava. Fui sincero como uma pesquisa de boca de urna: eu ainda não tinha uma posição definida sobre essa eleição. Mal terminei de falar isso e pai e filho se voltaram contra mim, cobrando energicamente uma definição, dizendo que eu não podia ficar em cima do muro, que é preciso ser quente ou frio, que eu não posso me eximir, que é o futuro do país que está em jogo e que não é hora para se acovardar. Olhei espantado para aquela dupla, repentinamente unida em um mesmo propósito. E só então me ocorreu o óbvio: para quem briga, pior que pensar diferente é não pensar em brigar.


Leia todas as histórias com Otto, o mais alemão dos são-bentenses: 

1. Otto e a cidadania europeia 










terça-feira, 23 de setembro de 2014

Reflexões em tempos eleitorais

Nenhum argumento convence quem não deseja ser convencido. Não adianta apresentar as suas conclusões a quem ainda não chegou a elas. A única maneira de uma pessoa concordar com você é oferecer meios para que ela - se quiser - chegue sozinha às suas próprias conclusões. Não é outra a lógica das parábolas: uma linguagem figurada, um sentido obscuro que obriga - aqueles que assim desejarem - a refletir a respeito. Sendo bem construída, ela faz com que o ouvinte chegue à mesma conclusão de quem a contou. E, no entanto, se tudo fosse dito abertamente desde o início, onde haveria disposição para aceitá-la?
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Pode até funcionar para grande parte da população, mas, para mim, quem se preocupa mais em desconstruir a imagem do adversário - seja ele quem for - amontoa brasas sobre a sua própria cabeça. 
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Para que um candidato elogie o seu rival, é preciso que ele morra.
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Todos parecem dispostos a provar de forma racional a superioridade das suas escolhas, mas o que parece ser realmente decisivo na escolha de um candidato é a fé que se deposita nele.
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Há propostas de governo tão perfeitas - pelo menos da forma que são apresentadas - que só falta incluírem a ressurreição da carne.
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Todo mundo é a favor de uma nova política, mas eu ainda não vi ninguém prometendo ser uma nova pessoa.
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O desafio: deixar que o outro seja livre para fazer o que eu não concordo. 
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Como nos parecem sensatas as pessoas que concordam conosco!
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Acredite: é possível que uma pessoa inteligente e honesta intelectualmente chegue a conclusões totalmente opostas às suas.
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Quando foi a última vez que você voltou atrás em uma discussão?
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Ainda prefiro alguém que volte atrás a alguém que, com toda a sua coerência e firmeza de propósitos, nos leve ao precipício.
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Tudo será perdoado ao homem - menos que ele tenha alguma dúvida.
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Carreata serve para cantar vitória – mesmo diante da mais flagrante derrota.
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A mim pouco importa que a candidatura de um político ficha suja tenha sido finalmente barrada pela justiça eleitoral: antes, ela já havia sido barrada pelo tribunal mais terrível de todos, que é o da minha consciência.
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Não sei qual é a melhor estratégia para a nossa economia. Não sei se a autonomia do Banco Central é boa ou ruim. Não sei como resolver a questão da segurança pública. Não sei quais propostas de campanha são inviáveis. Não sei o que fazer para conseguir a paz mundial. Mas deixo aqui a minha admiração por todos aqueles que sequer precisam pensar a respeito: em segundos, enxergam todos os ângulos possíveis de uma realidade e sabem exatamente qual é o caminho ideal a seguir. 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Otto vê a goleada da Alemanha

Estive rapidamente em São Bento e aproveitei para assistir ao jogo do Brasil contra a Alemanha na casa do Otto, o mais alemão dos são-bentenses – vejam vocês que ideia a minha! Ora, o Otto nasceu no Brasil por mera contingência. Espiritualmente, é mais alemão do que o classicismo de Weimar. Mas eu estava curioso para ver como ele reagiria a um Brasil e Alemanha. E, além do mais, eu queria mostrar a ele o resultado de algumas pesquisas genealógicas que fiz sobre a sua família. Fui, pois, até a casa dele.
Quem me recebeu foi a Dona Johanna, sua esposa – acho que nunca falei dela, e muito provavelmente porque estava ocupado demais me deliciando com os seus cuques. Disse que o velho Otto havia saído para comprar fogos e não demorava. Convidou-me a entrar e fui cumprimentar o Otto, o filho do Otto. O filho do Otto não gosta de futebol ou de qualquer coisa que não resolva o problema da saúde ou da educação no Brasil. Para o filho do Otto, o brasileiro só deveria se dar ao luxo de uma distração depois que a última criança da última escola da última cidade recebesse uma educação digna. Até lá, deveríamos ostentar pesado luto e só fazer amor para fins de procriação. É claro que ele não iria assistir ao jogo, ainda mais da Alemanha – Otto, o filho do Otto, já fez uma declaração abrindo mão dos seus genes.
Não dei muita conversa para ele e fui falar com Anita, a sua namorada. Anita olhou para mim e foi sincera como um profeta: “A Copa está comprada pelo Brasil”. Gelei por dentro e quis saber: “Mas como? E essa contusão do Neymar?”. Ela então me lançou um olhar de pena diante de tamanha ingenuidade. Lembrei-me ainda das bolas na trave contra o Chile, mas achei melhor não dizer nada. A Copa está comprada! Quem diria! Anita, vocês sabem, é uma caçadora de teorias da conspiração e, pelo que ela diz, o homem nunca foi à lua e o Fred também nunca foi atacante.
Mas eis que chega o nosso homem – Otto, o Bismarck das Araucárias. Recebeu-me com a costumeira cordialidade. Vestia a camisa da Alemanha. A do Schweinsteiger, é claro: “Ele tem o nome mais alemão de todos”, explicou. Ofereceu-me uma cerveja, mas dessa vez eu vim preparado e mostrei-lhe um atestado da minha gastro. E sentamos no sofá à espera do jogo. Bolas, o que foi aquele jogo? Otto exultava a cada gol. 30 minutos de jogo e não tinha mais fogos. Eu estava aborrecido, mas tolerava tudo aquilo. Até resolvi fazer uma piada: disse que desde a Segunda Guerra que os alemães não faziam uma blitzkrieg como aquela – por algum motivo eles não riram.
Só que chegou um momento que Otto passou da conta. Começou a falar que era a vitória da competência sobre a malandragem, que a disciplina havia sepultado o jeitinho brasileiro, que o chopp era muito melhor que a caipirinha, e por aí afora. Não me aguentei e joguei-lhe na cara: “Otto, você nem é alemão. É mais brasileiro do que o spray que o juiz usa. E outra, seus antepassados eram austríacos e lutaram contra a Alemanha”. Ele se assustou, mas eu continuei: “E sabe aquela sua única bisavó brasileira? Descobri que ela tem origens na Bahia. Na B-A-H-I-A”. E então, como o jogo estava perdido, levantei-me, peguei outro cuque, e fui embora.


quinta-feira, 24 de abril de 2014

Avaliações da II Bienal Brasil do Livro e da Leitura

Na condição de quem participou ativamente de todos os 11 dias da II Bienal Brasil do Livro e da Leitura, realizada em Brasília entre os dias 11 e 21 de abril de 2014, coloco abaixo alguns dos meus destaques positivos e negativos sobre o evento. No geral, os debates promovidos pela Bienal foram muito bons, mas a organização deixou muito a desejar em alguns pontos.

DESTAQUES POSITIVOS

- As historinhas contadas por Eduardo Galeano na abertura da Bienal.

- A conclusão da mesa com Xico Sá e Sérgio Rodrigues de que é possível torcer para o Brasil sem entrar em conflito com a sua consciência política. 

- O nível do debate sobre biografia, com participação do Ruy Castro e moderação do Toninho Vaz.

- As moderações de Toninho Vaz, Paulo Rossi, Rosana Jatobá e do curador Luiz Fernando Emediato. 

- A decisão de distribuir ingressos individuais para as palestras, ao contrário da primeira Bienal, em que o acesso era livre. 

- Venício de Lima e Beto Almeida discutindo comunicação e violência. 

- Thiago de Mello puxando aplausos em homenagem a García Márquez. 

- O texto lido por Ignácio de Loyola Brandão com as recomendações da ditadura para os jornalistas da época.

- A surpresa do público que foi ver o Mia Couto e descobriu o Gonçalo M. Tavares. 

- A participação da Ana Paula Maia no debate com novos ficcionistas e sua observação sobre os personagens burgueses da nossa atual literatura. 

- A presença do presidente de Gana no Seminário Krisis. 

- O nível das discussões levantadas pelo americano James Holsten no Seminário Krisis.

- Cristóvão Buarque falando sobre as utopias da modernidade.

- A envolvente conversa de Marçal Aquino sobre adaptações literárias para o cinema. 


DESTAQUES NEGATIVOS

- A programação foi divulgada com míseros sete dias de antecedência. 

- Carlos Heitor Cony e João Ubaldo Ribeiro, anunciados como atrações ainda no começo do ano, estavam fora desta programação. 

- Os 500 ingressos para a homenagem ao Eduardo Galeano se esgotaram em 1h, embora a página no Facebook dissesse que foram em 4h e estivessem previstos incríveis dois dias de distribuição. Cada pessoa tinha direito a dois ingressos. No fim entrou até quem não tinha nenhum. 

- Até algumas horas antes da homenagem ao Galeano ainda não se sabia se haveria ou não um telão para quem não conseguiu entrar. 

- A página da Bienal no Facebook bloqueou os meus comentários depois das minhas críticas à organização desta homenagem. E olhe que era uma Bienal para refletir sobre o período da ditadura. 

- No primeiro dia da Bienal, ainda não estavam prontos os auditórios Jorge Amado e Nelson Rodrigues, embora debates estivessem previstos para eles. Improvisou-se um auditório no Pavilhão D. 

- Todas as três mesas sobre os novos ficcionistas brasileiros foram marcadas para o terrível horário das 11h30 de sábado ou domingo, incluindo aí o dia de Páscoa. A assistência foi reduzida.

- No primeiro domingo estava previsto novo debate com Eduardo Galeano. O ingresso informava não apenas um horário errado para o evento, mas o próprio local. Fui até o Café Literário Jorge Ferreira, como estava escrito, e não encontrei a menor movimentação para esta palestra, que acabou acontecendo no Auditório Nelson Rodrigues.

- O Café Literário Jorge Ferreira, aliás, era um dos locais mais escondidos de toda a Bienal, prejudicando quem participava dos debates naquele local. Também as exposições sobre o Pasquim e as fotografias do tempo da ditadura estavam em locais remotos e perderam em assistência.  

- Alguns moderadores simplesmente sumiram, nas palavras da própria organização, obrigando a improvisações ou a realizar debates sem nenhum moderador, como foi o caso do bate-papo com Mia Couto e Gonçalo M. Tavares. O primeiro, inclusive, declarou-se meio perdido com a situação. Dois debates com os novos ficcionistas brasileiros atrasaram devido ao sumiço de moradores. 

- A não-previsão na programação dos debates que ocorreram no dia 21 de abril, todos realizados com pouquíssima participação do público. 

- Problemas de estrutura: os tapumes de madeira que serviram como piso tinham mais falhas, buracos e desníveis do que lugar seguro para caminhar. Os banheiros não tinham água. Os galões de água mineral ao longo dos pavilhões raramente eram repostos. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Os escritores brasileiros nos livros do exterior

Existe uma ferramenta chamada NGram Viewer que permite montar gráficos com a frequência que um termo é citado ao longo dos anos nos livros cadastrados no Google Books. O serviço está disponível para livros de diversas línguas, mas ainda não o português. Em todo caso, já é possível se divertir um pouquinho com as estatísticas de livros em outras línguas. 

Abaixo, um gráfico com a frequência de citação a alguns escritores brasileiros em livros de diferentes línguas. 


Livros em alemão

Livros em espanhol

Livros em francês

Livros em inglês

Livros em italiano



sexta-feira, 14 de março de 2014

Otto quer separar o Brasil

Perguntaram-me na última semana quem é esse Otto, de quem volta e meia falo por aqui. Admira-me muitíssimo que não o conheçam, muitíssimo. Talvez apenas não estejam atinando o nome com a pessoa. Não creio que exista pessoa em São Bento que nunca o tenha visto, e mais: que nunca tenha conversado com ele. Otto é bastante simpático, expansivo como um italiano. Mas não cometam, jamais, a indelicadeza de chamá-lo de brasileiro – embora tenha nascido no Brasil. Acabei me esquecendo disso na última vez que nos encontramos, e foi o que bastou para que o Otto fizesse um discurso a favor da separação do Brasil – ou melhor, do sul do Brasil. Dizia ele, embebido pelo som das próprias palavras, que, afora as questões econômicas, a separação se justificava também do ponto de vista étnico – ele disse cultural, mas eu entendi étnico.

Bolas, o Otto, como todos sabem, é mais alemão do que os concertos de Brandenburg. Se bem entendi a sua argumentação, ele dizia que a vida civilizada havia começado na região sul ali pela segunda metade do século XIX, quando as primeiras levas de imigrantes começaram a chegar da Europa. Antes disso, só vida selvagem e brucutu – só índio Xokleng e Kaingang. Em uma palavra: bugres. O Brasil mesmo, o Brasil português, o Brasil de Pedro Álvares Cabral, este começava um pouco depois de Adrianópolis, do lado de lá do Vale do Ribeira – já em São Paulo, portanto. De modo que nunca houve a menor relação entre o Brasil de lá e o Brasil de cá, donde se explica a distinção cultural que nos faz ignorar solenemente o Carnaval. Nada mais lógico, portanto, que também a cultura servisse de argumento para a separação do sul.

Isso tudo foi o que eu consegui entender do arrazoado do Otto, que eu ouvi como se fosse um ministro de Estado. Quando chegou a minha vez de falar, dei um longo suspiro, como aqueles da Hortênsia antes de arremessar a bola. Perguntei se o Otto se lembrava de sua bisavó brasileira – e ele disse que vinha tentando esquecer. A verdade é a seguinte: dos oito bisavôs do Otto, sete são alemães e uma é brasileira. E mais ainda: de Campo Alegre. Chegou até lá vinda do Paraná – era mais paranaense que carneiro no buraco. Duas ou três gerações antes sua família vinha de São Paulo, ou seja, do Brasil. Falei de uma vez: o Paraná foi feito por paulistas. Os mesmos paulistas que se espalharam por Minas Gerais, pelo Centro-Oeste e, vejam que coisa, até pelo Rio Grande do Sul. Havia vida no sul bem antes do século XIX e, como se não bastasse, vida brasileira. Até imigrantes já havia, e daqueles que falavam a língua de Camões – Santa Catarina se tornou praticamente uma ilha dos Açores.

Falei, falei, e não sei se o Otto me entendeu. Ao final saiu-se com a solução: “Pois anexemos também São Paulo. O Sul mais São Paulo!”. Achei, no fundo, uma bonita concessão. E a verdade é que não é a única. Não faz muito tempo eu soube de uma proposta de separação que incluía o Sul, São Paulo e ainda o Mato Grosso do Sul. Por aí já se percebe que o movimento separatista ganha cada vez mais adesões, e quem sabe um dia não seremos a maioria – 26 estados mais o Distrito Federal, todos unidos pela separação.  


sexta-feira, 7 de março de 2014

Otto, a praça e a França

 Aproveitei o Carnaval para passar uns dias em São Bento na casa do Otto, o Bismarck das Araucárias. Como bom brasileiro, o Otto não gosta do Carnaval – e é verdade mesmo: a maioria dos brasileiros não gosta. Mas antes de falar de Carnaval a gente falou sobre a Praça Getúlio Vargas. Ano passado a gente tentou, em vão, tirar Getúlio Vargas da praça: fomos impedidos por forças ocultas. Agora o Otto me avisou que a praça está mais pelada do que a Vênus de Botticelli. De início não quis acreditar e disse que só me convenceria se eu pudesse sentir as suas chagas. Pois o Otto me levou até lá e eu vi com os meus próprios olhos a praça nuinha, nuinha. A visão me deixou bastante desorientado e com duas ou três voltas pela praça eu já não sabia mais onde eu estava (achei que estava virado para a Travessa José Zipperer, mas era a Jorge Lacerda).

Quando Otto me resgatou, eu aproveitei para perguntar se não haviam cogitado aproveitar a poda da praça para dar a ela um nome mais condizente, mas ele foi sincero como um cavalheiro do Apocalipse: ninguém havia pensado nisso. As árvores centenárias se foram, mas o presidente continua lá – ele não brincava quando disse que saia da vida para entrar na história. Vão-se as árvores, mas as adulações são eternas.

É evidente que o filho do Otto não derramou uma mísera lágrima pelas árvores que precisaram ser cortadas. Otto, o filho do Otto, nasceu sem passado – não houve jeito de lhe transmitir características hereditárias. Para ele, uma árvore centenária tem o mesmo interesse de um calendário do ano passado e deve ter o mesmo destino. “Plantam-se outras e fim de papo”, disse ele, prático como uma motosserra.

Esgotado o tema da praça, falamos do Carnaval. Ou melhor, não falamos do Carnaval. Falamos do Brasil, esse país tropical em que a má sorte fez Otto nascer. Otto, já disse tantas vezes, é o mais alemão dos são-bentenses – e não tem certidão de nascimento nem teste de DNA que prove o contrário. Pois o Otto começou a falar do Brasil, e a falar mal. Perguntou se eu havia visto o que uma revista francesa disse sobre o Brasil. A revista havia desancado o Brasil de tal maneira que a coisa mais lógica a se fazer era o suicídio coletivo. E o Otto citava, uma a uma, as críticas da revista, e era coisa de se ver como seus olhos brilhavam de emoção. E então veio a pergunta fatal: “E você, o que acha?”.


Não sei por que, mas o Otto realmente leva em consideração aquilo que eu penso. É uma admiração que nasce das minhas pesquisas históricas. Para ele, isso me torna mais alemão do que o jovem Werther. Pois eu tive que dizer o seguinte: a revista francesa não havia dito quase nada daquilo. Otto recuou, incrédulo. Insisti e perguntei se ele por acaso havia visto a revista. Ele negou, até porque só fala a língua de Goethe e, meio a contragosto, a de Machado. Pois eu confessei o seguinte: também não vi. Mas só de olhar para aquela lista eu já sabia que havia sido feita por um brasileiro, tão brasileiro quanto a urna eletrônica. E disse mais: se alguma revista escrevesse tudo aquilo sobre o Brasil, nós cortaríamos relações com a França. Otto ouviu tudo aquilo impassível: “Mas que é verdade, isso é...”.